Gestão de comorbilidades em doentes não-COVID-19 para prevenção do AVC
08/05/2020 16:37:46
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Gestão de comorbilidades em doentes não-COVID-19 para prevenção do AVC

Organizado pela News Farma, com o apoio da Tecnimede, o webinar “COVID-19… cuidado! O AVC não está de férias” teve como propósito alertar para a necessidade de o doente não-COVID-19 não ficar em segundo plano, neste contexto de pandemia. Três especialistas de renome da Medicina nacional juntaram-se para mostrar que a hipertensão arterial, o colesterol e a diabetes não podem deixar de estar controladas, e que, para isso, a manutenção da medicação crónica e a adoção de um estilo de vida saudável são fulcrais. Durante a sessão foi também reforçado que os doentes não devem ter medo de procurar ajuda médica e devem acionar o 112 para evitar que eventos cardiovasculares tenham desfechos irreversíveis, como incapacidade ou até mesmo morte.

 

“Nas crises, há muitos aspetos que surgem e aumentam a mortalidade nestas circunstâncias, como as doenças cardiovasculares (DCV)”, começou o Prof. Doutor Jorge Polónia por dizer, referindo que “o controlo dos fatores de risco cardiovascular (FRCV) é, de longe, a melhor forma de reduzir os eventos cardiovasculares (CV)”.

De acordo com o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Porto, existem “estudos que mostram que há uma relação interdependente entre DCV e COVID-19”, uma vez que a primeira agrava as consequências da segunda, e vice-versa. “Portanto, temos aqui um processo de multiplicação de duas entidades”, reforçou, mencionando ainda um estudo de Madjid M et al., publicado este ano no JAMA Cardiology, no qual se observou que “doentes que não tinham doença pré-existente, após infeção por COVID-19, ficaram com lesões cardíacas e cerebrais, sugerindo uma agressão direta da infeção”.

Segundo dados apresentados pelo Prof. Doutor Jorge Polónia, “a mortalidade por COVID-19, até agora, tem sido praticamente só em indivíduos com mais de 60 anos, que são os que têm mais hipertensão arterial (HTA), mais diabetes e mais colesterol elevado”.

 

Contudo, tal como o consultor sénior da Unidade de Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular do Hospital Pedro Hispano evidenciou, “doentes sem COVID-19 estão a morrer de acidente vascular cerebral (AVC) e de enfarte agudo do miocárdio (EAM)” e isto acontece devido a:

  • Redução da terapêutica (acesso à medicação, medo, isolamento, etc.);
  • Redução do acesso aos cuidados de saúde (cuidados de saúde primários e hospitalares);
  • Medo do contato com os profissionais de saúde e de contrair COVID-19.

 

Assim, o Prof. Doutor Jorge Polónia sublinhou que “suspender a medicação CV em curso ou atrasar a ida ao hospital (se AVC ou EAM) pode ter um grande impacto, pelo que se houver um controlo dos atores de risco CV (HTA, diabetes, colesterol), o risco CV e de AVC diminui, e também muitas das consequências mais graves da infeção por COVID-19”.

Por sua vez, o Dr. Carlos Aguiar afirmou que “sendo a COVID-19 uma patologia que traz imenso stress a esta nova forma de viver e que torna mais difícil ter um estilo de vida saudável, e também é uma infeção respiratória que facilita a ocorrência de problemas CV”, o que deve estar a acontecer “é o aumento do número de EAM e AVC”. “Todos nós conhecemos casos de pessoas que tiveram os seus problemas, sabendo que estavam mal, não procuraram os cuidados de saúde e, infelizmente, faleceram em casa. E de problemas que poderiam ter sido tratados”, acrescentou.

 

Posto isto, o cardiologista do Hospital de Santa Cruz explicou quais os sintomas que devem alertar as pessoas para a necessidade de ligar para o 112:

  • No caso de EAM: “Geralmente, a pessoa sente um mal-estar, um peso no peito que pode ser mais na parte central do peito e espalhada mais para o lado esquerdo (zona ampla). Não é uma picada localizada por debaixo do mamilo, é um desconforto espalhado que pode passar ao pescoço, ao maxilar, ao braço (pela parte de dentro) e até mesmo às costas, entre as omoplatas. É uma dor que não passa e é bastante intensa. Pode fazer transpirar até ficar nauseado. Às vezes fica-se tonto também e com alguma falta de ar. Não passando, é logo o sinal que qualquer coisa de sério se pode estar a passar e devemos contactar o 112”;
  • No caso do AVC: “As manifestações clínicas são mais óbvias. Não mexer ou sentir um braço/perna/metade do corpo. Olharmos para o espelho e vermos que temos a cara completamente assimétrica, um olho que não fecha ou um lábio que está descaído. Se estamos a tentar falar e só nos saem coisas que não são aquelas que queremos dizer ou os outros não nos conseguem perceber. Também nesta situação, há qualquer coisa bastante mal e deve ligar-se 112”.

 

“E porque é que não devemos estar à espera de ver se estes sintomas passam? Em primeiro lugar, porque o tempo é crítico. Há terapêuticas que conseguem reverter um AVC e há também tratamentos que param logo a evolução do EAM, impedindo que se ‘estrague’ mais o coração”, declarou, completando: “Estes tratamentos só podem ser dados em meio hospitalar porque obrigam à realização de alguns exames para orientar as escolhas terapêuticas, ou no pré-hospitalar com o INEM que faz logo o eletrocardiograma – no caso de EAM – e o encaminhamento para o serviço de saúde mais próximo e para sermos imediatamente visto por um cardiologista ou um neurologista”.

Ainda assim, o Dr. Carlos Aguiar disse compreender o medo das pessoas “porque numa fase inicial da pandemia, os próprios profissionais de saúde desincentivaram a ida ao hospital”.

 

Como manter as comorbilidades bem controladas?

Para reforçar algo já assinalado pelo Prof. Doutor Jorge Polónia, o Dr. Almeida Nunes afirmou que “uma das várias razões que leva as pessoas a descontinuarem a medicação nesta época de pandemia é, por vezes, o medo de sair de casa e de adquirir os medicamentos na farmácia”. Por isso, o especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa referiu a existência de uma linha telefónica gratuita – criada pela Associação Nacional das Farmácias (ANF)​ – através da qual os doentes podem encomendar medicamentos e recebê-los em casa. Segundo o Dr. Almeida Nunes, “doentes que estejam medicados com produtos que normalmente vão buscar ao hospital, podem através desse mesmo número, o 1400, conseguir que alguém se encarregue de os ir buscar e de os levar a sua casa”.

Além desta questão da medicação, o Dr. Almeida Nunes abordou a telemedicina, enquanto ferramenta de apoio no controlo das comorbilidades dos doentes: “Tenho-a feito e creio que é melhor do que não fazer consultas ou nada. E acredito também que vai ser uma ferramenta importante no futuro, quando apurarmos esta técnica”. Mas para o especialista, “é preciso haver, da parte do profissional de saúde, muita experiência e muito bom senso para fazer a teleconsulta”.

Colocando a tónica nas pessoas com diabetes, como exemplo de doentes que necessitam de acompanhamento constante, o Dr. Almeida Nunes deu a sua perspetiva sobre quem é o verdadeiro alvo desta teleconsulta: “São aqueles que, essencialmente, estão bem controlados, necessitando apenas de um ajuste na terapêutica ou de controlo na alimentação”. No entanto, a seu ver, “para iniciar uma terapêutica antidiabética, como a administração de insulina, a teleconsulta não é o meio de excelência”.

“Tenho observado que as pessoas com diabetes tipo 2 estão relativamente mais descompensadas e percebe-se porquê. As pessoas estão mais confinadas, fazem menos exercício físico e consomem mais doces. Alguns dos doentes descontinuam a medicação ou tomam menos vezes, reduzem as doses. Por estas razões, os nossos diabéticos, de uma forma geral, estão menos compensados”, descreveu, rematando: “Fica aqui um grande aviso às pessoas de que devem fazer a medicação que faziam antes e devem por todos os meios tentar contactar o seu médico”.

Ainda sobre a questão de os doentes não tomarem as medicações crónicas e os motivos para isso acontecer, com enfoque no tratamento da hipertensão, e em particular sobre os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, os IECA, e os antagonistas dos recetores da angiotensina, os ARA, o Prof. Doutor Jorge Polónia sublinhou que “parar estes medicamentos é um crime porque o risco de produzir agravamento da doença, e inclusive a morte, está claramente documentada”. Tal como explicou o especialista, no início da pandemia surgiram algumas publicações sobre estas duas classes terapêuticas questionando sobre se as mesmas poderiam agravar a infeção por COVID-19 ou colocar em risco aqueles que ainda não estivessem infetados. “Logo a seguir a essas notícias, várias sociedades científicas foram absolutamente perentórias em dizer ‘isto é um disparate, não tem qualquer fundamento’”, expôs o Prof. Doutor Jorge Polónia, acrescentando que “a COVID-19 é uma doença inflamatória e estes medicamentos bloqueiam um sistema que produz inflamação. Por isso, “as pessoas não podem confiar na última notícia porque muitas vezes é sensacionalista e peca por falta de provas”.

Também o Dr. Carlos Aguiar defendeu que as pessoas “devem seguramente manter a medicação para reduzir o colesterol e os triglicéridos”, até porque “quando o médico olha para as artérias de uma pessoa que tem DCV, encontra duas coisas anormais: colesterol acumulado, infiltrado nas paredes dessas artérias, e células inflamatórias juntas com esse colesterol”. “Portanto, para evitarmos DCV, não queremos o colesterol alto e não queremos inflamação”, frisou, chamando a atenção para o aspeto de que “a inflamação das artérias não se trata da mesma maneira que se trata a inflamação dos ossos, das cartilagens, dos músculos e dos tendões. É uma inflamação que não se trata com anti-inflamatórios”. Isto significa que para “desinflamar as artérias do nosso corpo é necessário adotar um estilo de vida saudável e o controlo dos FRCV”.

Focando-se no colesterol, o cardiologista lembra que não é possível controlar os níveis com uma análise em casa, mas sim, “num laboratório devidamente credenciado e com os testes que estão recomendados”. Se isto não for possível, independentemente do motivo, então, “pelo menos, jamais tirar os medicamentos, reduzi-los ou deixar de os tomar”. “Este colesterol que causa problemas CV e que nós reduzimos, usando medicamentos que são as estatinas – que podem porventura ser associados a outros fármacos para baixar os triglicéridos, como os fibratos – não são substituídos por substâncias que se compram em regime de não necessidade de receita médica, como o arroz vermelho ou o ómega 3, principalmente nas pessoas com risco CV elevado ou que já tenham DCV. Portanto, é fundamental manter a medicação”, asseverou o Dr. Carlos Aguiar, lembrando que o “Governo permitiu prolongar a validade das receitas médicas e que, neste momento, até para alguns medicamentos que só tinham validade de receita de 30 dias, foi concedido temporariamente uma validade de 12 meses”.

Ainda dentro do assunto medicação, o Dr. Almeida Nunes comentou a automedicação: “Antes de mais, esta não é uma invenção da era COVID-19. A automedicação é um problema que existe desde sempre e eu incluo neste universo, a medicação chamada natural ou homeopática”. Depois de dar o exemplo do hipericão enquanto suplemento natural que tem interações medicamentosas com alguns dos fármacos para medicação crónica (p.e. antirretrovirais), o especialista em Medicina Interna salientou que a “automedicação nunca é benéfica” e que da sua experiência clínica, “este é um problema transversal a todas as classes sociais”, sendo fundamental “que as pessoas confiem no seu médico e na ciência”.

De igual forma, o Prof. Doutor Jorge Polónia descreveu a automedicação como sendo um erro perigoso. Neste contexto de pandemia, o docente disse compreender “que estejamos numa situação de muita ansiedade, à procura da primeira solução para esta doença”. “Podem ter a certeza, logo que haja uma prova segura da eficácia de um medicamento, os médicos vão ter todo o prazer em imediatamente comunica-lo aos doentes. Mas só depois de termos estudado algo que é fundamental e que é o balanço entre o ganho e o prejuízo”, decretou, completando: “Nenhum medicamento é inócuo. Portanto, temos de ter a segurança de que a vantagem de o tomar é superior ao inconveniente de o tomar”.

Por sua vez, para “acrescentar um comentário de alguma tranquilidade e esperança”, o Dr. Carlos Aguiar afirmou que nunca viu em toda a sua vida “tanta especialidade médica unida para tratar, investigar e observar a mesma doença”, bem como “os doentes com a mesma patologia como está a acontecer com a COVID-19”. “Isto tem feito com que se tenha descoberto sintomas que de outro modo ninguém valorizaria. Por exemplo, os otorrinos descobriram, ao observarem na linha da frente, que havia doentes que tinham perdido o paladar e o olfato”, notificou.

 

As vias verdes do AVC em tempos de COVID-19

Em resposta a uma questão do público, o Dr. Carlos Aguiar afiançou que “as vias verdes do AVC e do EAM continuam a funcionar”, mas que se notou “uma redução na procura das mesmas entre 25% e 50%, consoante os centros”. Por isso, o cardiologista declarou que as vias verdes “estão preparadíssimas, desde a fase pré-hospitalar até à fase intra-hospitalar”.

“Esta via verde não é mais do que uma via pré-estabelecida de combinação entre a emergência hospitalar e a emergência pré-hospitalar. Portanto, as pessoas que não se dirijam no seu carro particular para ir para a urgência do hospital. Acionem o 112”, acrescentou o Dr. Almeida Nunes.

À semelhança do que o especialista em Medicina Interna referiu, relativamente ao medo das pessoas contraírem o vírus da COVID-19, o Dr. Carlos Aguiar mencionou que “os circuitos estão separados e hoje, toda a gente que vem a um hospital para ser internado ou para fazer exames, é rastreado para a COVID-19” e que estes testes, contrariamente ao início que demoravam várias horas para estarem prontos, atualmente são só necessários 45 minutos para que o médicos percebam “qual é o melhor circuito para cada doente”.

Para reforça o perigo de não se recorrer a estas vias verdes, o Prof. Doutor Jorge Polónia reportou que “se se demorar determinado tempo, a taxa de recuperação cerebral e cardíaca, muitas vezes, pode já não se conseguir”. Na sua perspetiva, “o aumento do número de mortes que surgiu durante a pandemia, mas que não são de COVID-19, resultou, provavelmente, da menor procura e acesso às vias verdes”. “É o lado oculto da COVID-19 que eu creio que é muito importante nós estarmos atentos também”, assinalou.

 

A reter…

Antes do webinar terminar, o Prof. Doutor Jorge Polónia deixou como mensagem final: “Em primeiro lugar, os doentes não podem deixar a medicação que estão a fazer e que lhes controla a diabetes, a HTA e o colesterol. Em segundo lugar, os doentes não podem perder tempo em acionar as vias verdes, se tiverem os mínimos sinais, quer para o EAM, quer para o AVC”.

Já o Dr. Carlos Aguiar deixou como dicas a “adoção de estilos de vida saudável, cuidar da saúde mental, gerir o stress, fazer exercício físico e não baixar a guarda no controlo dos FRCV para desinflamar as artérias”. “Com isto tudo, se o vírus entrar no corpo, a reação não será tão agressiva e, possivelmente, poderemos ter um desfecho mais favorável”, concluiu.

 

Finalmente, o Dr. Almeida Nunes enumerou os seguintes conselhos:

  • Seja inteligente e competente para lidar com a COVID-19
  • Cumpra as regras para se defender a si e aos outros:
  1. Use máscara/luvas;
  2. Lave bem as mãos;
  3. Respeite a distância social;
  4. Ligue SNS 24
  • Cumpra a sua medicação habitual;
  • Valorize os seus sinais e sintomas:
  1. Se tiver um aperto no peito ou dor que não passa, ligue 112, porque pode estar a ter um enfarte;
  2. Se tiver a boca ao lado e falta de força num membro, chame o 112, porque pode estar a ter um AVC;
  • Não se esqueça: os hospitais estão agora preparados para separar o doente COVID-19 de si;

NÃO MORRA COM MEDO DE MORRER COM COVID-19!

Reveja o webinar aqui.


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