A pessoa com VIH no centro do sistema: cinco propostas
08/01/2021 12:48:14
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A pessoa com VIH no centro do sistema: cinco propostas

O Dr. António Diniz, o Prof. Doutor Fernando Maltez e o Dr. José Vera protagonizaram uma “tertúlia do fim da tarde”, com o objetivo de colocar a pessoa que vive com VIH no centro do sistema. Apontaram aspetos a melhorar e apresentaram sugestões que contribuem para uma solução pensada em conjunto e que visa dar mais qualidade de vida aos doentes.

 

"A pessoa com VIH no centro do sistema: cinco propostas" foi o título do primeiro debate de um ciclo de quatro. Organizadas pela News Farma, em parceria com o Movimento #PensaPositvo, as sessões contam com o apoio da Gilead e decorrem em ambiente virtual com o intuito de destacar as pessoas com infeção por VIH, através de vários temas, desde a prevenção ao tratamento e ao estigma.

O Dr. António Diniz, vice-presidente da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA dinamizou este encontro, que decorreu no final da tarde do dia 16 de dezembro e que teve as intervenções do Prof. Doutor Fernando Maltez, presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica, e do Dr. José Vera, coordenador do Núcleo de Estudos da Doença VIH da SPMI.

Nesta “primeira conversa”, os três intervenientes tentaram “pensar positivamente sob vários aspetos que rodeiam a abordagem e o seguimento das pessoas infetadas por VIH”, referiu o Dr. António Diniz após ter apresentado os dois especialistas, apelidando a sessão de “tertúlia do fim da tarde”. Apresentações feitas, lançou ao Dr. José Vera e ao Prof. Doutor Fernando Maltez o desafio de refletirem sobre o ponto de situação atual e o que falta fazer para colocar a pessoa com VIH no centro do sistema de saúde.

Na opinião do coordenador do Núcleo de Estudos da Doença VIH da SPMI, é importante haver “ações que coloquem o doente como o nosso principal foco e isso traduz-se em tentar modificar e adaptar todo o sistema de atendimento do doente no ambulatório”. O internista considera fundamental “adaptar a estrutura hospitalar, de modo a fazer uma parceria entre os interesses e limitações dos doentes e as nossas possibilidades, para de alguma maneira responder às necessidades dos doentes”. Para que tal se concretize disse que “é necessário organizar o atendimento do doente e modificar a nossa postura nessas condicionantes”.

O especialista falou também na acessibilidade e apontou as limitações de índole geográfica ou económica dos doentes. Por isso, insistiu numa adaptação às várias possibilidades com o intuito de oferecer um atendimento regular. Por outro lado, “entrar num diálogo de parceria deve ser estendido a toda a equipa e não apenas aos médicos. É fundamental para tentarmos encontrar maneiras de colaborarmos, no sentido de dar um cuidado mais alargado aos doentes, por exemplo, reduzindo as deslocações ao hospital”, completou e frisou a redução do esforço e a otimização da relação.

Ao tomar a palavra, o Prof. Doutor Fernando Maltez disse que o Dr. José Vera referiu aspetos muito importantes e evidenciou os mesmos, acrescentando a fragilidade dos doentes infetados com VIH provocada pela pandemia COVID-19. Acrescentou ainda “a falta de resposta em termos de ofertas sociais e cuidados paliativos para os indivíduos infetados”. Também focou o estigma e descriminação dos grupos ainda mais vulneráveis como os migrantes, os homens que têm sexo com homens e as mulheres por pertencerem a um grupo populacional muito particular, sobretudo após os 50 anos, por “implicar alterações no comportamento e receios em transmitir o vírus ao parceiro ou aos filhos”.

O diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral indicou que a doença psiquiátrica é cada vez mais prevalente, sobretudo entre as pessoas que têm mais de 20 anos de infeção. E, relativamente às comorbilidades, disse que é fulcral existir uma abordagem multidisciplinar. “Não basta apenas atuar nas comorbilidades de forma separada. A acumulação das comorbilidades nos diferentes órgãos causa outros problemas de saúde, que fragilizam o doente e o tornam incapaz de realizar gestos simples como fazer um telefonema”, mencionou e frisou o cada vez maior número de pessoas com mais de 50 anos a viver com VIH. “Os nossos serviços de saúde deveriam organizar-se de uma forma multidimensional para de facto responderem à maioria destes aspetos que mencionei e não esgotei. Existem mais.”

 

Sugestões para melhorar a organização dos serviços

Perante os aspetos identificados, o Dr. António Diniz perguntou aos dois médicos se tinham alguma sugestão para tornar possível uma organização dos serviços capaz de dar resposta ao envelhecimento e aumento do número de pessoas que vivem com VIH. Questionou se efetivamente os serviços já estão preparados ou tem de haver uma mudança na organização.

“Não terei uma solução, mas sim algumas ideias, que podem contribuir para uma solução. É indispensável que estes doentes tenham um acompanhamento multidisciplinar, que não necessita de ter a regularidade e periodicidade que idealizamos ao falamos nesse apoio”, afirmou o Prof. Doutor Fernando Maltez, sublinhando um ensinamento da pandemia COVID-19. “As consultas não presenciais não retiram valor ao acompanhamento. Provavelmente o doente não necessitará de tantas consultas presenciais e provavelmente será possível conseguir uma boa organização. No meu Serviço ainda não conseguimos uma organização sistematizada e rotinada para cada doente, mas era desejável que conseguíssemos.”

Relativamente ao acompanhamento por outras especialidades, devido às comorbilidades, o presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica referiu que “implica que haja especialistas que tenham gosto pela patologia. São doentes especiais. Eventualmente poderá haver apoio de organizações não governamentais e dos médicos de Medicina Geral e Familiar. Na minha prática clínica, quando os doentes necessitam de ser consultados por outra especialidade, não encontro obstáculos para marcar consulta. Mas, a articulação deveria estar melhor oleada, melhor rotinada e ser transversal”.

O Dr. José Vera salientou que tem “uma visão muito diferente entre doença crónica e doença sistémica” e disse que concebe alguma semelhança entre as questões do acompanhamento de pessoas com VIH e doentes com diabetes ou doenças autoimunes, por exemplo. Focou o aumento da esperança de vida e com isso o aumento de outras patologias, pelo que “urge dar uma resposta integrada assente nesta realidade”. Por seu turno, há “o reverso da medalha, que são as dificuldades que os doentes têm na vida real, como o emprego precário, a distância geográfica ou as limitações nas deslocações para as consultas. “Já aconteceu doentes ligarem para dizerem que não vieram à consulta porque não puderam faltar ao trabalho”, exemplificou e comentou que deveria ser “incluído no mesmo lote o tratamento num determinado nível das várias co-patologias. Ou seja, devemos tentar resolver e acompanhar os doentes até um determinado nível. Não devemos pensar que o nosso papel é apenas controlar a infeção por VIH, mas por exemplo olhar para a hipertensão ou para a diabetes e dar uma resposta. Nesse aspeto, a organização tem de ser diferente do que aquela a que estamos habituados”. Para o internista é igualmente necessário repensar o seguimento em ambulatório. “O internamento é um episódio na vida do doente, mas o ambulatório é para o resto da vida.”

O Prof. Doutor Fernando Maltez concordou com o que o Dr. José Vera expôs e frisou que o modelo de apoio multidisciplinar que idealiza “não pretende ser uma sobrecarga para o doente. Quero simplificar ao máximo e melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Todavia, o infeciologista lembrou que “há situações que nos ultrapassam e o paradigmático é a doença psiquiátrica. Felizmente não tenho muitos doentes que deixam de ser autossuficientes”. Referiu também a falta de tempo nas consultas. “Não temos tempo para fazer questionários que permitem detetar certas alterações.”

Tendo em conta a complexidade dos doentes, para o Prof. Doutor Fernando Maltez a melhoria dos cuidados passa também pela sensibilização da sociedade para integração e acompanhamento dos doentes. Algo que vai abranger a redução do estigma. “Tem de haver uma sociedade sensibilizada em prol do bem-estar destes doentes. Considerar a infeção por VIH/SIDA como uma outra patologia.”

Na reta final do encontro, o Dr. António Diniz salientou alguns pontos-chave, como sejam “a necessidade de repensar o modelo organizacional com reforço do ambulatório, o combate do estigma, a importância de implementar um acompanhamento multidisciplinar básico, o alargamento de mecanismos de acessibilidade quer a consultas, quer a referenciação, quer a tratamento e a necessidade de reforçar a articulação com organizações de base comunitária e com a Medicina Geral e Familiar”.

Para o Dr. José Vera, “não há erros, mas sobreposição de algumas áreas. A reorganização do ambulatório tem de ser radical”. “Estamos todos de acordo. Precisamos de um modelo mais completo e simplificado, que facilite o doente e que melhore a sua qualidade de vida”, frisou o Prof. Doutor Fernando Maltez. “Terminamos com uma visão de futuro melhor e mais acessível”, rematou o Dr. António Diniz.

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