Antevisão da Semana Digestiva 2016

28/03/16
Antevisão da Semana Digestiva 2016

Em junho a comunidade gastrenterológica nacional ruma ao sul, ao Palácio de Congressos do Algarve, para o principal evento científico em Gastrenterologia do país. Trata-se da Semana Digestiva 2016, fórum de debate e referência que, nas palavras do Prof. Doutor Luís Tomé “se distingue de todas as outras reuniões do foro gastrenterológico”.

Em entrevista, o presidente da Semana Digestiva 2016 e vice presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) antecipa alguns pormenores desta reunião, que decorrerá de 1 a 4 de junho.

News Farma (NF) | Que caminhos têm trilhado a Gastrenterologia em tempos recentes?

Prof. Doutor Luís Tomé (LT) | A Gastrenterologia expandiu-se muito nos anos mais recentes. A nossa área ocupa-se doenças que afetam o tubo digestivo e naturalmente também da endoscopia e da ecografia que lhes estão associadas. Ocupa-se também das doenças hepáticas que em fases diversas do seu desenvolvimento procuram os gastrenterologistas. Doenças do pâncreas e das vias biliares são presença constante nas nossas Enfermarias e consultas. Com tamanha variedade, compreende-se que haja gastrenterologistas que tenham uma atividade mais centrada numa ou outra daquelas áreas.

NF | A endoscopia digestiva continua a diferenciar-se ou esgotou já as suas possibilidades?

LT | A endoscopia digestiva tem tido um crescimento muito importante em anos recentes. Todos têm presente o papel que desempenha na prevenção do carcinoma colorretal, o que implica um imenso acréscimo de atividade. Mas é preciso acentuar que quer a sua vertente diagnóstica quer a sua vertente terapêutica têm crescido muito. Atualmente é possível realizar miotomias do esfíncter esofágico inferior por via endoscópica aliviando a sua pressão nas acalásias ou remover lesões endoluminais com extensão muito para além do que era usual. Finalmente, deve dizer-se que começam a surgir endoscópios com capacidade de resolução superior à do espectro visual que se vão constituir com alternativas a própria histologia.

NF | O fígado preocupa os gastrenterologistas?

LT | Claramente. Desde logo por quase todas as doenças hepáticas culminarem numa hipertensão portal cujas complicações exigem uma intervenção específica da nossa área. Este convívio assíduo com estas patologias obrigam ao seu conhecimento detalhado que depois traz muitos doentes em fases mais precoces ao nosso convívio.

NF | A Semana Digestiva é o fórum científico de referência para os especialistas em Gastrenterologia. Que antevisão faz da edição de 2016?

LT | Tem razão quando diz que se trata de um fórum de referência para os gastrenterologistas. A Semana Digestiva tem uma característica que a distingue de todas as outras reuniões do foro gastrenterológico. Nesta reunião são abordados temas de todas as áreas acima discriminadas o que permite que um médico mais ativo em doença de fígado possa aperceber-se do que se passa na endoscopia ou em doenças do tubo. Inversamente um endoscopista pode conhecer os avanços mais recentes em patologias designadamente hepáticas ou do foro das doenças inflamatórias que não tenham tanto que ver com o seu dia-a-dia.

NF | O evento terá início com um Curso Post Graduado, intitulado “Avanços de Maior Impacto”. Em que moldes foi desenvolvida esta formação e no que consiste?

LT | Tradicionalmente, o Curso Post Graduado da Semana Digestiva abordava com profundidade, a meu ver por vezes desmedida, um só tema. Este modo de o encarar afastava dessa sessão muitos gastrenterologistas que não reclamavam tanto detalhe e não era interessante para gastrenterologistas que se interessassem pela área que já conheciam os detalhes citados. Para este efeito temos as chamadas reuniões monotemáticas ou específicas.

Este ano vamos abordar nessa secção assuntos, ainda em sedimentação em diversas áreas. Assim iniciaremos por uma discussão sobre conceitos atuais nas doenças inflamatórias intestinais para logo a seguir se esmiuçarem os avanços relacionados com as novidades da hepatite C. Os colegas que se preocupam com a motilidade falarão depois dos tópicos mais polémicos de desenvolvimento recente para os cirurgiões fazerem finalmente uma sessão sobre as aspetos cirúrgicos que interessam aos gastrenterologistas. Esperamos deste modo reganhar a atenção que o Curso Post Graduado merece.

NF | Sendo a Gastrenterologia uma área tão vasta, poderá dizer que temas estarão em discussão no âmbito do tubo digestivo?

LT | Na área do tubo vamos detalhar a infeção por helicobacter pilory nas suas manifestações gástricas e extra gástricas; esperamos poder contar com a presença de um reputado expert alemão para nos dar notícia sobre a otimização da erradicação. Discutiremos a doença de Crohn e designadamente os seus algoritmos terapêuticos atuais. Abordaremos a obstipação crónica na perspetiva do seu diagnóstico e tratamento. Discutiremos o carcinoma colorretal, analisando os modos mais adequados para o screening, a quimioprevenção e abordagem das metástases hepáticas. Finalmente, um capítulo especialmente interessante, teremos uma discussão sobre condições induzidas por medicamentos.

NF | Na área da endoscopia haverá também um importante programa?

LT | Com certeza. Começaremos por ter uma mesa redonda onde se discute a qualidade em endoscopia digestiva, questão que nunca é demais abordar. Falaremos seguidamente de perfurações umas iatrogénicas, outras surgindo noutro âmbito e que devemos reparar. Os pólipos do cólon merecerão a nossa atenção designadamente o manuseio de pólipos diminutos ou de pólipos pediculados muito volumosos, dois extremos que merecem cuidado especial. Haverá uma mesa sobre técnicas onde se discutem questões como a endoscopia e os procedimentos bariáticos. A endoscopia das vias biliares e do pâncreas não deixará de ser abordada.

NF | Finalmente, na área de fígado quer ressaltar algum tema?

LT | Com muito gosto. A abordagem das doenças de fígado têm tido um progresso vertiginoso em tempos recentes pelo que se compreende o destaque que têm no nosso programa.

Vamos afastar-nos das áreas tradicionais sem deixar, claro está, de discutir as hepatites virusais e os notáveis progressos terapêuticos recentes, o carcinoma hepatocelular ou as transplantações hepáticas. Mas haverá uma mesa sobre doenças vasculares, outra sobre doenças autoimunes, outra ainda sobre falência hepática aguda.

NF | A participação de jovens especialistas tem vindo a aumentar de ano para ano. A que se deve esta participação crescente?

LT | O número de trabalhos submetidos à Semana Digestiva tem subido muito devido a um dinamismo muito marcado de Serviços de Gastrenterologia que se têm espalhado e consolidado no país. Há alguns anos não havia atividade importante em Viseu, em Guimarães ou em Castelo Branco por exemplo, cidades onde atualmente existem Unidades pujantes muito dinâmicas. Como sempre, os jovens são a força motriz dessa atividade.

NF | A organização da Semana Digestiva está a cargo da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED) e Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF). Como é desenvolvida a dinâmica entre as três entidades científicas?

LT | A comissão organizadora desta nossa reunião, a que tenho a subida honra de presidir, envolve elementos de todas as organizações que citou e também de secções especializadas que existem no nosso seio. Cito o Clube Português de Pâncreas, o Núcleo de Motilidade Digestiva, o Grupo de Estudos de Ecografia, bem como o Grupo de Estudo das Doenças do Intestino Delgado. Será também necessário referir que os colegas que se ocupam das doenças inflamatórias intestinais constituíram uma agremiação que sempre tem participado ativamente na Semana Digestiva, como acontece mais uma vez este ano. Devo dizer que o relacionamento de todas estas agremiações é muito bom e que o envolvimento dos membros de cada uma delas alivia muito o meu trabalho.

NF | De que forma estão envolvidas outras especialidades médicas na reunião magna da Gastrenterologia nacional?

LT | A Comissão Organizadora, por minha proposta, decidiu organizar uma mesa redonda subordinada ao título “A Cirurgia que interessa aos Gastrenterologistas”. Esperamos poder ver discutidas novas atitudes e novos métodos cirúrgicos que se vão impondo em tempos recentes.

Por outro lado, deve salientar-se que a Gastrenterologia é uma área que interessa muitas especialidades, dos internistas aos pediatras passando, claro está, pelos clínicos gerais. Estamos muito esperançados que estes colegas se queiram juntar a nós, como sempre acontece, para ouvir falar dos desenvolvimentos mais recentes da nossa área.

NF | Para além do seu posicionamento a nível nacional, a Semana Digestiva tem-se afirmado igualmente no panorama internacional. A que se deve este reconhecimento?

LT | Talvez não seja fácil imaginar, mas de janeiro a finais de outubro de 2015 houve 143 trabalhos publicados por gastrenterologistas nacionais em revistas estrangeiras. Saliento este facto já que a Comissão Organizadora, por minha proposta, decidiu selecionar oito destes trabalhos para serem apresentados como comunicações na nossa reunião.

Quando frequentamos reuniões internacionais fica sempre a impressão de que a maioria dos trabalhos presentes poderiam ser efetuados no nosso País. Dir-se-á que nos falta escala que permita juntar um número de casos suficientes para que exista expressão adequada nos nossos estudos. Mas este facto verifica-se em quase todo o lado. Estamos no tempo dos estudos multicêntricos que é preciso desenvolver e estimular. Uma cooperação dos diversos centros nacionais permitirá congregar experiência suficientemente importante para merecer mais atenção ainda nos conclaves internacionais.

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