Populações vulneráveis e cuidados de saúde: mais do que um gesto de humanidade
25/07/2019 15:06:16
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Populações vulneráveis e cuidados de saúde: mais do que um gesto de humanidade

O acesso das populações vulneráveis aos cuidados de saúde é muito difícil porque, dada a situação de enorme fragilidade humana, social e cultural em que vivem, estão alheadas dos circuitos convencionais. Por isso, temos que ser nós a ir ao seu encontro, afirma o Prof. Doutor Guilherme Macedo, gastrenterologista que, à frente de uma equipa do Centro Hospitalar São João, liderou um bem-sucedido projeto-piloto de eliminação do vírus da hepatite C em dois estabelecimentos prisionais do Porto.

 

News Farma (NF) | Recentemente organizou o evento “A saúde do fígado, populações vulneráveis e a inclusão”. De que modo a saúde do fígado pode ser um fator de inclusão?
Prof. Doutor Guilherme Macedo (GM) | A saúde do fígado é um fator de inclusão na medida em que, por si mesma, elimina a exclusão social motivada por doença do órgão, uma situação que infelizmente acontece no nosso dia a dia. Mas, inversamente, também a exclusão social pode determinar muitas doenças do fígado. Portanto, sempre que promovemos a saúde, e este deve ser um esforço transversal à sociedade, estamos a promover a inclusão. Quanto às populações vulneráveis, sociológica e antropologicamente, caracterizam-se por delas fazerem parte indivíduos em situação de fragilidade humana, social e cultural. Por outras palavras, vivem à margem daquilo que a sociedade considera habitual no ser humano. Estamos a falar, nomeadamente, de reclusos, sem-abrigo, pessoas com emprego instável, toxicodependentes, que vivem à margem da sociedade. Fruto dessa circunstância, acabam, por assim dizer, a ter acesso privilegiado a oportunidades de adquirir doenças do fígado, nomeadamente através da ingestão de álcool, consumo de drogas e prática de sexo não seguro. O ambiente de vulnerabilidade em que se movimentam propicia esta condição.

 

NF | De que modo se poderá facilitar o acesso destas pessoas aos Cuidados de Saúde?
GM | Primeiro há que reconhecer que o acesso destas populações aos Cuidados de Saúde é muito difícil porque, na esmagadora maioria das vezes, estão alheadas dos circuitos convencionais a eles conducentes. É uma situação muito preocupante, que urge alterar, para bem de cada um e da comunidade em geral. Uma das formas de o fazer passa, por exemplo, por consciencializar os profissionais de saúde, nomeadamente os médicos, de que é preciso ir ao encontro destas pessoas. Mais do que um gesto de humanidade, é uma via para resolver este flagelo. Se estas populações não vêm até nós, somos nós que temos que ir até elas. Há que inverter o caminho.

 

NF | É, então, fundamental ir para o terreno para tratar?
GM | Em minha opinião, é seguramente uma das vias que nos permite estar mais próximo de quem precisa, conhecer para tratar. Como disse já, se estas populações, pelas circunstâncias em que se encontram, dificilmente procuram acesso aos cuidados de saúde, então temos que ser nós a tomar a iniciativa e ir até junto delas. Uma outra nota que importa destacar tem a ver com o registo de dificuldades de acesso a determinados tratamentos, uma situação cuja resolução cabe à Tutela, uma vez que passa por uma decisão política. Os ganhos para a saúde seriam imensos e certamente compensadores.


Experiência para a vida

NF| Qual a sua opinião sobre o papel das associações que atuam no terreno junto de populações vulneráveis?
GM | São fundamentais para a lógica de proximidade que se pretende, uma vez que estabelecem uma ponte de comunicação. A comunicação seria muito difícil sem a ajuda destes voluntários. A sua ação é determinante em termos de contribuição para a saúde destas populações, junto das quais funcionam como uma rede de suporte.

 

NF | A CASO, por exemplo, tem em curso um projeto que visa contribuir para a eliminação da hepatite C. O que acha deste tipo de contributo?
GM | Insere-se, e muito bem, no âmbito de uma vasta estratégia preconizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) com vista à eliminação do vírus da hepatite C até 2030. Para que o objetivo seja alcançado são necessárias abordagens e estratégias abrangentes, aumentar o conhecimento global e os testes para os grupos de risco, assim como encaminhar os infetados para os cuidados de saúde específicos. No que diz respeito às populações vulneráveis, é crucial a abertura de vias de acesso privilegiadas aos cuidados de saúde. Uma vez mais, a estratégia passa por ir ao seu encontro, no sentido de abranger reclusos, albergues e trabalhadores do sexo, entre outros.

 

NF | Participou num projeto pioneiro que permitiu a erradicação da hepatite C nas cadeias de Custóias e de Santa Cruz do Bispo. Como foi essa experiência?
GM | A intervenção resultou de um protocolo de cooperação estabelecido entre o Centro Hospitalar São João e a Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais com o objetivo de permitir o acompanhamento de reclusos infetados com o vírus da hepatite C. Foi uma experiência que não acaba e que em boa hora implantámos. Reflete a realidade nos nossos estabelecimentos prisionais, onde a população está, dadas as circunstâncias, mais exposta ao risco. O número de reclusos a tratar tem sido cada vez menor, o que confirma o sucesso alcançado com o projeto. É, seguramente, um projeto para continuar.

 


Derrubar barreiras pela eliminação

Questionado sobre se Portugal conseguirá eliminar a hepatite C de acordo com a meta determinada pela OMS, 2030, o Prof. Doutor Guilherme Macedo disse que a questão tem duas respostas: neste momento e nestas circunstâncias, não será possível, no entanto, acredita que se forem feitas algumas alterações será possível. “Se forem alterados aspetos que limitam a acessibilidade aos cuidados de saúde, aos tratamentos, Portugal poderá cumprir o compromisso a que se propôs (reduzir a incidência do vírus VHC em 90% e a mortalidade associada em 65% até 2030). Mas essa é uma decisão que cabe à Tutela”, sublinhou. Neste contexto, explicou que é fundamental reduzir, por exemplo, o espaço de tempo, não raro demasiado longo, entre a prescrição e a toma do medicamento, a bem do indivíduo e da saúde pública. “Há que derrubar as barreiras administrativas existentes e, ao mesmo tempo, fazer rastreios, de modo a permitir identificar e tratar quem está infetado. Só assim será possível atingir o objetivo”, conclui.

 


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