Enxaqueca: uma verdadeira patologia que necessita da atenção da comunidade médica
22/07/2019 11:51:55
Dr.ª Elsa Parreira
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Enxaqueca: uma verdadeira patologia que necessita da atenção da comunidade médica

Hoje, dia 22 de julho, assinala-se o Dia Mundial do Cérebro, que este ano é dedicado à sensibilização para a enxaqueca, a doença mais comum do cérebro. Em entrevista à News Farma, a Dr.ª Elsa Parreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, refere os principais sintomas desta doença, que diz ser subvalorizada pela comunidade médica, e aponta os principais avanços que têm sido efetuados quanto ao tratamento da mesma.

Dados recentes (My Migraine Voice), revelam que 79% dos portugueses que sofrem de enxaqueca sentem-se limitados para cumprir as tarefas diárias durante uma crise. O mesmo estudo referiu ainda que o impacto da patologia na vida profissional é reconhecido por 80% dos inquiridos, sendo que metade (50%) dos doentes faltou ao trabalho por causa da enxaqueca no último mês (uma média de 3,8 dias). Os participantes reportaram ainda uma média de 10 dias prejudicados pela enxaqueca no mês anterior ao estudo e 44% disseram que os ataques duravam um ou mais dias.

News Farma (NF) | Porquê a necessidade de sensibilizar para a enxaqueca? Acha que é uma doença subvalorizada?

Dr.ª Elsa Parreira (EP) | Esta necessidade surge do facto de a enxaqueca ser uma doença frequente e incapacitante, porém não tem sido valorizada como tal. Sendo uma doença subvalorizada é como tal subdiagnosticada e subtratada e não tem merecido a devida atenção por parte da comunidade médica. Foi nesse sentido que a Federação Mundial de Neurologia (World Federation of Neurology) entendeu este ano que era necessário alertar a comunidade médica em geral e a neurológica em particular para o problema da enxaqueca - a doença mais comum do cérebro. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) através da sua campanha ´Lifting the Burden’, tem pretendido chamar a atenção para o facto de a enxaqueca ser uma doença esquecida e pouco valorizada e daí, claro, também a importância desta iniciativa.

NF | Quais os principais sintomas e qual o impacto da doença?

EP | A enxaqueca caracteriza-se por episódios ou crises recorrentes de dor de cabeça que podem surgir com frequência variável: desde uma a duas vezes por ano, a várias vezes por mês ou mesmo quase todos os dias. A dor de cabeça pode atingir metade da cabeça, é tipicamente uma dor pulsátil, e acompanha-se de uma série de sintomas: náuseas, vómitos, intolerância a estímulos como a luz, o barulho, os movimentos, os esforços físicos e que fazem com que a pessoa, nas crises, sobretudo nas mais intensas, fique incapaz de fazer a sua vida normal, quer porque tem que ficar em repouso, quer porque, mesmo em termos de funções cognitivas estas estão afetadas.

NF | É uma doença que tem um impacto significativo nas tarefas diárias?

EP | Como disse, durante a crise há necessidade muitas vezes de repousar porque as atividades físicas de rotina agravam as queixas; do mesmo modo algumas capacidades mentais podem estar afetadas verificando-se dificuldades de raciocínio e concentração e isso traduz-se em incapacidade grande no período em que se manifestam os sintomas. Obviamente que, crises mais frequentes originam maior incapacidade.

NF | Que tratamentos existem e quais têm vindo a ser desenvolvidos para o tratamento e prevenção das enxaquecas?

EP | Em relação ao tratamento, existem duas opções. Ou tratamos a crise aguda quando ela surge, ou seja, utilizando medicação para aliviar os sintomas da crise que já está instalada, o chamado tratamento agudo que se faz com analgésicos, com anti-inflamatórios ou com triptanos, medicamentos específicos para tratamento agudo da enxaqueca. Ou, no caso das pessoas que sofrem enxaquecas com mais frequência, deve ser efetuado um tratamento preventivo, ou seja, um tratamento profilático para diminuir a frequência das crises, a intensidade com que elas surgem e a incapacidade dela resultante. Nesse caso, temos ao nosso dispor vários fármacos preventivos orais, como os antiepiléticos, os beta-bloqueantes, os antagonistas dos canais de cálcio e alguns antidepressivos. Estes fármacos, que se têm utilizado ao longo dos anos, são fármacos eficazes, mas, todos eles foram desenvolvidos para outras indicações que não a enxaqueca, pelo que se acompanham muitas vezes de efeitos secundários. Mais recentemente, com base na investigação da fisiopatologia da enxaqueca, têm vindo a ser desenvolvidos novos fármacos preventivos, injetáveis e muito específicos, tais como os anticorpos monoclonais que têm a vantagem de serem mais bem tolerados e de serem eficazes em múltiplos tipos de enxaqueca: com ou sem aura, episódica ou crónica e na enxaqueca refratária, aquela que não respondeu a outros medicamentos preventivos. No caso da enxaqueca crónica, ou seja, aquela que ocorre em mais de 15 dias por mês, utiliza-se também como terapêutica preventiva a toxina botulínica, eficaz e bem tolerada.

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