Quão frequente é a carência de vitamina D na população portuguesa?
05/11/2019 16:05:09
Dr.ª Cátia Duarte e Prof. Doutor José António Pereira da Silva
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Quão frequente é a carência de vitamina D na população portuguesa?

Tem havido alguma polémica sobre a real prevalência da carência de Vitamina D no nosso país, incluindo sugestões subreptícias de que os resultados mais alarmantes estarão enviesados por interesses comerciais. A verdade, contudo, é que trabalhos conduzidos por grupos independente e em circunstâncias muito díspares têm conduzido a resultados notavelmente consistentes. Leia o artigo da Dr.ª Cátia Duarte e do Prof. Doutor José António Pereira da Silva.

Um estudo que incluiu dados de 55844 indivíduos de todas as idades e de diferentes países europeus conclui que 40.4% da população apresenta deficiência de Vitamina D (níveis <20ng/mL), sendo ainda mais elevada em diversos subgrupos (Cashman e col. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26864360).

Em Portugal, o estudo mais abrangente, com mais de 3000 indivíduos adultos de todo o país conduzido entre 2012 e 2013, demonstrou que mais de 60% da população apresenta níveis de vitamina D inferiores a 20 ng/mL, sendo os idosos, os obesos e os residentes no arquipélago dos Açores os que apresentam um risco mais elevado (Duarte e col, em publicação).  A associação com a idade e o excesso de peso é totalmente concordante com a literatura científica, conferindo fiabilidade aos resultados. Um outro estudo, UP65, abordou indivíduos saudáveis com idade superior a 65 anos e demonstrou que 69% tinham níveis de vitamina D inferiores a 20 ng/mL, sendo que  39.6% dos individuos tinham mesmo niveis inferiores a 12 ng/mL (Santos e col. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28645977). Um trabalho em adolescentes da região do Porto concluiu que a esmafgadora maioris tinha nºiveis insuficienets de vitamina D (Cabral e col, https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29081320)

Estes dados parecem difíceis de aceitar por alguns, em virtude de Portugal ser um “país de sol”.  Também o é o Brasil (Pereira-Santos e col. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29420062) e talvez ainda mais o Médio Oriente e o Norte de África (Bassil e col. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24194968) e isso não impede que tenham taxas muito elevadas de carência de Vitamina D. Isto deve-se simplesmente a que as pessoas e não apanham sol suficiente, mesmo (e talvez sobretudo) quando vivem em países com muito sol. As alterações do estilo de vida com trabalhos predominantemente em edifícios, as campanhas de proteção, o aumento da prevalência da obesidade são, seguramente, fatores influentes. A alimentação tem aqui escassa relevância já que, com exceção de alimentos pouco usuais, como os óleos de fígado de peixe, têm quantidades despiciendas de vitamina D.

A carência de Vitamina D é particularmente prevalente em alguns grupos de risco. Destacam-se os idosos, devido à menor capacidade de produção de Vitamina D da pele e sua ativação no rim, os obesos (por sequestração de vitamina D no tecido adiposo), os in divíduos de pele muito escura.

A esmagadora maioria das pessoas com carência de Vitamina D não tem sintomas óbvios que a denunciem.  A evidência científica sugere, contudo, que possam ter uma saúde menos robusta traduzida em maior tendência à ocorrência e à gravidade de doenças variadas como infeções respiratórias, doenças neurológicas, insuficiência cardíaca e neoplasias. Em situações de défice acentuado podem observar-se dores musculares difusas, cãibras, fraqueza muscular, alterações de humor e tendência a fraturas ósseas (osteomalacia). Nas crianças podem associar-se atraso de crescimento e deformação dos ossos (raquitismo).  Nestes casos, os sintomas   são rapidamente revertidos pela reposição e níveis adequados de Vitamina D.

Ainda que não existam outras doenças que se possam atribuir diretamente à falta de vitamina D, alguns estudos têm apontado para uma associação entre a deficiência de Vitamina D  e a prevalência e gravidade de uma grande variedade de doenças, incluindo insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, epilepsia, cancro de diversas localizações, doenças inflamatórias como a artrite reumatoide e ainda infeções de vário tipo. Importa sublinhar que a associação com muitas destas doenças, que não as ósseas, persiste controversa e não foi comprovada de forma definitiva. Contudo, dada a enorme segurança da Vitamina D em doses de até 10.000U/dia por muitos meses, e o seu baixo custo, o equilíbrio entre o benefício potencial e o risco potencial mantem-se muito favorável, segundo a opinião de muitos especialistas e estudiosos da matéria.

Isso pode obter-se simplesmente por garantir uma exposição solar adequada (10-15 min de exposição, entre as 10-16h, de abril a setembro), modificação de estilos de vida, ou suplementação em doses adequadas (800 a 2000U/dia, em adultos e idosos). Esta reposição pode fazer-se sem qualquer risco de sobredose, sem que haja necessidade de proceder a doseamento prévio dos níveis sérios de vitamina 25(OH)D no soro.

 

Artigo de Opinião

Dr.ª Cátia Duarte, reumatologista
Prof. Doutor José António Pereira da Silva, professor de Reumatologia

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