Endometriose: “É uma doença ainda desvalorizada”
31/03/2021 14:27:27
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Endometriose: “É uma doença ainda desvalorizada”

“Considero que é uma doença ainda desvalorizada por, não só os médicos ainda não conhecerem a doença, mas também pelo facto de as próprias doentes desvalorizarem as dores”, conta o Dr. João Sequeira Alves, médico de Ginecologia-Obstetrícia do Hospital da Luz, Lisboa. No âmbito do mês de sensibilização para a endometriose, a News Farma esteve à conversa com o especialista sobre a desvalorização desta doença.

O Dr. João Sequeira Alves começa por explicar que esta desvalorização da endometriose provém, não só dos médicos como das doentes que tomam as suas dores “como sendo normais”, ou até por não possuírem grande conhecimento sobre a infertilidade que possam ter, e “sobre o que é que pode causar essa infertilidade”.

“Ainda há a perspetiva de que as dores menstruais são normais, mesmo quando essas dores são incapacitantes: é uma questão cultural”, sustenta. Contudo, o especialista realça que, a seu ver, “se é uma dor que afeta gravemente a qualidade de vida da pessoa e o seu dia-a-dia, essa dor deve ser sempre valorizada e investigada”.

Além disso, o Dr. João Sequeira Alves apela ao facto de ser uma doença que, a nível de impacto negativo nas doentes, afeta “não só a parte física, como também a emocional porque está associada muitas vezes a depressão, tristeza, ansiedade e angústia”. Também uma maior taxa de absentismo nas mulheres com endometriose é um dado destacado pelo ginecologista pois “é normal que as doentes não consigam ir trabalhar, pelo menos, dois ou três dias por mês e tipicamente fiquem em casa com um saco de água quente para as dores”.

Segundo o médico, se não for diagnosticada e tratada atempadamente, é uma patologia que pode, acima de tudo, levar a uma baixa qualidade de vida das doentes, ou, em casos raros, a “complicações ligadas a órgãos”. Isto porque “se afetar os ureteres pode levar a falência renal, mesmo em pessoas que não têm queixas. Por exemplo, pode afetar um rim ou o intestino de uma forma silenciosa”.

Relativamente aos objetivos do tratamento, o Dr. João Sequeira Alves assinala que, por ser uma doença crónica sem cura “os objetivos do tratamento passam pelo controlo da doença e melhoria da qualidade de vida das pessoas afetadas e pelos objetivos de cada doente”.

“Por exemplo, há doentes que não têm dor e portanto nesse aspeto não é preciso estarmos preocupados; há doentes que têm infertilidade e nós estamos mais preocupados, muitas vezes, com a questão da infertilidade do que com a questão das dores. O tratamento deve ser dirigido consoante os objetivos de cada doente e não de uma forma universal”, acrescenta.

Com a pandemia, o ginecologista considera que, se o Serviço Nacional de Saúde já tem, habitualmente, uma “resposta relativamente lenta à endometriose, essa resposta pode ter sido agravada – levando a uma maior procura e ao desespero de algumas doentes”. “Mas, gradualmente, temos vindo a acompanhar e aumentar a nossa resposta às doentes”, contrapõe.

Aos colegas de profissão, o Dr. João Sequeira Alves deixa uma mensagem final de apelo: “Hoje em dia, já existe muita informação na internet por isso sugiro procurar fontes fidedignas que nós, médicos, sabemos que existem e que possam apoiar no sentido de ter maiores ferramentas de diagnóstico em relação à endometriose e procurar pessoas que conheçam a doença a quem referenciar as mulheres”.

“Às doentes digo para não acharem que é normal, devem tentar ao máximo ter uma boa qualidade de vida e não se acostumarem às dores numa forma geral. Terem noção de que podem ter endometriose, que esta doença existe, e que merece um tratamento e acompanhamento especializado”, conclui.


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