A dislexia na escola e na vida
10/10/2019 15:44:09
Prof.ª Doutora Helena Serra, presidente da Direção da DISLEX- Associação Portuguesa de Dislexia
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A dislexia na escola e na vida

A dislexia é uma perturbação do neuro desenvolvimento que ocorre numa percentagem significativa de casos – cerca de 10% da população, segundo foi definido pelo DSM 5, em 2014. A dislexia não é uma doença, é sim um jeito de ser e de aprender que reflete a expressão individual de uma mente que aprende de maneira diferente.

Revela-se em idade escolar, quer logo na fase da iniciação à leitura e escrita, quer em anos seguintes, manifestando-se como uma Perturbação Específica de Aprendizagem, porque os desempenhos do aluno se caraterizam por um défice na precisão e na fluência da leitura ou por um défice na expressão escrita, podendo, numa percentagem menor de casos, associar-se ainda a défice na matemática.

A dislexia tem vindo a ser objeto de estudo para muitos cientistas, sendo descrita como uma “condição inesperada e inexplicável que ocorre numa criança de inteligência média ou superior, caracterizada por um atraso significativo em uma ou mais áreas de aprendizagem” (Mark Selikowitz, 1999). Estamos a falar de alunos com inteligência normal, órgãos sensoriais intactos, liberdade emocional, motivação, incentivo e podem ter tido um ensino adequado.

O aluno disléxico pode apresentar uma leitura muito inicial e imprópria para o seu nível escolar (silabada, com hesitações e alterações, sem ritmo e expressão e/ou com dificuldades de interpretação), pode apresentar alterações na linguagem oral ou escrita (na ortografia, morfossintaxe e grafo motricidade) que em alguns casos se associam também a dificuldades na matemática. Hoje, sabe-se que estas manifestações têm uma génese neurológica que interferem com competências instrumentais, facilitadoras da aprendizagem, da leitura e da escrita. Nestes casos, as competências apresentam-se ineficientes, incompletamente desenvolvidas e lentas, constituindo um pré-requisito em relação ao ato de ler símbolos gráficos e fonéticos a serem reconhecidos, associados, integrados, combinados e interpretados a uma velocidade cada vez maior.

Quais são as competências instrumentais?

São, em primeiro lugar, as competências psicolinguísticas:

i) a linguagem compreensiva e expressiva poderá apresentar-se muito empobrecida;

ii) também a psicomotricidade que engloba: 1. a interiorização da imagem do corpo (se não interiorizar a estrutura “corpo”, não sabe reconhecer e sentir a localização dos seus diferentes elementos e não compreende direções como atrás, ao lado, à frente; 2. a noção de lateralidade (saber reconhecer a direita e a esquerda em si, nos outros e nos espaços em geral); 3. adquirir orientação espacial (saber orientar-se espacialmente nos seus contextos, ou num mapa ou globo terrestre, compreender a orientação dos símbolos gráficos, um gráfico ou uma tabela de dupla entrada); 4. orientação temporal (aprender a ver as horas, a distinguir os dias da semana, os meses do ano ou relacionar acontecimentos ordenados no tempo;

iii) as competências percetivas auditivas (competências fonológicas como distinguir sons, reconhecer palavras e seus elementos) e visuais (atender a pormenores visuais, copiar sem erro um texto); iv) a coordenação óculo-manual e o controle e destreza motora fina (que potenciam traçados grafomotores harmónicos e com direccionalidade adequada);

v) capacidade de atenção e memória (para poder reter séries sequenciais ouvidas, ou visualizadas). Estas competências constituem como que “alicerces” em relação à aquisição da Leitura Compreensiva–Escrita–Matemática. A leitura só é possível quando, a partir de uma maturidade indispensável, são possíveis a integração e o reconhecimento de diferenciações. Como este processo implica captar e interpretar símbolos verbais impressos, ela é uma das formas mais abstratas de estudo. O processo de linguagem implica i) receção, ou seja, a capacidade de ouvir e ler compreensivamente; ii) integração da informação recebida; iii) expressão, isto é, falar ou escrever. Estas três vertentes encontram-se interligadas e são indissociáveis. Quando um dos aspetos referidos não se encontra bem desenvolvido, isso vai manifestar-se em dificuldades reais no processo de aprendizagem. Atrasos significativos em alguma ou algumas das áreas instrumentais, acarretam fraca realização generalizada, uma vez que, por sua vez, ler-compreender-escrever-raciocinar-escutar-reter são competências transversais a qualquer disciplina escolar.

As Perturbações Específicas de Aprendizagem: dislexia, disortografia, disgrafia, discalculia, são descritas como disfunção neurológica-parietal/temporal ou parietal/occipital-que requer um tratamento terapêutico intensivo. Alguns casos terão uma etiologia genética, mas inúmeros outros ocorrem de lesões cerebrais intrauterinas ou provocadas por infeções. O professor/educador poderá e deverá ser o primeiro a suspeitar que a criança pode ser disléxica, porque pode comparar o trabalho e o comportamento da criança com o dos seus colegas. Deve, em tempo útil, indicá-lo para uma avaliação diagnóstico a ser efetuada por especialistas, organizados em equipa multidisciplinar.

O aluno disléxico é geralmente triste, deprimido, angustiado, devido ao fracasso, apesar dos esforços para superar as suas dificuldades. Esta frustração, originada por anos de esforço sem êxito, e de comparação com os demais alunos, pode dar origem a sentimentos de inferioridade e de baixa autoestima. E tendem a exibir um quadro mais ou menos típico, com variações de caso para caso. Podem, a certa altura do seu percurso, revelar reduzida motivação e empenho pelas atividades que impliquem a mobilização de competências de leitura e escrita, o que vai aumentar as dificuldades escolares; ou recusar situações e atividades que exijam ler em voz alta, pelo medo de se expor; ou apresentar sintomatologia ansiosa (sobretudo em trabalhos para avaliação); refletir um sentimento de insegurança e vergonha em resultado de sucessiva e generalizada falta de êxito, apesar dos esforços.

Para a DISLEX, a vergonha não tem de ser sentida por deles, mas antes pelo sistema educativo que teima em não os fazer identificar precocemente para intervir de forma diferenciada e com os necessários apoios especializados.

O seu fracasso é resultante da ação ainda (quanto a eles) fracassada da escola pela omissão do dever de, em tempo útil, disponibilizar os apoios de que efetivamente necessitam.

A base legal de atuação nas escolas para que haja educação inclusiva é o Dec. Lei n.º 54/2018 onde são previstas as medidas – universais e seletivas – que cada Escola, através da sua EMAEI, pode decidir aplicar a alunos disléxicos. Todavia verifica-se uma grande divergência de critérios de aplicação dessas medidas e, mesmo quando se decide pela aplicação de algumas medidas, não se atende verdadeiramente à necessidade de apoio psicopedagógico dado atempadamente e por especialistas.

 A DISLEX, em relação às escolas, considera como bases de atuação:

1. Em sala de aula, haver um envolvimento pedagógico diferenciado (previsto como medidas universais) consubstanciado em apoio e incentivo no quotidiano das tarefas escolares, colocação privilegiada na sala de aula, trabalho cooperativo, condições de avaliação adaptadas (por exemplo: privilegiar a oralidade, testes com formato de letra e espaçamento próprios, com menor número de questões ou dispor de mais tempo para a realização, com perguntas claras e diretas, com apoio, sempre que necessário, na compreensão dos enunciados, os erros e faltas não penalizarem os alunos, usar textos curtos, facultar a consulta de tabuadas, fórmulas, efetuar a avaliação em espaço diferenciado, etc).

2. Para além da sala de aula, quando se trate de dislexia moderada ou severa:

i). ser promovido e disponibilizado apoio psicopedagógico, dado em pequenos grupos ou individualmente, por especialistas (consoante o caso: por professores especializados, psicólogos, terapeutas, psicomotricistas, etc.);

ii) e, quando necessário, ter apoio pedagógico para reforço de conteúdos disciplinares, dados pelos respetivos docentes;

iii) há um outro aspeto a providenciar:  cuidar de habilitar o aluno com competências de estudo e, enquanto as não adquirir, atender e cuidar para que o seu estudo pessoal seja orientado e apoiado (na escola e ou na família), com recurso a súmulas, resumos, treino de perguntas-tipo e com base em mapas conceptuais para articulação de conhecimentos.

A escola muitas vezes erra no investimento que faz, porque sempre que disponibiliza certo tipo de apoios, mas não, concomitantemente, os previstos no n.º 2 - i), tais alunos não progridem adequadamente por não se “atacar a causa, mas apenas o efeito”.

Para uma intervenção eficaz, os docentes necessitam de formação específica. 

À família, orientada pela escola, cabe rodear estas crianças e jovens de uma atitude compreensiva, apoiante, investindo com seu filho em atividades que desenvolvam as competências escolares em falta e, a par, apostando em realizações extraescolares (desportivas, artísticas ou outras em que revelem habilidade), sabendo que o que importa é conduzi-los para a aceitação das suas caraterísticas, procurando alcançar a melhor realização possível, em tudo, na sua vida.            

Nos nossos dias, há “n” individualidades de renome que “confessam” a sus dislexia e lhe atribuem os êxitos alcançados em campos específicos de realização criativa.

A história, entre as suas personalidades e vultos mais criativos, refere alguns disléxicos famosos. Basta oferecer-lhes uma respeitosa compreensão das suas caraterísticas e, em tempo escolar útil, os apoios diferenciados adequados ao seu caso.

A DISLEX existe para operar a mudança.

 

Artigo de opinião de Prof.ª Doutora Helena Serra, presidente da Direção da DISLEX- Associação Portuguesa de Dislexia

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