A DPOC e os hábitos tabágicos

Dr. João Cardoso, diretor do Serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Marta
31/05/17
A DPOC e os hábitos tabágicos

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco é a principal causa de morte evitável em todo o mundo. Os números não enganam: atualmente, existem mil milhões de fumadores em todo o mundo e uma em cada 10 mortes de adultos está relacionada com hábitos tabágicos. Tal corresponde a seis milhões de mortes por ano ou a uma morte por cada seis segundos, causada pelo fumo do tabaco. E, destes seis milhões de pessoas, 600 mil são fumadores passivos.

Em Portugal, o aumento da esperança média de vida e os efeitos do tabagismo a nível respiratório provocaram, nos últimos anos, um aumento das doenças respiratórias crónicas. E, mais uma vez, os números não mentem: os hábitos tabágicos são responsáveis por 90% dos casos de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).

Embora pouco conhecida, a DPOC é uma doença extremamente letal, uma vez que faz com que os doentes apresentem menores níveis de oxigénio no sangue, causando a falência de vários orgãos vitais. De acordo com o último Relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, cerca de 800 mil portugueses sofrem de DPOC, ou seja, 14% da população com mais de 40 anos. E ninguém está imune: ex-fumadores e pessoas expostas, regularmente, ao fumo do tabaco são potenciais doentes.

Como em quase todas as doenças, também nesta o diagnóstico precoce e a cessação dos fatores causais podem fazer toda a diferença para travar a progressão da doença. Assim sendo, não só os profissionais de saúde, como também os próprios doentes, devem estar atentos aos sintomas.

O tabagismo, por si só, é responsável por alguns efeitos crónicos como a dispneia, tosse, expetoração, respiração ruidosa e cansaço. Associados a outros sintomas, como a perturbação da memória ou a dificuldade de concentração, conduzem a um quadro de incapacidade progressiva, onde o doente se sente limitado nas suas tarefas do dia-a-dia. Na maior parte dos casos, viver com DPOC é sinónimo de viver “preso” em casa e com sérias repercussões na vida social e profissional.

Como abordar a DPOC?

Como podemos, então, tratar a DPOC? O acompanhamento do doente deve envolver a prevenção (com a promoção da cessação tabágica), a vacinação (como meio de prevenir as infeções respiratórias) e a reabilitação respiratória, que constitui uma componente fundamental no tratamento do doente respiratório e é considerada como uma intervenção de primeira linha no tratamento de doentes com DPOC estável, num estádio moderado a grave.

Os programas de reabilitação respiratória assentam em três pilares: controlo clínico, exercício e educação. Apresentam uma série de benefícios comprovados: melhoria na funcionalidade, aumento da capacidade para o exercício, melhoria global da qualidade de vida do doente, mais autonomia, diminuição dos sintomas e das incapacidades físicas e psicológicas causadas pela doença, e melhoria da aptidão física e mental do doente, promovendo a sua reintegração social.

Mas Portugal tem ainda tem uma resposta deficiente, neste campo, para dar aos doentes de DPOC. Apesar de existirem diversas evidências que comprovam os benefícios associados à integração de doentes respiratórios crónicos nestes programas, apenas 1% dos cerca de 800 mil doentes com DPOC, em Portugal, tem acesso a programas de reabilitação respiratória. Para colmatar esta lacuna, foi criado recentemente um centro de proximidade, em Portugal, especializado em reabilitação de doentes respiratórios, fora do meio hospitalar.

Neste dia em que assinalamos a vida sem tabaco, não podia deixar de mencionar uma plataforma nesta área das doenças respiratórias – RespirARmelhor.pt. Para quem respirar deixou de ser algo tão natural ou para quem tem dúvidas sobre as doenças respiratórias crónicas, convido a entrar e a explorar. Além de intuitivo, certamente irá encontrar informação genérica sobre as principais doenças respiratórias crónicas, onde se inclui a DPOC, prevenção e tratamento. Para aqueles que preferem a opinião de um especialista, é possível deixar uma questão que será respondida por um especialista da área ou preencher um questionário de auto ajuda e avaliação dos sintomas. 

O diagnóstico precoce continua a ser forma mais eficaz de controlar as doenças respiratórias e, especificamente, a DPOC. Deixe de fumar e tenha uma vida em pleno!

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