"É fundamental ter uma estratégia para recuperar as doenças oncológicas ginecológicas"
06/04/2021 11:54:55
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"É fundamental ter uma estratégia para recuperar as doenças oncológicas ginecológicas"

"Precisamos de organizar, urgentemente, uma task force para doenças não COVID-19, envolvendo os doentes e é fundamental ter uma estratégia para recuperar as doenças oncológicas". Quem faz o apelo é a Enf.ª Tamara Milagre, presidente da Associação de Apoio a Portadores de Alterações nos Genes Relacionados com Cancro Hereditário (EVITA). Em entrevista à News Farma, a presidente da EVITA realçou a importância de recuperar os atrasos nos diagnósticos das doenças oncológicas ginecológicas. Assista ao vídeo.

Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a Enf.ª Tamara Milagre começa por destacar as doenças oncológicas do foro ginecológico a que devem estar as mulheres mais atentas, como o cancro do endométrio, "um dos mais frequentes no sexo feminino", o cancro de colo do útero "que, felizmente, está a diminuir por causa da vacina", o cancro dos ovários "que é muito importante porque tem uma grande dificuldade na deteção precoce", e o cancro da vulva e da vagina, que são "raros mas existem, e são altamente dramáticos e nem sempre fáceis de detetar".

Relativamente ao cancro dos ovários, a presidente da EVITA alerta, principalmente, para a importância de estar atento aos sintomas, porque "é, infelizmente, um dos cancros mais letais neste momento". Além disso, "cerca de 15% a 20% dos cancros nos ovários têm origem hereditária, é muito importante para verificar se há uma mutação genética. Depois pode ter influência no próprio tratamento e estender o teste genético para restantes familiares, e identificar pessoas saudáveis que estão em alto risco de ter esse e outros tipos de cancro", sustenta.  

No que toca ao impacto na qualidade de vida das doentes com cancro ginecológico, a especialista sublinha que "está altamente comprometida porque a terapia naquela área causa muitos efeitos colaterais, nomeadamente a radioterapia, que leva a queimaduras interiores e secura vaginal, e o tratamento cirúrgico com a extração de gânglios linfáticos porque pode levar a aderências e a linfedemas da parte das pernas".

Alertando para o impacto que está a ter a pandemia no diagnóstico destes cancros, a Enf.ª Tamara Milagre explica que "qualquer rastreio ficou suspenso nos últimos meses, principalmente o rastreio populacional no cancro do colo do útero, juntamente com as citologias não aconteceram". "As pessoas, mesmo sentido sintomas, tentam desvalorizar por causa da pandemia, porque não temos capacidade de resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS) para atender as pessoas todas além da COVID-19. Ainda estamos muito longe de recuperar o tempo perdido no diagnóstico, nomeadamente, no diagnóstico precoce destes cancros", frisa.

Quanto aos tratamentos, a presidente da EVITA afirma ter sido também uma área muito afetada, porque "ou havia falta de adesão por medo de ir ao hospital mas, ou o próprio tratamento também foi alterado por parte dos médicos, no sentido de espaçar mais a quimioterapia para minimizar as deslocações ao hospital - porque cada deslocação ao hospital é uma exposição ao risco da COVID-19".

"Para doentes oncológicos o risco é muito grave porque se tiverem a infeção por COVID-19 têm de suspender imediatamente o tratamento oncológico, têm de sujeitar-se ao tratamento da COVID-19, tendo uma taxa de mortalidade mais elevada. O doente oncológico internado tem um risco de 30% de morrer com COVID-19, segundo a Sociedade Europeia de Oncologia Médica", acrescenta.

De acordo com a presidente, o impacto da pandemia fez-se sentir, principalmente, no cancro dos ovários, uma vez que é uma doença já difícil de detetar num estadio precoce mesmo sem pandemia: "Com a pandemia, a mulher pode, de facto, sentir sintomas como gases, inchaço, mas tenta convencer-se de que não há-de ser nada por não querer ir ao hospital nesta situação. Os sintomas como queixas urinárias, inchaço abdominal e gases podem relacionar-se a outras situações, portanto não são sintomas agudos e urgentes que, a ver das senhoras, justifiquem uma ida ao hospital".

Às autoridades, a Enf.ª Tamara Milagre deixa o apelo: "Precisamos de organizar, urgentemente, uma task force para doenças não COVID-19, envolvendo os doentes e é fundamental ter uma estratégia para recuperar as doenças oncológicas".

"Para as pessoas no geral quero apelar, agora que estamos lentamente a melhorar os números: se tiverem sintomas, não hesitem. Contactem com o vosso médico, mesmo que seja uma teleconsulta ou telefone, mas não deixem de contactar o médico, não deixem de ir a consultas", conclui.

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