Portugueses são mais afetados por demência vascular do que por Alzheimer
23/01/2019 16:17:38
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Portugueses são mais afetados por demência vascular do que por Alzheimer

 A demência vascular é facilmente associada à segunda posição da lista de demências, liderada pela doença de Alzheimer. Um estudo de uma equipa do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto vem agora contrariar esta ideia. Após uma avaliação que envolveu 730 pessoas com mais de 55 anos, os investigadores concluíram que “os portugueses são mais afetados por demência vascular do que por Alzheimer”.

 

Este resultado, publicado na revista American Journal of Alzheimer’s Disease & Other Dementias, contraria a norma encontrada na Europa Ocidental. A explicação estará no elevado número de hipertensos e de acidentes vasculares cerebrais (AVC), mas a boa notícia é que esta forma de demência pode ser evitada com uma mudança no estilo de vida. Os estudos epidemiológicos sobre a demência são muito caros e, por isso, muito raros.

A demência constitui a expressão clínica de várias patologias diferentes e a que resulta da doença de alzheimer é a mais prevalente, sendo que a maioria dos manuais refere que é responsável por 50 a 70% dos casos. A incidência (número de novos casos) e a prevalência (total de casos num determinado período) da demência aumentam quase exponencialmente com a idade, duplicando aproximadamente a cada cinco anos.

O trabalho avaliou a prevalência de défice cognitivo e demência e conclui que a demência vascular tem uma prevalência de 52%, seguida da que é causada pela doença de Alzheimer com apenas 36,1%. Os resultados mostram ainda que cerca de 4,5% dos indivíduos com mais de 55 anos têm demência ou défice cognitivo ligeiro.

Neste estudo foram avaliados 730 indivíduos do projecto EPIPorto, que analisa há 18 anos uma amostra da população adulta residente no Porto representativa da população portuguesa. Os participantes passaram por uma série de etapas, desde exames a consultas com neurologistas, esclarece o Prof. Doutor Luís Ruano, primeiro autor do artigo e investigador na Unidade de Investigação em Epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

 

É possível prevenir

A conclusão de que o tipo de demência mais prevalente em Portugal é a vascular não foi uma surpresa. “É algo que, enquanto clínicos, já suspeitávamos que se passava em Portugal. Esperava-se que a demência vascular no nosso país tivesse um peso desproporcional em relação ao resto da Europa”, refere o investigador, que também é médico no Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga.

Porquê? Pelo que vem antes disso, explica o especialista. “Isto está ligado inevitavelmente à questão da prevalência do acidente vascular cerebral, que aumenta o risco de demência vascular. Portugal é o país da Europa que tem a mais elevada prevalência de AVC.”

Uma realidade que, por sua vez, está ligada aos muitos casos de hipertensão arterial na população e que, por sua vez, está ligada ao consumo excessivo de sal, entre outros maus hábitos.

De acordo com o documento Retrato da Saúde 2018, divulgado pelo Ministério da Saúde, a hipertensão arterial afeta 36% dos portugueses entre os 25 e os 74 anos. “É mais prevalente nos homens do que nas mulheres e aumenta com a idade, afetando mais de 71% dos portugueses na faixa etária dos 65-74 anos.” Portugal tem uma das mais elevadas prevalências de hipertensão arterial na Europa (três em cada dez portugueses), sendo o principal fator de risco de patologia cardiovascular, com relevo para os AVC, dos quais os cidadãos portugueses também são infelizmente líderes na Europa. Todos os dias morrem cerca de 100 portugueses por doenças cérebro-cardiovasculares.

No artigo, os autores destacam ainda que existem muitas pessoas relativamente jovens que sofrem de hipertensão e que não se encontram devidamente medicadas, ou seja, correm um maior risco de sofrer um AVC. Há ainda outras possíveis explicações para o fenómeno tipicamente português. O Prof. Doutor Luís Ruano sublinha que a hipótese é especulativa mas que “tem vindo a ser descrito um risco menor de doença de alzheimer nas pessoas que consomem ácidos gordos, especificamente ómega 3 e ómega 6 muito presentes no azeite e no peixe gordo”.

Uma teoria baseada na dieta que explicaria a partilha do padrão epidemiológico de Portugal com o Japão e alguns países do Médio Oriente, que também têm uma menor prevalência de demência por Alzheimer.

“A demência vascular, ao contrário da por Alzheimer, pode ser prevenida. Há que apostar, por exemplo, em medidas de prevenção primárias, como uma dieta saudável, exercício físico regular e o controlo dos principais fatores de risco cardiovasculares.”

O investigador lembra ainda que a doença de Alzheimer não é particularmente determinada por questões genéticas. “O risco genético é baixo. Mas sabemos que existe menor prevalência entre a população portuguesa do alelo épsilon 4 do gene APOE,  o fator genético de risco mais comum para a doença de Alzheimer", conclui. 

 

Fonte: Público


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