Como está a Alergologia a reagir à COVID-19? SPAIC discute prática clínica e partilha recomendações
29/04/2020 14:41:13
Partilhar por emailShare on Google+Partilhar no facebookPartilhar no linkedinPartilhar no twitter
Como está a Alergologia a reagir à COVID-19? SPAIC discute prática clínica e partilha recomendações

Para discutir a prática clínica, as recomendações aos doentes e os desafios que se colocam à Alergologia face à COVID-19, um conjunto de especialistas que compõe a direção da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) reuniu-se num webinar promovido pela News Farma, com o apoio da BIAL, no passado dia 23 de abril.

 

Questionado quanto aos cuidados terapêuticos dos doentes alérgicos em época de pandemia, a recomendação do Prof. Doutor Manuel Branco Ferreira, presidente da SPAIC, vai no sentido da “manutenção do tratamento de controlo das doenças alérgicas de base” e inclusivamente do “reforço da medicação crónica ao mínimo sinal de menor controlo”, de forma a evitar idas aos serviços de urgências. A este respeito, o Dr. José Ferreira, assistente hospitalar graduado de Imunoalergologia no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, acrescentou que o doente alérgico deve também ser “mais vigilante e disciplinado com as medidas gerais de prevenção do contágio por coronavírus”.

A asma alérgica, pela “possibilidade de agravamento da falta de ar que os doentes podem ter pela infeção COVID”, e as situações de imunodeficiências, pela “diminuição da capacidade do sistema imune em responder tão bem a algumas infeções” foram as situações identificadas como merecedoras de uma maior preocupação.

O Prof. Doutor Manuel Branco Ferreira chamou ainda a atenção para a rinite alérgica, que afeta um quarto da população portuguesa, e os picos polínicos existentes nesta época, que podem suscitar uma sintomatologia muito intensa, passível de ser confundida com a infeção SARS-CoV-2, se os doentes não estiverem devidamente controlados. Desta forma, mesmo que confinados ao espaço de casa, a indicação é para que os doentes mantenham a medicação para estarem devidamente protegidos quando expostos aos alergénios durante o arejamento da casa ou as saídas ao exterior.

No caso de agravamento de sintomas, a orientação é para que os doentes contactem o seu médico assistente de forma a tentar fazer-se um “acerto, mesmo que não presencial, das estratégias terapêuticas”.

Relativamente às alergias alimentares e medicamentosas, as recomendações da SPAIC vão no sentido de “reforçar os cuidados para evitar ao máximo o contacto com estes estímulos” e, se possível, “ter em casa toda a medicação necessária para tratar eventuais reações graves anafiláticas, nomeadamente as canetas auto-injetoras de adrenalina”. Sobre esta questão, o presidente da SPAIC congratulou o esforço da SPAIC em conjunto com as Associações de Doentes, que conseguiram inscrever no Orçamento de Estado de 2020 a gratuitidade da adrenalina, quando prescrita pelo médico alergologista.

 

Reorganização hospitalar - Experiência na prática clínica

Diretora do Serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Baixo Vouga e Chefe de Equipa de Urgência, a Dr.ª Ana Morête partilhou a experiência de prática clínica no seu hospital, começando por realçar que, como forma de unificação, todas as especialidades foram chamadas a fazer escalas COVID.  Lembrando que “as doenças agudas não vão de férias”, a Dr.ª Ana Morête explicou ainda que o Serviço de Urgência não COVID continua a funcionar para todos os casos agudos que precisem de ser geridos.

Relativamente ao Serviço de Imunoalergologia, foram mantidas as consultas presenciais dos doentes com doença alérgica grave e dos doentes não controlados, que, à entrada do serviço, são submetidos a um “checkpoint, com avaliação da temperatura timpânica e preenchimento de um questionário focado em sintomas respiratórios e contacto com pessoas infetadas”. Face a suspeita de infeção, o médico recorre à linha disponível 24 horas que faz a ligação a um médico infeciologista ou internista, levando a que o doente possa ser referenciado para o Serviço de Urgência COVID. Em relação a primeiras consultas normais, procedeu-se ao reagendamento. Todas as consultas subsequentes passaram para teleconsulta, os exames foram marcados para setembro e as receitas médicas são enviadas por email.

Quanto aos procedimentos realizados no Hospital de Dia de Alergologia, a especialista referiu que continuam a receber doentes para administração dos fármacos biológicos e da gamaglobulina aos doentes com imunodeficiência comum variável. Relativamente aos procedimentos da imunoterapia, da dessensibilização com administração regular de estratos alergénios, foram mantidos os venenos de himenópteros a abelhas e vespas, que colocam a vida do doente em perigo.

Para a indução de tolerância a alimentos e medicamentos, apenas foram mantidas “as situações em que o nutriente agudo é essencial para a criança”, no caso dos alimentos e, em relação aos fármacos, “situações emergentes e agudas em que não havia fármacos alternativos”.

Por outro lado, a Dr.ª Ana Morête referiu que as técnicas eletivas da especialidade, sobretudo de função respiratória, foram anuladas e o serviço de investigação clínica está muito condicionado.

 

Terapêutica de manutenção e controlo das doenças alérgicas

Em relação aos tratamentos, o Prof. Doutor Pedro Martins, assistente hospitalar graduado de Imunoalergologia no Centro Hospitalar Lisboa Central, referiu ser “preferível administrar medicação para tratar uma crise de asma através de outros dispositivos, recorrendo por exemplo a câmaras expansoras, em detrimento de nebulizadores”, dado que “a deposição pulmonar do medicamento que queremos administrar é inferior no nebulizador” e, por outro lado, “o risco de infeção é superior com estes aparelhos”, dado o maior potencial para originar tosse e microgotículas, que em caso de contaminação iria originar novos casos de doença.

Questionado quanto à posição da SPAIC quanto à manutenção da administração de corticóides, o presidente da SPAIC, Prof. Doutor Manuel Branco Ferreira, esclareceu que, dada a sua dose mínima e aplicação local, “não só não há qualquer risco da sua continuação, como eles devem em absoluto ser continuados e até reforçados, se for necessário”.

No que respeita à utilização de cortisona por via oral ou por via injetável, no caso de utilização aguda durante alguns dias para tratar uma reação alérgica, o Prof. Doutor Manuel Branco Ferreira defendeu que não é expectável que aconteça algum problema, pelo que não deve haver receio. Quanto à utilização crónica, apesar de haver uma probabilidade de a infeção poder ser mais grave, “não há suficiente evidência para proibir o seu uso especificamente por causa da COVID-19”. A recomendação da SPAIC é, nesse sentido, “utilizar a menor dose possível para manter controlada a doença alérgica de base”.

Relativamente ao uso de agentes biológicos, como anticorpos monoclonais contra as citocinas, por exemplo IL4, IL 5, e contra a imunoglobulina E, a indicação do presidente da SPAIC é para a manutenção destes medicamentos biológicos, devendo ser feito um esforço acrescido para que seja possível a autoadministração destes medicamentos no domicílio dos doentes.

 

Medidas preventivas e organizacionais

Aos doentes alérgicos que continuam a trabalhar ou verão o seu regresso ao trabalho em breve, o Dr. José Ferreira chamou a atenção dos doentes e entidades patronais para os momentos de aglomeração, nomeadamente “horas de entrada e saída, registo biométrico, cantinas e locais de pausa”. Na sua ótica, deverá ainda existir uma “readaptação dos postos de trabalho para evitar contactos pessoais, um desfasamento de turnos e não partilhar locais e equipamentos”, como secretárias ou telefones. Importante é ainda não descurar a desinfeção dos locais de trabalho e considerar o apoio da Medicina do Trabalho.

Centrando-se na doença alérgica respiratória pediátrica, o Prof. Doutor Pedro Martins, salientou que “não existe qualquer evidência de que as crianças com asma ou rinite alérgica tenham um risco aumentado para contrair infeção por COVID-19 ou ter mais complicações”. No entanto, à semelhança de outros vírus respiratórios, o especialista referiu que tal poderá induzir um agravamento da asma, caso não esteja devidamente controlada e tratada.

Desta forma, o especialista sublinhou que devem ser tomadas variadas medidas preventivas pelas creches e infantários no momento da reabertura, no sentido de evitar o aparecimento de cadeias de transmissão e de proteger crianças e funcionários. O Prof. Doutor Pedro Martins aconselhou assim ao “controlo diário da saúde da criança e dos funcionários à chegada ao infantário”, prática de uma “limpeza mais frequente das salas de aula, salas de refeição e outras áreas da instituição”, especificamente durante as pausas de recreio e ao final do dia, “melhoraria da ventilação das salas e procurar ter um menor número de crianças por sala”, “desinfeção regular ou lavagem das mãos dos educadores e também das crianças” e, por fim, “equação da utilização de máscara pelos educadores”, de preferência com um padrão simpático que não assuste as crianças.

 

Impacto no presente e futuro

Questionada quanto ao impacto que esta pandemia por COVID-19 estará a provocar a médio longo prazo, com o adiamento de consultas e o medo da população de recorrer às urgências e serviços de saúde, a Dr.ª Ana Morête expressou que “esta pandemia está a ter um impacto muito profundo na medicina moderna e está a remodelar a relação médico-doente”, em que o médico está a tentar estar muito presente, embora de uma forma diferente, com os doentes, recorrendo muito à telemedicina, com tudo o que lhe está inerente – “teleconsultas, telechamadas, email, fotografia digital”.

Se, por um lado, a Dr.ª Ana Morête se mostra mais tranquila em relação aos doentes ligeiros, controlados, que estão sinalizados e, por isso, consegue gerir, a grande preocupação da especialista centra-se nas “primeiras consultas adiadas, algumas talvez triadas como normais e que teriam uma triagem diferente se conseguisse ver o doente, os exames que não foram feitos e sobretudo os doentes alérgicos que não foram sinalizados e não sabem como agir perante uma crise”.

O Dr. José Ferreira chamou ainda a atenção para os quadros de ansiedade e depressão que tendem a atingir a população mais vulnerável, como os grupos de risco com doenças crónicas, como os asmáticos. Estes quadros podem, na sua ótica, associar-se a “uma menor adesão terapêutica, um pior controlo da asma e um aumento de exacerbações e recurso aos Serviços de Urgência”.

Verifica-se ainda um efeito na diminuição da toma de medicação, derivado ao esquecimento pela alteração da rotina, ou inclusivamente pela falta de aquisição, devido à menor acessibilidade às consultas e diminuição do rendimento das famílias.

Aos doentes que atravessam este momento com mais ansiedade e desorientação, o Prof. Doutor Manuel Branco Ferreira assegurou que “as terapêuticas são seguras e essenciais para que se mantenham bem”, advertindo para o seu cumprimento rigoroso.

 


Pesquisa

Publicações

Prev Next

Médico News, 37, janeiro/fevereiro 2019

Farmacêutico News, 37, janeiro/fevereiro 2019

Hematologia e Oncologia, 24, dezembro 2018

15.º Congresso Português de Diabetes, n.3

  SIDA, 37, janeiro/fevereiro 2019