A  COVID-19 e as dores de costas: A auto-imunidade como locus onde as doenças se encontram
16/10/2020 14:50:19
Dr. Miguel Cordeiro, Neurorradiologista de Intervenção do Hospital da Cruz Vermelha
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A COVID-19 e as dores de costas: A auto-imunidade como locus onde as doenças se encontram

Pois é, agora até a dor de costas pode ser provocada pela COVID… Mas como?

A COVID-19, doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2, é a doença do momento. A dor de costas sempre foi. Havendo um caldeirão de circunstancias adequadas, podemos desenvolver dor de costas ou pneumonia da COVID-19 após infeção por SARS-CoV-2.

Mas como? Sendo o SARS-CoV-2 um vírus que o nosso sistema imunitário ataca, o vírus pode orientar, dependendo dum conjunto de fatores envolventes variados, esse sistema imunitário em várias direções, como no sentido dos sintomas clássicos e mais comuns da doença respiratória ou de outras doenças auto-imunes entre as quais estão a dores de costas.

Outros fatores que poderão contribuir para o aumento da dor de costas em tempo de pandemia são o sedentarismo associado ao confinamento, o aumento de peso, o stress e ansiedade que também desregulam o sistema imunitário, assim como a falta de acesso do doente ao seu médico devido aos entraves à entrada nos hospitais e centros de saúde, o que leva ao progredir de doenças com o seu descontrolo, algumas das quais poderão também contribuir para a dor de costas.

Mas como se relaciona a auto-imunidade com a COVID-19, com a dor de costas e como podem estas, por sua vez, relacionar-se?

Há forte evidência cientifica que fenómenos de auto-imunidade são os principais responsáveis pelas formas graves da COVID-19 nomeadamente pneumonias graves associada a síndrome respiratório aguda severo (SARS). Esta doença não é exclusivamente provocada pelo vírus da COVID, podendo ser provada por outros vírus ou mesmo por outras doenças infeciosas ou não, desde que essas doenças desencadeiem o mesmo tipo de resposta auto-imune.

Embora a causa exata das doenças autoimunes ainda permaneça desconhecida, existem vários fatores que se acredita contribuírem para o seu surgimento, incluindo a predisposição genética, fatores ambientais (tais como infeções por bactérias, vírus, fungos ou parasitas), agentes físicos (frio, escaldão pelo sol, etc), fatores hormonais e desregulação do sistema imunológico, que pode ainda ser influenciado pelo nosso estado de espirito, ansiedade, stress, etc.. A interação de todos esses fatores pode em determinado momento levar ao desenvolvimento da grande maioria das doenças humanas que têm - eu atrever-me-ia a dizer - quase sempre, em maior ou menor grau, um fundo auto-imune.

Vírus como o parvovírus B19, Epstein-Barr, citomegalovírus, herpes-6, HTLV-1, da hepatite A e C e da rubéola estão comprovadamente associados ao desencadeamento e iniciação de doenças autoimunes, mas na realidade quase todos os outros vírus o podem fazer. Falo-vos em todos estes vírus para perceberem que o mundo não é só COVID. Os outros vírus estão e continuarão por aí. Os mecanismos sugeridos são complexos, mas bem conhecidos e claramente descritos na literatura cientifica médica.

Vou-vos poupar a pormenores, mas após a infeção por qualquer vírus desencadeia-se uma cadeia de acontecimentos que pode eventualmente levar à produção de mediadores pró-inflamatórios, que por sua vez podem levar a danos nos tecidos. Dependendo do tecido danificado, assim temos manifestações/ doenças diferentes.

Os coronavírus afetam desde sempre os seres humanos por meio da transmissão por animais. Nas últimas duas décadas, este é o terceiro caso do surgimento de estirpes de coronavírus diferentes, novas, mais graves do que os habituais, após a SARS em 2003 e a MERS-CoV em 2012. Em dezembro de 2019, um novo surto de um novo tipo de infeção por coronavírus surgiu em Wuhan, China, o SARS-CoV-2 que provoca a doença COVID-19 caracterizada por febre, tosse seca, dor de músculos e/ ou fadiga extrema. A infecção pode também ser assintomática ou com sintomas constitucionais mínimos de gripe levando a um desfecho favorável em muitos casos. No entanto, alguns dos pacientes desenvolvem uma pneumonia grave com sepsis levando à síndrome de desconforto respiratório aguda (SDRA) com insuficiência respiratória que requer ventilação mecânica e envolvimento de múltiplos órgãos podendo levar à morte. Estas formas graves de Covid-19 são aquelas que se desenvolvem por ativação imune descontrolada (libertação exagerada de citocinas, etc.) levando à falência de múltiplos órgãos.

O SARS-CoV-2 pode atuar como um fator desencadeante para o desenvolvimento de uma desregulação autoimune e/ ou auto-inflamatória rápida, podendo levar não só à pneumonia intersticial grave, em indivíduos com predisposição genética ou antecedentes patológicos, mas também, ao que parece, a muitas outras doenças auto-imunes caso um caldeirão de fatores variados se cumpra.

A dor de costas tem também quase sempre fenómenos inflamatórios/ auto-imunes por detrás. É o ataque que o nosso próprio sistema imunitário faz contra tecidos danificados da coluna como discopatias, hérnias, protrusões, abaulamentos discais, artroses, cartilagens das facetas articulares, das articulações sacro-iliacas, de quistos sinoviais, tecido que junta os discos aos corpos vertebrais ósseos, entre outros, que leva quase sempre ao desenvolvimento de sintomas (dor de costas, formigueiros, sensação térmica anómala, e por vezes mesmo falta de força).

O vírus da COVID pode assim desencadear uma resposta do sistema imunitário, que pode levar à destruição do vírus, altura em que não se desenvolve doença, ou desencadear uma resposta auto-imune, caso se conjuguem uma serie de fatores, que pode levar a uma serie de doenças, das quais a mais grave será a pneumonia da SARS mas, caso se conjuguem fatores ambientais, patológicos ou genéticos diferentes, levar ao desenvolvimento de outras doenças, como a dor de costas.

A mensagem neste Dia Mundial da Coluna será: mantenha-se ativo, com segurança, mas ativo, e não descuide a sua saúde, que não se restringe obviamente à proteção contra a COVID-19.


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