Simulação médica: "É uma área com mais oportunidades do que desafios"
14/09/2021 15:10:51
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Simulação médica: "É uma área com mais oportunidades do que desafios"

A propósito da Healthcare Simulation Week, que se assinala de 13 a 19 de setembro, o Dr. Luis Patrão, médico e cofundador da UpHill, deu uma entrevista à News Farma. O investigador deixou o seu parecer sobre a evolução da simulação médica em Portugal e de que forma o seu desenvolvimento traz mais-valias para a medicina nacional. Leia a entrevista na íntegra.

News Farma (NF) |  A simulação médica tem sido uma área em constante crescimento, inclusive a última estimativa aponta para um valor global de mercado de 2.55 mil milhões de euros. Este fenómeno tem-se reproduzido também em Portugal?

Dr. Luís Patrão (LP) | Sim, sem dúvida. De diversas dimensões e respondendo a objetivos específicos de cada instituição, unidades hospitalares, faculdades e escolas de cursos de saúde têm procurado desenvolver simulação, criando ou adaptando espaços físicos e oportunidades de ensino. Têm surgido mais empresas de formação a integrar simulação, mais hospitais preocupados em utilizar a simulação na validação dos seus processos de decisão e mais investigação em relação ao papel da simulação no ensino.

 

NF | Como fundador de uma startup como a UpHill, quais são os principais desafios que encontra no desenvolvimento do setor da simulação médica?

LP | É uma área com mais oportunidades do que desafios. A simulação médica ainda está muito fechada no contexto de formação e só timidamente deu alguns passos em direção à monitorização da compliance clínica, ou seja, da aproximação ou não dos médicos às melhores práticas preconizadas pela evidência, ou mesmo desenvolvimento de novas técnicas, por exemplo. Diria que o principal desafio é aquele que existe em todas as intervenções em saúde: provar com recurso a evidência sólida que a simulação tem impacto na segurança do doente e melhora a saúde. Tal é tão mais difícil quanto mais precoce, em termos de percurso formativo, ou quanto mais alto nível, em termos de intervenção na hierarquia de decisão clínica, forem implementadas estratégias com simulação.

 

NF | De que forma as faculdades beneficiam das ferramentas tecnológicas na preparação de novos médicos?

LP | A evolução tecnológica tem sido essencial. O acesso à informação é imediato permitindo uma atualização constante; a distância deixou de constituir um problema; a ajuda à decisão clínica está literalmente nas nossas mãos ou, quando muito, nos nossos bolsos; o treino de gestos técnicos tão diferenciados como a laparoscopia ou broncofibroscopia faz-se com recurso a simuladores, salvaguardando doentes; a gestão em saúde depende de informação atualizada em tempo real. São apenas alguns dos exemplos que podemos constatar no dia-a-dia da saúde; tudo isto só é possível graças aos avanços tecnológicos. Sendo certo que da tecnologia dependem muitas componentes da simulação, não só de tecnologia se faz a simulação. Mesmo a simulação de baixa fidelidade implica, é certo, o desenvolvimento tecnológico de materiais e equipamentos. Em ambiente de alta-fidelidade, no qual até o cheiro e a temperatura podem ser uma preocupação na preparação do cenário, a tecnologia tem um papel central. A simulação faz-se, também, com doentes simulados ou simuladores de partes do corpo para treino de gestos técnicos simples. Já a aprendizagem, principalmente em contexto de simulação de alta-fidelidade, depende de técnicas de debriefing estruturadas as quais implicam formação e preparação específicas, e aqui a tecnologia também tem permitido muitos avanços, com recurso a gravação dos cenários ou feedback dos próprios manequins.

 

NF | Quais são as principais vantagens da simulação na formação médica pré e pós-graduada?

LP | São várias e estão documentadas em vários estudos. Reduz as assimetrias entre o conhecimento teórico e a prática clínica tanto na educação pré e pós-graduada1,2 ,permite a repetição de um gesto técnico3 até à aquisição de confiança e autonomia4 bem como o treino de competências de comunicação entre membros de equipas multidisciplinares. Garante um ambiente seguro para os formandos no qual o erro e transformado em oportunidade de aprendizagem. Assim, a segurança do doente fica preservada.5

 

NF | Como justifica os hospitais terem sentido a necessidade de criar os seus próprios centros de simulação médica?

LP | O treino faz parte do dia-a-dia dos profissionais de saúde e, por todos os motivos enunciados anteriormente, a simulação tem-se conseguido afirmar enquanto metodologia de treino em saúde. Não sendo possível realizar esse treino nos espaços ocupados pela atividade assistencial, foi necessário recriá-los num contexto que permitisse o treino continuado das equipas de saúde num ambiente que lhes fosse familiar. Adicionalmente, os centros de simulação têm permitido captar e reunir conhecimentos e experiência em educação aplicada às ciências da saúde, promovendo uma diferenciação dos instrutores e formadores em áreas como a comunicação ou debriefing, competências centrais para todos os profissionais de saúde.

 

NF | Quais são os próximos passos que podemos esperar da simulação médica em Portugal?

LP | A simulação ultrapassará o âmbito de intervenção estrita da formação e do treino para se afirmar como metodologia para testar e melhorar os processos de decisão e atuação clínica das instituições de saúde num ambiente controlado, seguro e mensurável - é também esta a visão da UpHill. Novos algoritmos de decisão, sejam eles clínicos, operacionais ou logísticos, passarão por uma fase de testes em ambiente simulado, reduzindo, assim, o peso que a implementação em contexto clínico real representa.

 

1 Tuttle, N., Horan, S.A. The effect of replacing 1 week of content teaching with an intensive simulation-based learning activity on physiotherapy student clinical placement performance. Adv Simul 4, 14 (2019). https://doi.org/10.1186/s41077-019-0095-8 2 Morgan PJ, Cleave-Hogg D, Desousa S, Lam-McCulloch J. Applying theory to practice in undergraduate education using high fidelity simulation. Med Teach. 2006 Feb;28(1): e10-5. doi: 10.1080/01421590600568488. PMID: 16627314. 3 Weller JM. Simulation in undergraduate medical education: bridging the gap between theory and practice. Med Educ. 2004 Jan;38(1):32-8. doi: 10.1111/j.1365-2923.2004. 01739.x. PMID: 14962024. 4 Toback SL, Fiedor M, Kilpela B, Reis EC. Impact of a pediatric primary care office-based mock code program on physician and staff confidence to perform life-saving skills. Pediatr Emerg Care. 2006 Jun;22(6):415-22. doi: 10.1097/01.pec.0000221342.11626.12. PMID: 16801842. 5 Zendejas B, Brydges R, Wang AT, Cook DA. Patient outcomes in simulation-based medical education: a systematic review. Journal of General Internal Medicine. 2013 Aug;28(8):1078- 1089. DOI: 10.1007/s11606-012-2264-5


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