Mais tempo para o doente: um bom desejo de ano novo
03/01/2020 14:53:47
Prof. Doutor João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
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Mais tempo para o doente: um bom desejo de ano novo

Há algumas frases lapidares que não esquecemos e nos guiam na nossa vida profissional. Como médico, nunca esqueci aquela de William Osler: “Se ouvirmos o doente, ele diz-nos o diagnóstico”. É uma máxima curiosa. Sugere que o doente joga com o médico uma espécie de charada, em que a solução é o seu próprio diagnóstico, só encontrado com a audição atenta da sua mensagem encriptada.

 

Só ouve bem, e tem acesso a toda a informação, com capacidade para a descodificar, quem dá tempo ao outro, e lhe dá a importância de um igual. O tempo é fundamental para uma relação médico-doente empática, que é uma condição determinante do exercício da Medicina com humanidade.

O tempo que concedemos aos nossos doentes está ameaçado. A tecnologia dá-nos acesso ao conhecimento quase instantâneo, mas perturba-nos o olhar e o contacto físico. Às vezes, quase sem nos apercebermos, mostramos como estamos apressados. De soslaio, espreitamos o relógio e fazemos constantes interrupções no discurso do paciente, que deveria ser fluido, para ser completo. Esquecemos a parte não-verbal da comunicação, e estragamos tudo.

Querem tornar a relação médico-doente património imaterial da humanidade. Acho que faz sentido fazê-lo, nestes tempos conturbados. Será uma forma de a preservar e de recordar o seu valor.

As máquinas terão tendência a substituir, com vantagem, muito trabalho médico. Os relatórios dos exames de imagem ou de anatomia patológica, poderão ser feitos por computador, com maior precisão. A cirurgia robótica irá crescer cada vez mais, no local ou até à distância.

Há alguns aspetos do trabalho médico que a tecnologia não substituirá: o raciocínio clínico, a empatia e a humanidade. Para tudo isto, o tempo que damos ao nosso doente para nos contar a sua história não pode ser espartilhado, com índices cegos de produção. Os gestores da saúde têm de valorizar o exercício de uma Medicina de alto valor e encontrar formas de medir e auditar a qualidade assistencial.

O financiamento apenas baseado nos números, sejam eles de consultas, internamentos ou cirurgias, já é obsoleto.

É um bom desejo de ano novo, que isto mude. Será bom para a nossa saúde, e para as nossas finanças, que se analisem os resultados, onde se inclui a satisfação dos doentes.

 


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