Investigadores portugueses reconhecidos por dispositivo inovador: "Representa um reconhecimento e um estímulo”
08/04/2021 15:41:57
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Investigadores portugueses reconhecidos por dispositivo inovador: "Representa um reconhecimento e um estímulo”

“O prémio da Sociedade Europeia de Endoscopia Digestiva (ESGE) representa um reconhecimento e um estímulo. É um reconhecimento do carácter inovador e promissor do MAgnétic Gastrointestinal Universal Septotome (MAGUS), e é um estímulo para continuarmos o desenvolvimento técnico e as aplicações clínicas”, garante o Dr. Ricardo Rio-Tinto, investigador na Fundação Champalimaud. No seguimento de o MAGUS ter sido destacado pela ESGE como o dispositivo mais inovador, a News Farma esteve à conversa com este médico, que integra a equipa de desenvolvimento do projeto.

O MAGUS, começa por explicar o Dr. Ricardo Rio-Tinto, é um dispositivo que “consiste em dois ímanes com 15 mm de diâmetro ligados por um fio de corte. Num dos ímanes foi instalado um mecanismo ‘de relógio’ programado para retrair o fio de forma lenta e com uma força constante”. Quando aplicado, “de um e de outro lado do septo de um divertículo esofágico sintomático, os ímanes ‘apertam’ a base do tecido” que é para cortar, o que faz com que este fio faça “a retração do septo”. Assim, “o tecido sob compressão acaba por necrosar induzindo a marsupialização (abertura da bolsa) a parte que fica cicatriza e o doente volta a conseguir ingerir alimentos sem disfagia”.

Porquê o desenvolvimento deste dispositivo? O investigador assume que o que levou à necessidade deste dispositivo foi o tratamento de doentes com divertículos esofágicos, que, devido a esta condição, têm dificuldade em comer, regurgitam e podem mesmo aspirar os alimentos. “Estes doentes correm até o risco de sufocar e morrer”, alerta.

Atualmente, o tratamento é cirúrgico, conta o Dr. Ricardo Rio-Tinto; porém, existem riscos associados à intervenção “em doentes muito idosos e frágeis”, tornando a cirurgia “desaconselhável”.

Esta não foi, no entanto, a primeira vez que os investigadores tentaram desenvolver uma solução de tratamento para estes doentes. “Em 2015 lembrámo-nos de usar os ímanes. Os primeiros resultados não foram ótimos. A solução funcionava, mas tínhamos que repetir a endoscopia várias vezes para recolocar os ímanes e completar a secção do septo do divertículo”, destaca o médico. Foi daqui que, a partir do conhecimento que adquiriram, surgiu a “ideia e desenvolvimento do MAGUS, que permite completar o processo com uma única endoscopia para introduzir o aparelho e uma radiografia no final para garantir que este foi eliminado”, sublinha.

Por ser um processo simples, que pode ser feito em ambulatório, “com queixas muito moderadas, dor ligeira ou desconforto que resolvem com analgesia oral”, o mesmo responsável realça que, depois deste procedimento, “ao fim de cinco dias, a magia acontece: quase subitamente os doentes começam a comer facilmente”. “Ao fim de cerca de uma semana, o dispositivo conseguiu cortar completamente o septo do divertículo e, cumprida a sua função, é eliminado pelo sistema digestivo. Quando a obstrução desaparece, o doente sente-se subitamente melhor”, reconhece.

Neste momento, o especialista conta que o dispositivo está aprovado para um ensaio clínico de exequibilidade e segurança, na Bélgica, onde já foram tratados cerca de 20 doentes no Hospital Erasme. “Metade destes doentes são portugueses. Os resultados têm sido muito impressionantes em termos da segurança, mas também de eficácia, com uma melhoria substancial dos sintomas de todos os doentes já tratados”, frisa.

O próximo passo será, nos anos que se seguem, “adaptar e fazer aprovar o uso do MAGUS em situações mais frequentes, nomeadamente no tratamento de divertículos sintomáticos noutras localizações, no tratamento da síndrome de candy-cane, na resolução da obstrução do tubo digestivo em doentes oncológicos, e possivelmente no tratamento da obesidade, substituindo a cirurgia de by-pass gástrico”.

“Se este conceito de 'cirurgia com resultados diferidos' se desenvolver, um dia será possível prescrever um comprimido 'cirúrgico' que está programado para fazer de forma indolor e sem incisões uma determinada cirurgia. O impacto poderá ser, então, enorme”, conclui.

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