Investigadores descobrem mecanismo que influencia escolhas alimentares
21/04/2020 15:30:51
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Investigadores descobrem mecanismo que influencia escolhas alimentares

Uma equipa de investigadores liderada pelo Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud, descobriram um novo mecanismo entre o sistema digestivo e o cérebro, que faz com que os animais procurem determinados alimentos. De acordo com os estudiosos, a investigação, publicada na revista científica Neuron, pode ajudar a perceber alguns distúrbios relacionados com alimentação, como a obesidade.

 

De acordo com a Fundação Champalimaud, o investigador tem desenvolvido projetos para perceber sobre o que é que “conversam” os sistemas digestivo e nervoso e como é que isto pode influenciar o comportamento e, neste caso, as escolhas alimentares.

“A boca é o primeiro local de controlo — onde é feita a decisão sobre se a comida deve, ou não, ser ingerida”, explica o investigador, acrescentando que, “uma vez dentro do organismo, a comida é divida em nutrientes e começa a pós-ingestão”. Nesta fase, é a vez do sistema digestivo “provar” a comida e conversar com o cérebro sobre a sua escolha de refeição, adianta.

Segundo o investigador, os processos pós-ingestão podem ser divididos em dois: o primeiro lida com o presente, avaliando quão nutritivo é o alimento e a quantidade que deve ser consumida, e o segundo é um processo de aprendizagem que determina como, no futuro, o organismo deve reagir a esse alimento.

“A avaliação que um organismo faz acerca do valor nutricional de um alimento e que leva um indivíduo a desenvolver uma preferência por esse alimento é um exemplo dessa ‘aprendizagem pós-ingestão'”, explica a Fundação, em comunicado.

Segundo décadas de estudos na área, esta aprendizagem pós-ingestão é o que leva animais e humanos a desenvolverem preferência por alimentos mais nutritivos. O investigador e a sua equipa interrogaram-se sobre se esses sinais pós-ingestão poderiam estar envolvidos noutros tipos de aprendizagem e procuraram saber o que leva humanos e animais a procurarem ativamente determinados alimentos.

Nesse sentido, desenvolveram uma tarefa na qual os animais pressionavam alavancas para receber a comida por uma injeção diretamente no estômago e concluíram que, mesmo sem provar a comida, os ratos desenvolveram uma clara preferência para a alavanca previamente associada à administração do alimento de alto valor calórico.

Num segundo momento, avançaram para a identificação do mecanismo fisiológico envolvido, tentando perceber como é que as informações sobre o valor nutricional chegam ao cérebro através do nervo vago, que “estabelece ligações bidirecionais entre o cérebro e vários órgãos internos”.

Desta forma, os investigadores perceberam que os sinais pós-ingestivos eram transmitidos ao cérebro através da ligação hepática do nervo vago durante o processo de aprendizagem. Depois, procuraram entender para onde, no cérebro, estavam a ser enviados os sinais pós-ingestão, descobrindo que os neurónios da dopamina estavam envolvidos nesse novo processo de aprendizagem. Por fim, testaram, e comprovaram, que os neurónios são influenciados pelo ramo hepático do nervo vago.

“Ficou demonstrado que os neurónios da dopamina respondem a recompensas, por exemplo, quando um doce chega à nossa língua”, explica o Prof. Doutor Rui Costa, também envolvido na investigação, acrescentando: “Este estudo mostrou que esses neurónios também são ativados quando o alimento chega ao estômago e ao intestino”.

“Além disso, demonstrámos ainda que, quando os nutrientes chegam ao intestino, a ativação dos neurónios da dopamina é fundamental para desencadear o comportamento da procura de alimento”, frisa.

“Em conjunto, os resultados do estudo revelam um novo processo de aprendizagem — orquestrado entre o sistema digestivo e o cérebro — que faz com os animais procurem determinado tipo de alimentos sem nunca terem sentido o seu sabor, o que comprova a influência de processos subconscientes no controlo do comportamento alimentar”, adianta.

O Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia considera que, embora possa não ter aplicações clínicas imediatas, este trabalho poderá ser relevante para a compreensão e tratamento de distúrbios relacionados com a alimentação, como a obesidade.

“Ainda é muito cedo para saber onde este estudo nos levará. Contudo, foi a relação entre alterações de recetores de dopamina e obesidade que inspiraram o desenvolvimento deste trabalho”, conclui o investigador.

Fonte: Lusa


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