Cancro do colo do útero: “o rastreio não está a ser feito de forma adequada”
22/01/2021 14:58:44
Partilhar por emailShare on Google+Partilhar no facebookPartilhar no linkedinPartilhar no twitter
Cancro do colo do útero: “o rastreio não está a ser feito de forma adequada”

“Algo que me deixa preocupado é o rastreio não estar a ser feito de forma adequada”, devido ao contexto de pandemia. Quem o afirma é o Dr. Henrique Nabais, ginecologista e diretor da Unidade de Ginecologia do Centro Clínico Champalimaud, em entrevista à News Farma, no âmbito da Semana Europeia de Prevenção para o Cancro do Colo do Útero. Apesar de termos um plano nacional de vacinação em curso, o verdadeiro problema assenta na diminuição do rastreio do cancro do colo do útero, devido à pandemia.

NF | No âmbito da Semana Europeia de Prevenção para o Cancro do Colo do Útero, qual é a realidade do cancro do colo do útero em Portugal?
HN | O panorama, em Portugal, neste momento, é muito melhor do que era há uns anos. Temos um plano de vacinação em curso, que embora ainda não tenha uma repercussão clara na patologia oncológica do cancro do colo do útero, já começamos a ser responsável por uma menor taxa de incidência da patologia precursora. Prevê-se que, no futuro, venhamos a ter uma redução importante no número de casos de cancro. O rastreio também tem vindo a estabelecer-se de forma consistente nas diferentes ARS.
Habitualmente, temos uma janela de vacinação de quatro anos. O Plano Nacional de Vacinação recomenda a vacina do HPV aos dez anos, embora possa ser efectuada entre os dez e os treze anos. O objectivo é a administração antes do início da vida sexual pelo menor risco de infecção, mas também porque a resposta imunitária é mais eficiente este grupo etário.

NF | O rastreio atempado é essencial para o tratamento eficaz deste cancro. Durante a pandemia, como está esta realidade?
HN | É claro que temos um problema grave que é o contexto atual da pandemia em Portugal que se mantém desde março do ano passado, e que conduziu a constrangimentos importantes no Sistema Nacional de Saúde com perturbação em alguns rastreios, que deixaram de se fazer da forma mais adequada. Sabemos pelos dados publicados que houve um decréscimo do rastreio do cancro do colo do útero em cerca de 10%. Não quer dizer que não se faça sempre a colheita para a citologia ou pesquisa de HPV, mas também nem sempre há uma resposta rápida no diagnóstico.
Por outro lado, os Cuidados de Saúde Primários, estruturas onde se procede à colheita para o rastreio, têm tido outras tarefas inadiáveis relacionadas com a pandemia, com atraso inevitável em todas as outras atividades. Tenho algum receio pelas dificuldades esperadas na reorganização dos Cuidados de Saúde Primários após a quebra na pressão pela pandemia COVID-19, particularmente no que diz respeito à retoma dos diferentes rastreios. Estes são urgentes e imprescindíveis e, como todos sabemos, o diagnóstico precoce salva vidas!
Com a vacinação não tem havido grandes problemas e acredito que a maioria da população alvo tenha sido vacinada no tempo esperado, apesar de termos uma margem segura e relativamente ampla, em termos de atraso na administração. Em relação ao tratamento do cancro, acredito que já existirá algum atraso, o que mais uma vez obrigará a uma restruturação do plano oncológico, quer a nível individual, quer nacional.
Uma das minhas preocupações neste momento tem que ver com a consciência plena da importância do doente COVID, mas não podemos esquecer o doente não COVID, nomeadamente o doente oncológico.

NF | Como é que se pode prevenir o cancro do colo do útero?
HN | Para prevenir o cancro do colo do útero, existem duas abordagens essenciais e que devem funcionar em simultâneo, a prevenção primária e a prevenção secundária. A prevenção primária procura evitar a infeção HPV, tendo na vacinação a sua principal intervenção, embora existam outras ações importantes associadas a comportamentos de risco como a não utilização do preservativo, múltiplos parceiros sexuais e o tabagismo. A prevenção secundária inclui o rastreio que tem como objetivo diagnosticar o cancro na sua fase inicial ou mesmo na fase pré-cancro, permitindo o seu tratamento precoce e em tempo útil.

NF | Que impacto é que a vacinação tem tido no cancro do colo do útero?
HN | A vacina foi introduzida no plano nacional de vacinação no sexo feminino em 2008. Temos 12 anos de vacinação. O impacto no cancro ainda não se faz sentir de forma importante porque o cancro do colo do útero tem uma história natural longa. O género feminino começou a ser vacinado aos 13 anos e agora aos dez anos, mas o cancro do colo do útero surge mais tarde, aos 30 ou 40 anos. É algo que só se consegue ver daqui a cinco ou dez anos. Claro que temos modelos matemáticos que nos dizem qual vai ser o impacto, mas ainda não temos um impacto real na sua taxa de incidência. O cancro que está a ser diagnosticado agora é o das mulheres que nunca foram vacinadas. Pelo contrário, já é registado um impacto importante na patologia pré-neoplásica.
O cancro do colo do útero tem características diferentes de muitos dos outros cancros e que tornam possível o rastreio. Na verdade, na grande maioria das vezes, o cancro é precedido pela doença pré-cancro, o que se associa a um aumento da eficácia do rastreio.
De 2008 a 2017, a vacina do PNV era uma vacina quadrivalente que protegia contra dois genotipos de HPV de alto risco, 16 e 18, responsáveis por 70-75% dos cancros, e contra dois genótipos de baixo risco, 6 e 11, responsáveis por cerca de 90% dos condilomas genitais. Em 2017 a primeira vacina foi substituída por uma vacina nonavalente que protege contra nove genotipos, dos quais sete são de alto risco, permitindo uma protecção para cerca de 90-95% dos casos de cancro do colo do útero.
A taxa de cobertura vacinal ronda os 90%, na verdade temos um dos melhores planos de vacinação do mundo. É possível que venhamos a ter no futuro uma redução de cerca de 80-90% na taxa de incidência do cancro do colo do útero. Isto é fabuloso!

NF | Esta vacina foi alargada ao sexo masculino? Porquê?
HN | A vacina alargada aos rapazes tem dois objetivos principais. Por um lado, sabemos que o HPV não está só associado ao cancro do colo do útero, vagina e vulva, mas também ao cancro ano-rectal, cancro do pénis e alguns cancros da cabeça e pescoço, vindo a vacina evitar a maioria destes cancros, em ambos os sexos Por outro lado, a vacina nos rapazes também tem o objetivo de controlar a rede de transmissão do HPV. Os rapazes são um veículo de transmissão do HPV, tal como as raparigas, naturalmente. Se for possível evitar que os rapazes não contraiam a infecção, eles não irão infetar as raparigas, o que nos vai ajudar no controlo da infecção e dos cancros associados.

NF | De que forma é que este alargamento ao sexo masculino constituiu uma decisão exemplar para o resto do mundo?
HN | Certamente que é um exemplo que nos distingue. Muitos países gostariam de ter esta vacina para o sexo masculino, ou até só para o sexo feminino. Hoje temos dados a demonstrar a segurança e a eficácia desta vacina no sexo masculino. O problema que se coloca é sempre uma questão económica porque as vacinas são caras e nem todos os países têm capacidade para as adquirir, o que acaba por ser só os países ricos a fazer a vacinação em termos populacionais e, ainda assim, nem todos estes países introduziram a vacinação no sexo masculino.
Felizmente hoje existem organizações que facilitam a aquisição da vacina a preços bastante mais acessíveis pelos países de baixos recursos. Provavelmente a mais importante a nível mundial é a GAVI, The Vaccine Alliance, sendo atualmente o Dr. Durão Barroso o presidente do seu Conselho de Administração. Estas organizações têm um papel humanitário absolutamente determinante no futuro das sociedades mais desprotegidas.
É claro que não basta adquirir as vacinas, é necessário ter uma estrutura organizada que permita um plano de vacinação eficiente. Muitos países por falta de recursos económicos ou por outros condicionantes como conflitos armados, têm dificuldade em possuir uma estrutura organizada que garanta um Plano Nacional de Vacinação. A vacinação só terá impacto na saúde de um país se for integrada num plano nacional e cobrir a maioria da população alvo. Se se vacinar só algumas pessoas, habitualmente as com maior poder aquisitivo, a vacina só irá proteger essas pessoas, mas não terá qualquer impacto na saúde pública do país.


Pesquisa

Publicações

Prev Next

Médico News, 37, janeiro/fevereiro 2019

Farmacêutico News, 37, janeiro/fevereiro 2019

Hematologia e Oncologia, 24, dezembro 2018

15.º Congresso Português de Diabetes, n.3

  SIDA, 37, janeiro/fevereiro 2019