“Otimização do bloco operatório em Oftalmologia: o exemplo das injeções intravítreas”
05/01/2021 15:07:01
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“Otimização do bloco operatório em Oftalmologia: o exemplo das injeções intravítreas”

Com o objetivo de aprofundar possíveis formas de intervir na dinâmica de trabalho e na melhorias da eficiência do bloco operatório através de novas abordagens centradas na humanização para o doente e na otimização operacional para o hospital, o projeto “Otimização do Bloco Operatório” desenvolvido pela APAH e pela NOVA health & analytics lab da Universidade Nova de Lisboa, com o apoio da Bayer, foi o tópico do webinar intitulado “Otimização do bloco operatório em Oftalmologia: o exemplo das injeções intravítreas”, que decorreu no dia 17 de dezembro e que contou com a participação de administradores hospitalares e médicos oftalmologistas para a discussão dos seus resultados.

 

O Prof. Doutor Guilherme Victorino professor auxiliar convidado na NOVA Information Management School (IMS) nas áreas de Inovação, Gestão da Mudança e do Conhecimento, e moderador desta sessão,  deu início à mesma começando por explicar que para “alinhar perceções e atitudes entre diferentes stakeholders, tanto da componente clínica como da componente de gestão, e tentar identificar depois possíveis caminhos de intervenção”, foi utilizada uma metodologia baseada no Design Thinking “que se tem identificado muito relevante para desafios complexos na área da saúde”, e na qual “as soluções que tentámos identificar têm de estar na interseção de três dimensões: o que é desejável para os utilizadores, o que é financeiramente viável e o que é tecnicamente exequível”, explicou. De acordo com o especialista, após uma sessão assíncrona, em que os participantes responderam a um conjunto de questões divididas por diferentes blocos, os peritos tiveram oportunidade de discutir as suas respostas no modelo focus group virtual, tendo-se seguido uma componente síncrona online, onde foram apresentadas e discutidas “as principais tendências da análise de conteúdo que foi feita da primeira interação”.

 

“Para concretizar os objetivos planeados, de uma forma capaz e eficaz, temos de ter uma liderança que seja forte e adequada”

Para abordar os principais resultados do estudo tomou a palavra o Professor José Caiado, professor auxiliar convidado na NOVA IMS e Vogal da Comissão Executiva do SAMS. No âmbito deste estudo surgiram três dimensões que tentam sintetizar o contributo e o sentimento dos participantes no que respeita aos fatores que mais podem contribuir para a melhoria da eficiência no bloco operatório.

A primeira dimensão refere a valorização de recursos humanos, da liderança e da comunicação, onde se evidencia a necessidade “de ser capaz de conseguir atribuir tarefas aos diferentes órgãos da instituição de forma a poder concretizar aquilo que foi a atividade planeada e delineada”. Nesta dimensão, criar uma cultura organizacional focada numa gestão para o objetivo e pela melhoria contínua do desempenho da organização é “fundamental”, salientando-se a necessidade de “apostar na organização de gestão intermédia”, como é o caso dos centros de responsabilidade integrada, com vista à melhor articulação entre “a estratégia da instituição a médio e longo prazo, com aquilo que é a rotina da gestão operacional”.

A segunda dimensão, que diz respeito ao desenvolvimento de uma cultura de gestão de informação, salienta que “a capacidade de intervir atempadamente na correção dos desvios é critica para garantir o sucesso da instituição em termos de melhoria do desempenho”. Neste âmbito, a análise dos desvios verificados deve considerar medidas de desempenho tais como “indicadores de acesso, da qualidade, da produção e da atividade”, avaliados ao nível de cada serviço e departamento, sendo essencial a “integração de sistemas de informação que promovam um sistema de saúde mais ágil, célere e centrado no utente/doente”.  

A terceira dimensão, relacionada com a gestão operacional de processos e recursos, reflete que “é necessário dar capacidade e ferramentas de gestão para todos aqueles que fazem parte da organização”, assim como “dar uma maior autonomia de gestão com maior responsabilização”, que poderá existir por níveis distintos de autonomia, “em função do ponto de partida de cada organização e de cada serviço em particular, de acordo com os objetivos definidos e pretendidos”.

 

“A Oftalmologia é um excelente exemplo de oportunidade para a gestão de bloco e agilização de processos”

Numa reflexão sobre estas dimensões, a vogal da direção da APAH e do concelho de administração do Hospital da Cruz Vermelha, Prof.ª Doutora Catarina Baptista, afirmou que os hospitais são complexos de gerir, “com um triângulo muito difícil de equilibrar e que diz respeito à sustentabilidade, ao acesso e à qualidade”, revelando o estudo “uma clara oportunidade de sustentabilidade financeira, assim como uma oportunidade de melhoria de qualidade”.

Para a Prof.ª Doutora Catarina Baptista “a questão da valorização do doente, do volume e da produção é muito importante”, sendo o financiamento focado em resultados “o sistema que urge introduzir em Portugal”. O caráter ambulatório das injeções intravítreas permite “maior agilização para a utilização do bloco operatório para outro tipo de cirurgias que necessitam efetivamente destas instalações”, destacando ainda a importância de considerar os critérios clínicos na tomada de decisão. Por outro lado, salienta que os gestores “têm de ser parte da solução e tornar os processos o mais ágil possível com os recursos que temos”, e sublinha a necessidade de “ser bem fundamentado pela gestão intermédia o ganho em saúde”. “Temos de ser muito mais ágeis a nível de organização dos nossos cuidados e o financiamento tem de acompanhar”, acrescentou.

 

“Não imagina, como médicos, o que sentimos de não poder dar resposta e de sentir o sofrimento dos doentes no corredor”

Na opinião do Prof. Doutor Rufino Silva, professor associado de Oftalmologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e chefe da Secção de Retina Médica e Neuroftalmologia do Serviço de Oftalmologia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, “o tratamento com injeções intravítreas é efetuado em patologias muito frequentes”, como por exemplo a retinopatia diabética e a degenerescência macular relacionada com a idade, “envolvendo largas dezenas de milhar de doentes por ano em Portugal”, tornando “incomportável colocá-las em bloco operatório, além de desnecessário”. De acordo com o Prof. Doutor Rufino Silva, a alternativa possível passa por implementar “unidades dedicadas de alto rendimento”, o que requer pequenos ajustes como “reorganizar internamente o pessoal existente, alocá-los à unidade e chamar os doentes”, numa organização que “não entra em conflito com as restantes áreas dentro do departamento” e que permite “fazer todo o processo num dia”, evitando várias deslocações do doente ao hospital”, esclareceu.

Por outro lado, o oftalmologista salientou que “os critérios administrativos sobrepõe-se aos clínicos”, com importante impacto para o doente. Como exemplificou, “a catarata muito raramente é uma urgência ou uma necessidade imediata cirúrgica, enquanto que a vitrectomia em muitas situações o é”, e embora seja sempre dada prioridade ao doente que pode perder a visão “não conseguimos todos”. Desta forma, considera “fundamental” a existência de unidades dedicadas e a consideração de critérios clínicos na tomada de decisão, “aproximando os clínicos – médicos, enfermeiros, técnicos – da gestão e dos centros de decisão”, sendo esta uma “prioridade para todas as especialidades médicas”.

Na valorização do doente salienta ainda a importância dos Patient Report Outcomes, “colocando assim o doente no centro”, e “associar o financiamento de acordo com o valor acrescentado real, que inclui a opinião real do doente”; sobre a valorização do ato clínico apelou à aproximação entre os clínicos e informáticos no desenho de ferramentas, frisando a necessidade de “criar sistemas que evitem repetições e passos desnecessários”. “Aproximar o informático do clínico e o gestor do clínico refletir-se-á num ganho em gestão enorme”, acrescentou.

 

“É fundamental que haja um reforço da autonomia das instituições, acompanhada sempre por uma maior responsabilização em função dos resultados alcançados”

Abordando os espaços de oportunidade identificados no estudo, o Professor José Caiado salientou que “é necessário, a nível central, que haja um enquadramento adequado que permita remunerar os profissionais pelo desempenho”, sendo também fundamental que haja “um reforço da autonomia das instituições, acompanhada sempre por uma maior responsabilização em função dos resultados alcançados”, assim como “uma avaliação do desempenho dos próprios conselhos de administração, em função do cumprimento das metas estabelecidas no plano estratégico”, e ainda “ter programas de gestão da mudança organizacional, que permitam mais facilmente ir de encontro às necessidades do utente e capacidades de prestar cuidados por parte das organizações”.

Numa nota final, Prof.ª Doutora Catarina Baptista afirmou que para a melhoria da eficiência do bloco operatório é crucial abordar, entre outros, “a standardização de processos, bom planeamento dos tempos em sala e microgestão efetuada com a equipa multidisciplinar ao nível da gestão intermédia”.

O Prof. José Caiado sublinhou a importância de “começar a falar numa perspetiva de integração estrutural de cuidados de saúde, envolvendo a componente clínica, financeira e administrativa, que tenha efetivamente uma integração vertical completa e funcional, para otimizar os recursos existentes e prestar melhores cuidados de saúde à população”.

A finalizar, o Prof. Doutor Rufino Silva destacou a importância da proximidade entre o gestor e o clínico, em particular na tomada de decisão, por permitir “criar ferramentas, metodologias e sistemas de organização, certamente com muito mais eficiência”. “O doente é a peça fundamental e tem que estar no centro e os critérios clínicos são fundamentais na tomada de decisão, porque os ganhos em saúde não são imediatos: o doente que fica cego, fica cego, e isso tem um custo enorme para o país, além do sofrimento humano associado”, concluiu.

Reveja a sessão aqui.


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