Dia Mundial da DPOC: aprender a conhecer e a viver com a doença

Dr.ª Paula Simão, coordenadora Nacional do GOLD
15/11/17
Dia Mundial da DPOC: aprender a conhecer e a viver com a doença

A DPOC é uma doença crónica, progressiva e irreversível que ataca os brônquios e pulmões. Ocorre devido à exposição inalatória de partículas ou gases nocivos. Está tão associada ao hábito de fumar, que cerca de 20% de todos os fumadores poderão vir a desenvolver a doença, que progride com a idade, levando à incapacidade e morte prematura. Contudo, o tabagismo não é o único factor de risco. As populações expostas a poluição em recintos fechados (fogões a lenha e a carvão), correm também risco, o mesmo acontecendo com a poluição atmosférica. A hereditariedade pode constituir, igualmente, um factor de risco de DPOC, mas a única doença genética claramente identificada com a DPOC é rara.

No mundo estima-se que existam cerca de 600 milhões de pessoas afectadas, constituindo a 6.ª causa de morte a nível mundial e a 5.ª na Europa. Calcula-se que em 2030 a DPOC seja a 3ª causa de morte a nível mundial - logo após as doenças de coração e os acidentes vasculares cerebrais.

Em Portugal a prevalência da doença nos indivíduos acima dos 40 anos é de 14,2%, acreditando-se que a doença está em crescimento e sub-diagnosticada. A prevalência de DPOC aumenta com a idade e com a carga tabágica, em ambos os géneros, atingindo o valor de 30,8% acima dos 70 anos. Outrora considerada uma “doença de homens”, a sua prevalência na mulher tem aumentado em virtude das mudanças nos hábitos tabágicos.

Apesar de ser uma causa importante de internamento hospitalar, temos assistido nos últimos anos a uma diminuição do número de internamentos em consequência, muito provável, de um melhor conhecimento da doença pelos médicos e doentes.

Os sintomas iniciais podem ser ligeiros, como tosse acompanhada por expectoração, seguindo-se infecções respiratórias de repetição sobretudo no Inverno (“constipações frequentes”). O cansaço fácil / falta de ar, em actividades da vida diária como subir escadas, fazer desporto ou até na actividade sexual pode ser o primeiro sinal a ser valorizado. A doença evolui ao longo de vários anos para a insuficiência respiratória que se caracteriza por diminuição da oxigenação sanguínea e consequente diminuição da oxigenação dos órgãos nobres como o cérebro, o coração, o fígado e o rim. Surgem sintomas como a perturbação da memória, a dificuldade de concentração, a impotência sexual, entre outros.

O diagnóstico faz-se através da realização de um exame muito simples designado Espirometria ou “exame do sopro”, que detecta a doença mesmo antes de existirem sintomas. É pois importante inclui-la no check-up de rotina, à imagem do que se faz com o rastreio sistemático da hipertensão, da diabetes ou do colesterol.

A DPOC tem tratamento e existem normas divulgadas em todo o mundo, o que permite que os doentes possam ser bem tratados e de igual forma em qualquer país.

Deixar de fumar é fundamental. Existem disponíveis diversos e eficazes tratamentos farmacológicos e não farmacológicos para a DPOC. Destes últimos, a reabilitação respiratória (inclui exercicio fisico e intervenção psicoeducativa), que deve ser iniciada precocemente e mantida mesmo nas fases mais graves, é fundamental e já deu provas da sua eficácia. A ideia generalizada que estes doentes têm que ficar parados para evitar a falta de ar é errada, sendo benéfico fazer exercício físico adequado à gravidade da doença.

Nas fases mais avançadas, a administração de oxigénio, actualmente também com recurso a dispositivos portáteis, ou a utilização de ventiladores (em casos bem determinados) aumenta a sobrevida dos doentes, aumenta a qualidade de vida pelo aumento da tolerância ao exercício e diminuindo a necessidade de hospitalização.

A grande preocupação (e desafio) actual é dotar a população de conhecimento correcto sobre a DPOC de forma a que cada um se sinta implicado na prevenção, na procura de diagnóstico e tratamento precoce – reconhecendo os sintomas iniciais -, e sabendo como actuar em momentos de agudização.

Ao Sistema Nacional de Saúde (SNS) cabe o desafio de materializar no terreno aquilo que já existe no papel (portaria 6300/2016): consultas de cessação tabágica, espirometria e acesso a reabilitação respiratória em todos os ACeS até final de 2017.

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