“Na avaliação do doente com psoríase é necessário ter presente muito para além da pele”
29/04/2021 16:45:03
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“Na avaliação do doente com psoríase é necessário ter presente muito para além da pele”

A propósito da campanha “Psoríase é mais do que pele”, da Associação Portuguesa da Psoríase (PSOPortugal), a News Farma conversou com a Dr.ª Martinha Henrique, diretora do Serviço de Dermatologia do Centro Hospitalar de Leiria, que nos adiantou alguns dos avanços terapêuticos dos últimos anos, assim como de que forma a patologia se associa a condições cardiometabólicas e psiquiátricas, e até mesmo à artrite psoriática. Leia a entrevista na íntegra.

News Farma (NF) | Como descreve a doença psoriática?

Dr.ª Martinha Henrique (MH) | A doença psoriática é uma condição inflamatória que afeta a pele e as articulações.

NF | Quais os sintomas a ter em conta?

MH | Num doente com lesões cutâneas de psoríase é necessário estar alerta para queixas como dor e inflamação articular, rigidez matinal, dor na região glútea ou ciática, e dor nas costas, no sentido de despiste e diagnóstico precoce da artrite psoriática.

NF | De que forma é que a psoríase se associa à depressão e à ansiedade, às doenças cardiometabólicas, à artrite psoriática, e até mesmo à doença inflamatória intestinal?

MH | A psoríase é um processo inflamatório crónico e sistémico com risco aumentado de desenvolver doença cardiovascular. Este risco é independente dos fatores de risco cardiovasculares tradicionais, mas está ligado ao processo inflamatório.

A doença inflamatória intestinal e a psoríase partilham predisposição genética, bem como mecanismos imunológicos.

Também as doenças psiquiátricas, nomeadamente a depressão, tradicionalmente explicada como resposta aos fatores psicológicos e à qualidade de vida destes doentes, pode estar ligada à inflamação crónica.

Deste modo, a inflamação crónica e os mecanismos imunológicos podem explicar em parte, as comorbilidades existentes na psoríase.

NF | Quais são os sinais de alerta para estas manifestações?

MH | Na avaliação do doente com psoríase é necessário ter presente muito para além da pele. É importante avaliar as queixas articulares, intestinais, fazer despiste das possíveis doenças cardiometabólicas, bem como perceber o estado emocional do doente.

NF | Com que frequência é que os doentes com psoríase desenvolvem artrite psoriática, complicações cardiometabólicas e distúrbios depressivos?

MH | A psoríase afeta cerca de 3% da população e cerca de 30 a 40% dos doentes com psoríase têm ou vão ter artrite psoriática, sendo que em 70% a doença cutânea precede a doença articular e em 20% dos casos a doença cutânea e a articular aparecem simultaneamente. Quanto às complicações cardiometabólicas, de acordo com alguns estudos, cerca de 36% têm HTA, 18% obesidade, 12% diabetes e 13% doença coronária.  A associação com ansiedade e depressão é muito comum. Os doentes com psoríase apresentam ansiedade em média de 43% dos casos e a depressão em 20 a 30%.

NF | Qual o impacto destas manifestações associadas à psoríase na qualidade de vida do doente?

MH | Cerca de 80% dos doentes com psoríase têm diminuição do bem-estar emocional, da capacidade de funcionamento social e da produtividade laboral ou escolar, o que influencia muito a qualidade de vida destes doentes. 

NF | Que hábitos ou medidas podem contribuir para uma melhoria ou declínio dos sintomas da doença?

MH | Os doentes com psoríase devem ter hábitos saudáveis que reduzam a inflamação e a depressão. É importante o exercício regular, dieta saudável, sono regular e evitar o álcool, tabaco, prevenir a obesidade e prevenir o stress.

NF | Que avanços terapêuticos existem atualmente para atenuar os sintomas da doença psoriática?

MH | Os avanços terapêuticos na área da psoríase nos últimos anos mudaram completamente a qualidade de vida dos doentes. O aparecimento de novos tratamentos, como a terapêutica biológica, desde os anti-TNF até aos mais recentes anti-IL17 e anti-IL23 permitem o controlo total ou quase total dos doentes de psoríase, com alguns destes tratamentos já com efetividade demonstrada também no envolvimento articular. Os agentes biológicos têm um marcado benefício na qualidade de vida e vários estudos evidenciam uma melhoria significativa nos sintomas efetivos dos doentes com psoríase.

NF | Qual o panorama atual da doença psoriática, tendo em conta a pandemia e os sucessivos confinamentos?

MH | Estes medicamentos, com dados de segurança robustos, continuaram a ser utilizados durante a pandemia, não tendo havido necessidade de descontinuação, pelo que foi possível manter os doentes em tratamento e controlados. Devido ao confinamento poderão ter havido interrupções pontuais, mas no geral não afetaram a evolução da doença. De qualquer forma, é importante sublinhar a necessidade de acompanhamento regular destes doentes, que mesmo em época de pandemia não devem deixar de ser seguidos, garantindo o devido controlo da sua doença e respetivas comorbilidades.


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