COVID-19 e epilepsia nas populações especiais
27/07/2020 10:49:44
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COVID-19 e epilepsia nas populações especiais

A Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE) promoveu uma conversa virtual sobre a COVID-19 e a epilepsia em contexto de pandemia. Com a assinatura da News Farma e apoio de Bial, o webinar incidiu sobretudo em dois tipos de populações: as crianças e os idosos.

O que significa viver com epilepsia, uma doença que atinge quarenta a setenta mil habitantes em Portugal? E o que significa viver com epilepsia neste contexto de COVID-19? Que recomendações e cuidados especificamente a crianças e idosos? Estas e outras questões foram respondidas pelo Dr. Francisco Sales, neurologista / neurofisiologista e coordenador da Unidade de Epilepsia – CHUC, pela Dr.ª Cristina Pereira, neuropediatra e epileptologista pediátrica no Hospital Pediátrico e no Centro de Referência de Epilepsia Refratária – CHUC e pela Prof.ª Doutora Carla Bentes, neurologista / neurofisiologista e responsável pelo Centro de Referência para Epilepsias Refratárias no– CHULN.

Este evento, que decorreu no dia 24 de junho, surgiu com o interesse da LPCE em ampliar a sua mensagem e conhecimento, no sentido de melhor informar as pessoas com epilepsia. Juntou, assim, três especialistas da área para esclarecer verdades e os mitos desta condição associada à pandemia.

O Dr. Francisco Sales começou a intervenção evidenciando a literatura relacionada com a epilepsia que encontrou na plataforma PubMed. Até ao dia 24 de junho, detetou um total de 24.527 artigos, com temas como recomendações / FAQ / sociedades / associações, crises em doentes COVID-19 e organização Cuidados de Saúde. Concluiu, assim, que apesar de a epilepsia “não estar sob a luz dos holofotes”, há imenso material e informação, assim como recomendações de organizações da área como a LPCE. O coordenador da Unidade de Epilepsia do CHUC prosseguiu, dando um panorama mais geral, focando o que desencadeia as crises epiléticas num contexto de doença grave por infeção de COVID-19. “Raramente é de causa única. Geralmente é multifatorial”, afirmou e exemplificou serem “doentes muitas vezes com falência multiorgânica, que têm alterações metabólicas graves, hipoxia ou que tomam vários medicamentos”. A reconfiguração dos cuidados de saúde foi outro dos assuntos que o especialista abordou, tendo mencionado ter havido “um esforço dos hospitais para conviver com esta situação”. Sobre a reconfiguração, salientou a importância da telemedicina, contudo disse que tem de ser melhorado. “Percebemos que em mais de 90% do tempo é possível fazer consultas por esta forma, o que é uma inovação e temos de ter frutos dessa intervenção”, referiu o Dr. Francisco Sales, que ainda falou dos cuidados de saúde no Serviço de Urgência e dos cuidados de saúde na manutenção do tratamento.

As particularidades da idade pediátrica foram abordadas pela Dr.ª Cristina Pereira. A neuropediatra iniciou a intervenção com a apresentação de dados de um estudo retrospetivo das características de 2143 doentes pediátricos com COVID-19 na China, que mostra que 94% tinham doença assintomática, ligeira ou moderada, 5,3% doença grave e 0,6% doença muito grave. Outro grande estudo em idade pediátrica, de Itália, teve resultados semelhantes indicando que 83,9% das 130 crianças que participaram tinham doença assintomática, ligeira ou moderada, 8,5% com doença grave e 6,9% com doença muito grave. “As crianças apresentam uma menor gravidade à COVID-19, porque têm menor exposição, menor maturidade e função da ECA2, um sistema imunitário ‘treinado’ e imaturo”, comentou a oradora, que apontou os lactentes e as crianças com doenças crónicas como pertencentes ao grupo de risco da infeção por coronavírus.   

“As crianças com epilepsia não têm maior risco de infeção, assim como as crianças com epilepsia infetadas não têm doença mais grave. Os antiepiléticos não diminuem as defesas”, afirmou e abordou ainda crises sintomáticas agudas, as epilepsias genéticas e outras síndromes epiléticas como a síndrome de Dravet e a esclerose tuberosa. A Dr.ª Cristina Pereira falou sobre as medidas de segurança, que têm sido adotadas no Hospital Pediátrico e no Centro de Referência de Epilepsia Refratária – CHUC, no acompanhamento das crianças, deixou algumas recomendações para as famílias e terminou sublinhando o papel da escola. No seu entender, “cumpre não apenas uma função educacional, mas também satisfaz necessidades de socialização e promoção do bem-estar dos alunos. As crianças também aprendem a desenvolver competências como autoconfiança, amizade, empatia, participação, respeito, gratidão, compaixão e responsabilidade”. Neste sentido, tem a expectativa de que “possam regressar à escola em setembro”.

O objetivo da Prof.ª Doutora Carla Bentes foi deixar alguns pontos de discussão sobre epilepsia e COVID-19 na população com mais idade. Eles foram: um novo desafio, a experiência num centro de referência e um novo normal. “Um novo desafio que tivemos e ainda temos é manter a pessoa com epilepsia segura. Algo que implicou um grande esforço de adaptação que se fez sentir de uma forma praticamente imediata. Foi uma grande prova de agilidade para todos, sobretudo para o Serviço Nacional de Saúde”, disse a neurologista, considerando “o espírito de grupo essencial” no bom resultado até à data. Focou os cuidados médicos em epilepsia ao nível da consulta para falar sobre a experiência num centro de referência e começou por referir o plano de contingência adotado que englobou “segurança, prioridade clínica, organização de equipas e criação de circuitos diferentes”. No centro de referência onde exerce, as consultas presenciais reiniciaram-se já em maio, num “novo normal” com “grandes diferenças muito evidentes. No que diz respeito à mudança de paradigma dos cuidados médicos em epilepsia, a especialista acredita que “muito veio para ficar, mas muito pode ser melhorado”. A teleconsulta e novas tecnologias como complemento do seguimento em epilepsia, bem como as vídeo-conferências e reuniões virtuais vieram para ficar (e crescer), segundo a Prof.ª Doutora Carla Bentes. Quanto ao que pode ser melhorado, na sua opinião, será os registos clínicos e a sua interligação, a vídeo-consulta como complemento do seguimento, a vídeo-conferência com outros profissionais de saúde e o investimento na formação do próprio doente e/ou cuidador.

Já na reta final do webinar e depois de terem respondido a algumas questões específicas, os intervenientes deixaram uma mensagem final a todos aqueles que tiveram a oportunidade de assistir. O Dr. Francisco Sales voltou a salientar o novo normal, frisando que “não é voltar ao que era antes” e referiu na oportunidade que foi para melhorar a organização dos cuidados de saúde na área da epilepsia. A Dr.ª Cristina Pereira mostrou disponibilidade para os profissionais de saúde que pretendam discutir casos clínicos e endereçou uma mensagem às famílias no sentido de não terem receio de irem aos hospitais caso tenham essa necessidade. As últimas palavras foram da Prof.ª Doutora Carla Bentes tendo sido dirigidas às pessoas com epilepsia, a quem sugeriu o preenchimento do questionário na Liga Internacional Contra a Epilepsia, de modo a serem apuradas opiniões e necessidades que devem ser preenchidas. 

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