Doença Cardiovascular: O que ficou para trás Parte II: “O doente está muito abandonado”
18/03/2021 15:10:48
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Doença Cardiovascular: O que ficou para trás Parte II: “O doente está muito abandonado”

O debate subordinado ao tema “Doença Cardiovascular: O que ficou para trás”, promovido pela KRKA, teve desenvolvimento no dia 18 de novembro, mas focado no ângulo “Políticas de saúde e o risco dos nossos doentes”. O objetivo foi dar continuidade à análise da importância da identificação de patologias e dos fatores de risco associados à doença cardiovascular, pelo que manteve os especialistas presentes na parte I. Reveja o primeiro webinar aqui.

O Health Design Thinker José Ribeiro foi agora o moderador, contando como palestrantes com o Dr. Almeida Nunes, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa; o Dr. Carlos Rabaçal, cardiologista do Hospital de Vila Franca de Xira, e o Dr. Bernardo Mira, especialista em Medicina Geral e Familiar do Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Central do Médio Tejo.

Introduzindo o tema do webinar, José Ribeiro começou por referir como principal preocupação do evento “procurar encontrar algumas soluções, respostas”, para que se possa “fazer melhor pelo doente no dia de amanhã”.

Relativamente ao continuum cardiovascular e àquilo que pode ser feito para ajudar os profissionais, o orador lançou duas premissas, que passam por saber como é que se pode desacelerar a elevada prevalência da doença cardiovascular para “travar esta evolução de todos os doentes que não são os doentes da pandemia”, e ainda solucionar a  “baixa adesão e persistência no tratamento”, o que, “de alguma forma, mata”. “Sendo a doença cardiovascular a primeira causa de morte, muitas vezes é devida ao mau controlo dos fatores de risco, por exemplo o controlo da hipertensão e do LDL (colesterol)”. Daí que, de acordo com o Health Design Thinker, estas duas variáveis sejam onde os médicos podem atuar.

“Como é que nós identificamos o padrão destes doentes?”; “A idade é um fator para não medicar?” e “Como aumentar a adesão e a persistência no doente “lipitenso” (com dislipidemia e hipertensão)?” foram, pois, as três questões que o moderador colocou em cima da mesa, para dar início ao debate.

Em relação à primeira questão, a identificação de um padrão nestes doentes, o Dr. Bernardo Mira referiu que gostava de dizer que tem “um mecanismo para os detetar”, mas a verdade é que, ao invés disso, possui um “conjunto de indicadores” que “ajudam a identificar doentes que têm maior risco cardiovascular que outros”. Isto porque “não existe ainda um algoritmo ou uma escala” que permita assumir que um “dado doente no continuum cardiovascular tem um risco absoluto maior de certo evento do que outro”. Porém, estes indicadores só dizem se o doente está controlado “nos fatores de risco individualmente, ou seja, não olham para o doente como um todo”.

Antes de responder propriamente às questões, o Dr. Carlos Rabaçal relembrou que é importante estar consciente dos números. “Em Portugal, várias fontes apontam-nos para que a prevalência da hipertensão arterial na população adulta seja na ordem dos 40%. […] Em 80% dos hipertensos, há um outro fator de risco, que foi aquele que já foi falado, que é a dislipidemia. […] Um terço dos hipertensos tem diabetes, 40% dos hipertensos são obesos, portanto há um agregado de fatores de risco em torno da hipertensão que faz com que nós tenhamos de olhar para este assunto de uma forma muito atenta”, enunciou. Por isto, sustentou que a solução pode passar por identificar mais antecipadamente os doentes hipertensos “para serem tratados e depois serem controlados”, seguindo, por exemplo, o trabalho dos Estados Unidos, “onde há unidades de avaliação da hipertensão arterial em supermercados, nos cabeleireiros, nos barbeiros, nas farmácias […] que identificam estes doentes e retiram estes doentes do volume de trabalho que o médico de família já tem”.

Por seu lado, o Dr. Almeida Nunes considerou que, neste momento, não faz sentido saber identificar os doentes com os fatores de risco, porque “o dano é de tal maneira grande, as dezenas de milhares de consultas programadas que ficaram e vão ficar por fazer, os milhares e milhares de cirurgias programadas, que agora emergem mais ainda, por fazer, o doente está neste momento muito abandonado”. “Até prova em contrário, eu tenho de minorar o mais possível o risco dos meus doentes […] porque o risco deles aumentou exponencialmente”, comentou.

Já relativamente à segunda questão, a relevância da idade na medicação, o Dr. Almeida Nunes afirmou que “70% dos doentes que vão à consulta por hipertensão, quer em cuidados de saúde primários, quer no hospital, são doentes de alto risco ou muito alto risco” e, por isto, a medicação tem um papel importante. “Nós temos neste momento de ser mais cuidadores do que nunca, mais preventivos do que nunca”, notou.

O Dr. Bernardo Mira destacou que esta dúvida relacionada com a medicação decorre da quantidade de guidelines que existem sobre cada patologia associada, sendo que “não existe uma guideline do doente cardiovascular”.  Em concordância, o Dr. Carlos Rabaçal referiu que “as guidelines têm de ser documentos muito mais simples e fáceis de ler”, pois “tornam difícil a adoção e a implementação” destas na prática clínica.

Porém, antes de se pensar em medicação, o Dr. Carlos Rabaçal apontou que há algo que não se pode esquecer, que é o facto de “o grande avanço da Medicina, seja ela cardiovascular ou outra”, ter “muito mais a ver com a prevenção do que com os tratamentos”. Ao chegar a essa fase, considerou que a medicação é inevitável, independentemente da idade, isto porque “um doente que entra no hospital com uma destas catástrofes clínicas, seja um AVC, seja um enfarte do miocárdio”, tem de ser tratado.

Perante a terceira questão, o Dr. Almeida Nunes afirmou que a adesão e persistência no tratamento pode passar pela atual associação da medicação, em que, por exemplo, numa só pastilha, é possível tratar a hipertensão e a dislipidemia ao mesmo tempo. “Só com um comprimido por dia, com certeza que é mais cómodo, mais fácil, mais simples, mais barato, eficaz e seguro”, concordou o Dr. Carlos Rabaçal.

Ainda em relação a esta problemática, o Dr. Carlos Rabaçal voltou a relembrar a importância dos números, afirmando: “Calcula-se que 9% da mortalidade cardiovascular na Europa seja resultante da não adesão”.

O Health Design Thinker José Ribeiro terminou o webinar relançando uma questão: “O que é que vou fazer amanhã por este meu doente com risco cardiovascular?”. Em resposta, o Dr. Carlos Rabaçal afirmou que, acima de tudo, neste momento, é necessário pensar no doente, uma vez que, atualmente, a visão dos profissionais é muito “COVID-cêntrica”.

Assista aqui ao webinar na íntegra.

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