Doença pulmonar obstrutiva crónica: “Apenas uma pequena percentagem de doentes está diagnosticada”
19/11/2020 15:56:36
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Doença pulmonar obstrutiva crónica: “Apenas uma pequena percentagem de doentes está diagnosticada”

O Dia Mundial da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica celebrou-se esta semana, a 18 de novembro. Em entrevista à News Farma, o Dr. João Munhá, coordenador da Comissão de Trabalho de Fisiopatologia Respiratória e DPOC da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), revela um dos maiores problemas da doença em Portugal – a maior parte dos doentes não é diagnosticada, situação que se agravou devido à recente pandemia.

 

News Farma (NF) | Qual a dimensão do problema da DPOC em Portugal?

Dr. João Munhá (JM) | O problema da DPOC em Portugal é muito grande, muito maior do que nós pensamos. Nós temos alguns dados de rastreios. De todas as formas de DPOC, encontramos uma incidência de aproximadamente 14% da população, embora esses dados tenham sido recolhidos em Lisboa e provavelmente possam não ser representativos de todo o país, mas seguramente andaremos por volta dos 10 ou 15% de incidência se tomarmos em conta os números que existem também internacionalmente. Uma vez que se trata de uma doença muito subdiagnosticada e apesar de estarmos a fazer extrapolações de dados, podemos afirmar que é certamente a doença respiratória crónica mais prevalente em Portugal.

NF | Qual o impacto da DPOC na mortalidade por doença respiratória?

JM | A DPOC é a doença respiratória crónica com maior taxa de mortalidade, sendo ultrapassada apenas pelas pneumonias, uma doença aguda que tem ainda taxa de mortalidade muito elevada, em Portugal. No caso das doenças respiratórias crónicas, a DPOC é sem dúvida a doença a com maior mortalidade não só em Portugal, mas em todo o mundo. A nível mundial, considera-se que é a terceira causa de morte, ultrapassada pelas doenças cardiovasculares. Portanto tem um peso considerável na mortalidade a nível mundial.

NF | Que importância tem a DPOC nos indicadores nacionais do programa nacional das doenças respiratórias?

JM | Um dos grandes objetivos do Programa Nacional de Doenças Respiratórias é conhecer os verdadeiros números da DPOC e identificar os doentes. Um dos grandes problemas é que existe um subdiagnóstico muito grande da DPOC, ou seja, a maior parte dos doentes não está diagnosticada, também não está tratada convenientemente. Penso que o Programa Nacional das Doenças Respiratórias foi muito inteligente e estrategicamente muito consciente ao escolher um teste simples como a espirometria, que é um teste de sopro, como ferramenta, não só para permitir identificar como para poder tratar. Este é um teste fundamental de diagnóstico e a implementação das espirometrias nos cuidados de saúde primários permitiria uma maior divulgação e conhecimento da doença junto dos médicos e junto dos doentes. Estrategicamente é muito importante, permitindo aumentar não só o número de diagnósticos como também o reconhecimento da existência da doença. Esse objetivo acabou por sair prejudicado com o aparecimento da pandemia de COVID-19.

A espirometria é um teste que é muito gerador de aerossóis, ou seja, é um teste que tem um grande risco de contágio entre o operador e a pessoa que está a fazer a espirometria. Portanto, não existindo condições de segurança nem proteção dos profissionais que o iriam fazer, foram restringidos só aos locais, nomeadamente laboratórios hospitalares, onde existem medidas de contenção da propagação.

NF | O que pode ser feito para melhorar esses indicadores?

JM | Para já, o reconhecimento é importante, bem como o tratamento adequado. E há muitas medidas de base que são opções até políticas e ultrapassam os profissionais. Sabemos que o consumo do tabaco, a poluição ambiental ou outros fatores são fundamentais para a existência desta doença com números tão elevados de morbilidade e mortalidade.

O combate ao tabagismo e a outras fontes de poluição que possam ser geradoras da doença é fundamental. A partir da base, tem de haver também divulgação não só das melhores metodologias de tratamento, como dos tratamentos mais eficazes e adequados a cada doente. Isso pode reduzir a mortalidade, além de ter um grande impacto na morbilidade e peso sócio económico da doença. Portanto, o tratamento adequado da doença é fundamental, mas para isso temos de ter também o diagnóstico e, aqui, a espirometria é, de facto, um instrumento simples, mas que serve múltiplos objetivos.

NF | Acredita que há espaço para melhorar o diagnóstico precoce?

JM | Claro que há espaço, muito espaço. Temos apenas uma pequena percentagem de doentes que estão diagnosticados, portanto, existe espaço para melhorar o diagnóstico. Há que divulgar mais a espirometria como um instrumento para diagnosticar a DPOC

A divulgação da doença também é fundamental. Isto passa não só pelos médicos, passa pelos atores políticos, governantes, passa também por outros parceiros, nomeadamente, associações de doentes, que são muito importantes. Nós temos de pensar que a abordagem desta doença não pode ser feita só profissionais, nem deve ser, porque as associações dos doentes, nomeadamente das doenças respiratórias crónicas como a Respira, são fundamentais, pois dão-nos feedback sobre como as pessoas pensam e vivem e sobre os problemas inerentes à doença.

NF | Instituir opções terapêuticas mais eficazes com maior antecedência pode contribuir para uma melhoria acentuada da qualidade de vida dos doentes?

JM | Pensamos que sim, há, de facto, alguns dados que apontam nesse sentido. Existe o considerado grande motor da mortalidade na DPOC que são as exacerbações. Portanto, existem fármacos, neste momento, que, em alguns doentes, permitem reduzir essas exacerbações. Podemos dizer que 1/3 dos doentes DPOC serão potencialmente exacerbadores, a partir de dados de um estudo realizado recentemente

A prevenção, através do combate ao tabaco e através da vacinação antigripal e antipneumocócica, contribui para a diminuição das exacerbações, mas existem tratamentos farmacológicos que permitem reduzi-las também.

Por outro lado, existe uma associação muito direta entre os sintomas e a mortalidade. Se precocemente evitarmos as exacerbações e precocemente tratarmos os sintomas, vamos evitar todo esse tempo de progressão e que o estado do doente se degrade até intervirmos. Portanto, quanto mais cedo detetarmos a doença menos exacerbações vamos ter, menos degradação clínica vamos ter. Vamos ter um doente mais otimizado.

NF | De uma forma prática, o que pode ser feito para doentes conseguirem viver bem com DPOC?

JM | Dou geralmente três conselhos práticos aos doentes:

  • Prevenir e prevenir, não fumar, evitar tudo o que possa fazer mal, evitar os poluentes e todas as inalações que possam fazer mal, a par de vacinar contra a gripe e contra a pneumonia. Esta parte é fundamental.
  • Cumpra o tratamento e discuta com o seu médico se o tratamento está a funcionar pois a adesão à terapêutica é fundamental.
  • Tenha uma vida ativa, faça exercício físico, tente ter uma vida o mais saudável possível.

Estes são os três eixos fundamentais: previna-se, tome as vacinas, não fume, tome os medicamente com regularidade, adira à terapêutica e faça umas caminhadas. Tenha uma vida ativa, porque isso vai fazer com que viva melhor e mais tempo.


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