Focus: com o foco no diagnóstico
21/05/2019 12:43:29
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Focus: com o foco no diagnóstico

O Dr. Luís Gouveia é administrador executivo do Hospital de Cascais, a Dr.ª Eduarda Reis, diretora clínica, a Enf.ª Dulce Cachata Gonçalves, enfermeira diretora, e a Dr.ª Ana Bilé, gestora de eficiência. Em entrevista à News Farma, falaram sobre um dos mais recentes projetos na área da infeção VIH/SIDA. Denominado Focus, tem como objetivo aumentar o número de pessoas rastreadas. 

Uma das formas de garantir a qualidade de vida das pessoas infetadas com VIH/SIDA é assegurar o diagnóstico precoce. Só assim é possível iniciar a terapêutica a tempo de conseguir uma longevidade com qualidade, para além de ir ao encontro da meta 90-90-90 definida pela ONUSIDA cujo sucesso vai levar igualmente ao sucesso a iniciativa Fast-track Cities (FTC), que Cascais integrou tornando-se numa das primeiras cidades portuguesas na via rápida para acabar com a epidemia do VIH/SIDA em 2020 e da hepatite C até 2030.

Neste concelho continuam a ser dadas as cartas para atingir o objetivo mencionado, desta feita com o Hospital de Cascais a ser pioneiro na introdução do projeto Focus. Como é sabido, esta unidade hospitalar integra o Consórcio criado no âmbito da FTC, que em julho apresentou uma estratégia que entre outras ações contemplava o rastreio. “O Hospital de Cascais, fazendo parte do consórcio das FTC, iniciou o projeto Focus, em setembro, com a finalidade de facilitar a realização do teste”, começa por dizer o Dr. Luís Gouveia, administrador executivo.

A Dr.ª Eduarda Reis é a diretora clínica deste hospital e explica clinicamente em que consiste o projeto. “É o rastreio precoce da infeção por VIH e VHC”, afirma e acrescenta que “nos EUA também abarca o VHB, mas, no nosso hospital não se justifica por razões epidemiológicas e por termos a vacina contra a hepatite B no plano nacional de vacinação em Portugal”. Assim, “embarcamos neste projeto porque nos parece lógico. Hoje em dia a infeção por VIH é uma doença crónica, não é mortal e um doente não chega ao estadio de SIDA, desde que seja devidamente acompanhado e rigoroso com a terapêutica”, continua a médica evidenciando o facto de fazer todo o sentido acabar com o estigma por ser uma doença sem cura, porém com tratamento.

O propósito do Focus vai também ao encontro da estratégia nacional espelhada na norma da Direção-geral da Saúde (DGS), de 2015, que indica que todas as pessoas, dos 18 aos 65 anos, devem ser rastreadas pelo menos uma vez por ano. “Estamos perfeitamente abrangidos pelas diretrizes da DGS, daí este projeto fazer todo o sentido e orgulhamo-nos de termos sido pioneiros”, comenta o Dr. Luís Gouveia.

Os critérios de elegibilidade são, pois, pessoas dos 18 anos aos 65 (menos um dia) que recorram ao Serviço de Urgência e que não tenham realizado nenhum teste para o VIH ou VHC no último ano. “Estas pessoas devem também ter prescrição de análises em contexto durante o episódio de urgência”, sublinha o administrador hospitalar. “Chama-se a isto fazer uma análise de forma oportunística, ou seja, aproveitamos o facto de serem feitas análises”, esclarece a Dr.ª Eduarda Reis. “Dizemos ao doente que estamos dentro deste programa e perguntamos se gostaria de ser rastreado para o VIH e VHC. Também explicamos a vantagem do rastreio precoce”, acrescenta.

 

Informar sim, incentivar não

Nas primeiras semanas em que o programa funcionou foram realizados cerca de 3 mil rastreios. Os médicos e enfermeiros envolvidos receberam formação para responderem à miríade de perguntas que podem advir de uma proposta destas, que pode ser declinada pelo doente. A Dr.ª Eduarda Reis sublinha ainda que os profissionais de saúde têm o apoio dos sistemas de informação, isto é, o próprio sistema informático elege o doente com base nos critérios pré-definidos.

Segundo a Enf.ª Dulce Cachata Gonçalves, enfermeira diretora, “o princípio da ideia é não haver parte humana na tomada de decisão para realização do rastreio, isto é, não deve ser o profissional a identificar que o doente reúne os critérios para ser realizado o teste. Esta seleção deve ser feita pelo sistema de acordo com os critérios previamente definidos e a informação ser gerada automaticamente. Assim que sai a requisição das análises, o profissional da saúde identifica que o doente está no programa Focus, informa-o e este é livre de aceitar ou não. A ideia não é incentivar, mas informar”. O Dr. Luís Gouveia frisa não haver “juízos de valor envolvidos neste processo”.

As pessoas têm também acesso à informação sobre o Focus nos gabinetes médicos e nas salas de espera, através de cartazes informativos. De uma maneira geral, “pelo que já pudemos observar, temos a ideia das pessoas ficarem satisfeitas com a iniciativa”, informa a Dr.ª Ana Bilé, gestora de eficiência.

O diagnóstico é disponibilizado até duas horas após a realização da análise. Se o resultado for reativo, é feito um exame confirmatório já no âmbito de uma consulta da especialidade. A Dr.ª Eduarda Reis assegura haver uma equipa com maior preparação para falar com estas pessoas. Normalmente, é o chefe de equipa de Medicina Interna que faz a abordagem ou outro profissional em quem delegue essa tarefa. “O importante é desmistificar o assunto e dar apoio à pessoa. Se for feito entre as 8h00 e as 20h00 e o resultado for inconclusivo, temos na equipa elementos que podem dar apoio e os esclarecimentos necessários”, menciona a diretora clínica.

 

Artigo originalmente publicado na Revista SIDA, disponível aqui.


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