Rede de Cuidados Continuados enfrenta grande desafio
29/07/2019 15:13:13
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Rede de Cuidados Continuados enfrenta grande desafio

Fruto da intervenção realizada ao longo de anos, a população que consome drogas está naturalmente mais velha e, nalguns casos, mais doente, pelo que a Rede Nacional de Cuidados Continuados tem pela frente um desafio enorme no sentido de, na sua dinâmica, se adaptar para acolher quem usa drogas, afirma o Dr. Joaquim da Fonseca, coordenador da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) da Administração Regional de Saúde que na Região de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).

 

News Farma (NF) | Como apresenta a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências?
Dr. Joaquim Fonseca (JF) | A DICAD é a estrutura pertencente à ARSLVT, responsável pelo desenvolvimento – direto, através de estruturas próprias, e indireto porque faz o acompanhamento a projetos financiados – de toda a atividade que ocorre no âmbito dos Comportamentos Aditivos e Dependências. A nossa ação é desenvolvida através das Equipas Técnicas das Unidades de Intervenção Local, numa intervenção integrada das áreas do Tratamento, da Reinserção, da Prevenção e da Redução de Riscos e Minimização de Danos. As áreas do Tratamento e da Reinserção, onde ainda se concentra a grande maioria dos cerca de 350 profissionais, contam com 14 equipas de ambulatório, uma unidade especializada para os Problemas Ligados ao Álcool, com internamento e ambulatório; uma unidade de Comunidade Terapêutica para tratamento de dependências, através de um programa de longa duração (12 meses); e, ainda, uma outra unidade de internamento para desabituação de heroína e outras substâncias ilícitas, e também para substâncias lícitas como o álcool e as benzodiazepinas. A atividade desenvolvida na área da Prevenção é realizada, sobretudo, em contexto escolar, conta com a participação de técnicos das UIL e dirige-se a diferentes públicos-alvo, designadamente aos professores, através de ações de formação e acompanhamento de projetos desenvolvidos em continuidade nas escolas. A área da Redução de Riscos e Minimização de Danos desenvolve a sua atividade junto das pessoas que usam drogas, procurando reduzir os riscos e danos associados ao uso, numa lógica de ganhos ao nível da saúde individual e de saúde pública. Este trabalho é realizado por diferentes associações financiadas pelo Estado, cuja atividade é acompanhada por profissionais da DICAD, sendo, em alguns casos, também desenvolvida de forma direta pelos nossos profissionais – por exemplo, intervenções efetuadas em contextos de festivais de música, raves e semanas académicas, entre outros eventos.

NF | O que pensa sobre o papel das associações que atuam no terreno?
JF | Estas associações, pertencentes a um chamado terceiro setor, historicamente emergem para colmatar lacunas da sociedade, as quais o Estado (primeiro setor) não consegue suprimir e o Mercado (segundo setor) não se interessa por colmatar. No domínio dos Comportamentos Aditivos e Dependências são parceiros essenciais para um trabalho em rede que reforça, claramente, a capacidade e a qualidade da intervenção. Existe em Portugal uma longa tradição de parceria no desenvolvimento de projetos conjuntos na Redução de Riscos e Minimização de Danos, em que a grande maioria das respostas é desenvolvida por ONG, mas também no Tratamento, em que uma rede de Comunidades Terapêuticas convencionadas com o Estado, e desenvolvidas por estruturas da Sociedade Civil, é complementar à resposta estatal existente. A complementaridade, quer no domínio dos diferentes saberes, quer do conhecimento das necessidades das pessoas dos diversos territórios, têm-se revelado como extremamente profícua na construção de respostas mais eficazes. Habitualmente estas organizações contam com pessoas profundamente engajadas em questões muito pertinentes para a sociedade. Assim, do meu ponto de vista, uma das funções que considero muito relevante no papel social que desempenham está relacionada com a capacidade de “dar voz” aqueles que muitas vezes não se conseguem fazer ouvir, trazendo para a agenda, política e mediática, questões prementes (causas) para a sociedade.

MG | E quais são as principais mais-valias dos pares nestes projetos?
JF | A existência de pares nestes projetos permite-nos alcançar espaços, e por consequência pessoas, aos quais, em alguns casos, não conseguiríamos aceder. Uma vez nesses contextos, os pares facilitam o diálogo próximo com aquelas pessoas que estão na rua, mediante utilização de uma linguagem que lhes é muito mais familiar. A força da sua intervenção assenta no facto de terem um percurso de vida similar, podendo, em muitos casos, serem assumidos como referência, alterando atitudes, crenças e agindo sobre os comportamentos de risco, pela promoção de práticas de consumo menos danosas, por exemplo na alteração das vias de utilização. Do ponto de vista do desenho das intervenções, o seu acesso a informação muito atualizada sobre hábitos de consumo, alterações de substâncias etc, permite às organizações o ajustamento das respostas em tempo real, adequando-as não só às populações utilizadoras de droga em geral, mas àquela pessoa em concreto. Nesta matéria há ainda um longo caminho a percorrer em Portugal, embora sejam já inúmeros os exemplos de integração de pares no desenho e desenvolvimento de projetos. Importa definir um estatuto profissional e remuneratório para estas pessoas, reconhecendo o seu trabalho como fundamental e parte integrante da organização. A existência de associações de pessoas que usam drogas é absolutamente essencial para que este caminho seja percorrido. A CASO – Consumidores Associados Sobrevivem Organizados, única em Portugal, é uma associação que prezamos muito e tem desenvolvido um trabalho muito importante nesta matéria.



Impacto na comunidade

NF | Qual o impacto que este tipo de atuação tem na comunidade?
JF | Em alguns casos pode até haver alguma reação negativa. Muitos destes pares são conhecidos da comunidade – pessoas que estão fora dos consumos – como consumidores e a aceitação inicial é difícil. Mas com o passar do tempo as comunidades apercebem-se da mais-valia resultante da sua presença, enquanto mediadores entre consumidores e a comunidade que não está envolvida com o consumo. A experiência permite-nos concluir que quer a comunidade de consumidores, quer a comunidade circundante, dos não consumidores, tende a acolher bem os pares e a aceitar o seu papel como uma mais-valia, por vezes até mediando alguma tensão que possa existir entre as partes.

 

NF | Podemos dizer que estes projetos fomentam a inclusão?
JF | Absolutamente, embora a nossa lógica de redução de riscos seja a de acolher o consumo sem qualquer juízo de valor, assumindo uma posição de não julgar quem quer que seja, mas tendo como objetivo reduzir os riscos associados ao consumo. Porém, importa referir que há também pessoas que consomem drogas, mas que não estão excluídas socialmente. Algumas, estão perfeitamente integradas na sociedade e para essas é evidente que não se coloca a questão da inclusão. Em relação a quem identificamos em situação de exclusão, como os consumidores de rua – e a CASO tem trabalhado muito no Porto para promover a inclusão destas pessoas –, é essencial promover a sua inclusão.

 

NF | Como vê a integração dos cuidados de adição com os Cuidados de Saúde?
JF | Até 2012 funcionávamos como estruturas regionais e de resposta direta do Instituto da Droga e Toxicodependência. Em 2013 fomos integrados nas ARS no âmbito do processo de extinção daquele Instituto. Esta integração visou uma lógica de aproximação aos cuidados de saúde primários e aos cuidados de saúde hospitalares. Do ponto de vista conceptual é uma mais-valia. Não só para reforçar a resposta às inúmeras comorbilidades, físicas e mentais, que os nossos doentes apresentam, mas também como oportunidade para desenvolvimento de diversas atividades no domínio da promoção da saúde e da literacia em saúde, entre outras. Assim, importa trabalhar em complementaridade com os cuidados de saúde primários e com os cuidados prestados pelas especialidades nos hospitais, mantendo um diálogo que é absolutamente essencial. No entanto, torna-se premente que o façamos salvaguardando as especificidades do nosso trabalho e com uma organização própria, porque as pessoas que usam drogas colocam-nos desafios que requerem uma abordagem singular que, por vezes, os restantes cuidados não se encontram vocacionados para prestar.

Em suma, parece-me importante manter uma forte coesão nas respostas quer a nível regional, quer nacional – entre as cinco DICAD (estruturas regionais) e o SICAD (estrutura nacional, técnico-normativa, de Intervenção nos CAD) e uma estreita articulação e proximidade com os restantes cuidados em saúde. Não obstante estarmos nas ARS há já cerca de seis anos, o processo de integração ainda não foi concluído, pois desde 2016 que existe uma dinâmica de reorganização das repostas em CAD (dentro e fora das ARS) que aguarda uma decisão política, que seria importante concluir de modo a criar condições para enfrentarmos os inúmeros desafios que este domínio nos coloca. Destes, gostaría de sublinhar o que resulta do facto de as pessoas que usam drogas, fruto dos resultados da intervenção especializada que tem vindo a ser realizada ao longo dos anos (quer ao nível do Tratamento quer da implementação de estratégia de Redução de Riscos e Minimização de Danos) estarem mais velhas e, nalguns casos, mais doentes, pelo que precisam também de mais cuidados de saúde. O desafio que se afigura neste contexto é enorme e suscita uma interrogação: estará a rede nacional de cuidados continuados preparada para acolher, na sua dinâmica, pessoas que usam drogas, mas que necessitam de respostas, em muitos casos de cuidados continuados? A resposta a esta e outras questões terá que ser encontrada no diálogo entre as diferentes estruturas, designadamente dos CAD e dos Cuidados Continuados. Um outro enorme desafio será o de encontramos resposta no SNS para o consumo problemático de bebidas alcoólicas, que em muitos casos conduz a situações de alcoolismo. Este, que é um dos maiores problemas de saúde pública em Portugal, carece de uma enorme conjugação de esforços, só possível mediante um trabalho estreito e articulado entre as UIL dos CAD e as restantes estruturas do SNS.

 


O exemplo da AbbVie

A AbbVie tem tido um papel relevante no trabalho de aproximação dos consumidores às diferentes estruturas de saúde, sublinha o Dr. Joaquim da Fonseca. “A AbbVie tem demonstrado uma especial sensibilidade para um trabalho junto destas populações, participando ativamente neste modelo de intervenção (numa lógica de micro eliminação da infeção), que visa a aproximação de pessoas que usam drogas às estruturas com ação no domínio dos CAD, apoiando diferentes projetos”, refere. Como exemplo, cita o apoio a projetos para facilitar a acessibilidade aos cuidados, através do transporte e acompanhamento às consultas de especialidade, como Gastrenterologia ou Infecciologia, mas também à promoção de encontros entre profissionais que visam o estabelecimento de pontes que favoreçam, uma vez mais, o acesso destas pessoas aos cuidados e que permitem o enriquecimento científico dos técnicos. “Há pessoas com hepatite C, uma doença cujo tratamento é feito em contexto hospitalar, e, neste âmbito, a AbbVie tem tido um papel absolutamente essencial, assim como através da manutenção de um diálogo constante com o resto das estruturas”, salienta.


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