Cancro colorretal: “prevenção deverá ser o foco das atenções nas políticas de Saúde”
03/04/2017 17:52:44
Dr. Miguel Bispo, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)
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Cancro colorretal: “prevenção deverá ser o foco das atenções nas políticas de Saúde”

No âmbito do Mês da Luta Contra o Cancro Colorretal, que se assinalou em março, o Dr. Miguel Bispo alerta para a importância da prevenção e rastreio desta doença oncológica. Em entrevista à News Farma, o membro da direção da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) destaca que, “apesar da relevância do rastreio, que é recomendado por várias sociedades científicas, a adesão da população ainda é claramente insuficiente”.

News Farma (NF) | Porque é que este cancro tem uma incidência tão grande?

Dr. Miguel Bispo (MB) | A incidência de cancro colorretal tem aumentado significativamente nos últimos anos. Atualmente, o risco médio de uma pessoa desenvolver cancro colorretal ao longo da vida é de cerca de 5%, podendo ser maior na presença de determinados fatores de risco. Pensa-se que este aumento global na incidência esteja, por um lado, associado ao envelhecimento da população, uma vez que este tumor é mais frequente nas faixas etárias mais avançadas. Por outro lado, também deverá estar associado ao aumento da prevalência de determinados fatores de risco, maioritariamente relacionados com o estilo de vida, como a obesidade, o sedentarismo, o tabaco e as dietas hipercalóricas, pobres em fibras, com excesso de gordura e carnes vermelhas.

NF | Quais as razões para uma mortalidade tão elevada?

MB | O prognóstico do cancro colorretal depende essencialmente da fase (estadio) da doença no momento do diagnóstico. A mortalidade global deste cancro após cinco anos do diagnóstico aproxima-se dos 50%, uma vez que uma proporção significativa de casos são diagnosticados em fases avançadas da doença, geralmente após o aparecimento de sintomas. No entanto, quando o cancro do cólon é diagnosticado numa fase precoce, nomeadamente antes de ocorrer disseminação para gânglios linfáticos, a sobrevivência aos cinco anos aproxima-se dos 90%. Por outro lado, quando o diagnóstico é realizado numa fase tardia, na presença de disseminação para órgãos à distância, a taxa de sobrevivência aos cinco anos é inferior a 20%. Estes dados reforçam a importância do rastreio do cancro colorretal e do diagnóstico precoce, idealmente antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Apesar da relevância do rastreio, que é recomendado por várias sociedades científicas, a adesão da população ainda é claramente insuficiente. A SPG reforça a importância da sensibilização da população nesta questão, bem como da necessidade de facilitar o acesso a métodos de rastreio eficazes, nomeadamente à colonoscopia.

NF | Quais os sintomas mais comuns deste tipo de cancro?

MB | O cancro colorretal numa fase precoce, à semelhança das lesões precursoras (pólipos), raramente provoca sintomas. Os sintomas surgem geralmente já numa fase avançada da doença, podendo ocorrer uma alteração nos hábitos intestinais (como obstipação de início recente), uma alteração nas características das fezes, como na forma e textura, a presença de sangue nas fezes, a dor abdominal e a alteração do estado geral, com cansaço e emagrecimento.

NF | Quais são os fatores de risco associados ao cancro colorretal?

MB | Estão documentados vários fatores de risco para o cancro colorretal. O risco global pode estar significativamente aumentado na presença simultânea de vários fatores de risco. O risco de cancro colorretal aumenta com a idade e 90% destes tumores ocorrem em pessoas com mais de 50 anos. Assim, a faixa etária avançada constitui um factor de risco para esta doença oncológica. A história familiar de cancro colorretal, em particular num familiar de primeiro grau (pais, irmãos ou filhos) ou numa idade precoce (nomeadamente, antes dos 45 anos), aumenta significativamente o risco. A história prévia de pólipos ou cancro colorretal, já tratados no passado (mediante colonoscopia ou cirurgia), aumenta o risco de cancro colorretal, existindo recomendações de vigilância específicas para estes grupos de doentes. Como referido previamente, existem vários fatores relacionados com o estilo de vida. Existem também determinadas condições ou doenças, algumas transmitidas dentro da família (com base genética/hereditária), que aumentam significativamente o risco. Os exemplos mais relevantes destas doenças são as poliposes familiares (associadas ao aparecimento de elevados números de pólipos em idades jovens) e o chamado síndrome de Lynch. Estas doenças hereditárias são responsáveis por cerca de uma em cada 20 casos de cancro colorretal e deverão ser acompanhadas em instituições e consultas de risco oncológico especializadas. As doenças inflamatórias intestinais (em particular, a doença de Crohn e a colite ulcerosa) com envolvimento extenso do cólon e longa duração da doença (com mais de 10 anos de evolução) também aumentam o risco de cancro colorretal. O síndrome do intestino irritável, muito frequente na prática clínica, não aumenta o risco de cancro colorretal.

NF | O cancro do intestino tem origem, em cerca de 90% dos casos, numa lesão benigna (pólipo). Como são provocadas estas lesões?

MB | Um pólipo refere-se a uma protuberância na camada interna do intestino (designada mucosa, que apresenta uma superfície plana). Os pólipos são habitualmente assintomáticos e são muito frequentes na população, ocorrendo em 30 a 50% dos adultos com mais de 50 anos. São mais frequentes nos países industrializados, sugerindo que fatores dietéticos e ambientais poderão ter um papel no seu aparecimento. Alguns tipos de pólipos (designados adenomas) têm o potencial de se tornarem malignos, o que geralmente é um processo insidioso, lento, decorrendo ao longo de vários anos. Os pólipos poderão ser removidos eficazmente e com segurança durante a colonoscopia, o que demonstrou ser eficaz na prevenção do cancro colorretal.

NF | Ao contrário da maioria dos outros tumores, cujo diagnóstico é possível apenas numa fase maligna (ainda que precoce), no caso do intestino, se um pólipo for retirado, o problema fica definitivamente resolvido. Assim, o rastreio é fundamental. Que métodos de rastreio existem?

MB | Os métodos de rastreio no cancro do cólon devem, por um lado, permitir a identificação do tumor numa fase precoce (quando ainda é potencialmente curável), e, por outro lado, prevenir o seu desenvolvimento, ao permitirem a identificação e tratamento das lesões precursoras (os pólipos). Estas lesões deverão ser removidas antes de se tornarem malignas. O rastreio do cancro do cólon é recomendado a partir dos 50 anos, ou mais cedo, dependendo da existência de fatores de risco específicos. A eficácia dos diferentes métodos de rastreio é muito variável, em particular na detecção de pólipos (numa fase pré-maligna), sendo a colonoscopia o método de referência para a sua detecção e tratamento. Na colonoscopia é introduzido um aparelho flexível (com uma câmera óptica) para observar todo o cólon, geralmente sob sedação. Poderão ser realizadas biópsias e os pólipos encontrados poderão ser removidos durante o procedimento. Está demonstrado que a colonoscopia reduz significativamente o risco de desenvolver e morrer de cancro colorectal. Apesar de ser um procedimento mais invasivo que os restantes métodos de rastreio, é considerado seguro, com uma reduzida taxa de complicações.

Na “colonoscopia virtual” ou colonografia por TC (tomografia computorizada) são reconstruidas imagens de TAC de todo o cólon. É um exame não invasivo e apresenta uma acuidade adequada. No entanto, é utilizada radiação ionizante, requer uma preparação de limpeza intestinal (à semelhança da colonoscopia) e qualquer alteração encontrada irá requerer a realização de colonoscopia para um diagnóstico definitivo ou tratamento. Assim, este método não permite a remoção de qualquer pólipo diagnosticado e não se está aprovado como método de rastreio.

Os testes de fezes baseiam-se habitualmente na pesquisa de sangue oculto, requerendo a avaliação de três amostras de fezes em dias separados. Apresentam, como principal limitação, uma acuidade muito baixa no diagnóstico de pólipos do cólon. Para além disso, apenas 2 a 5% dos indivíduos com um teste positivo apresentam realmente cancro colorretal.

NF | O tratamento do cancro colorretal depende do seu desenvolvimento quando é diagnosticado. Assim, o que se prevê no tratamento deste cancro?

MB | O tratamento deverá ser sempre individualizado, tendo em consideração as características do doente e da própria doença. O primeiro passo após o diagnóstico de cancro colorectal consiste na avaliação da fase (estadio) da doença. O tratamento depende da sua localização e estadio, de acordo com os resultados da colonoscopia e exames de imagem (como a tomografia computorizada e a ressonância magnética).

O tratamento primário da doença localizada é a cirurgia, com ou sem quimioterapia associada (dependendo da análise da peça cirúrgica). Na presença de doença avançada (disseminada para outros órgãos, como o fígado), o tratamento consiste geralmente em quimioterapia. Deve-se salientar que têm sido alcançados importantes progressos no tratamento do cancro colorretal nas diferentes fases da doença. Numa fase muito precoce e em casos selecionados, a terapêutica endoscópica (realizada por colonoscopia) poderá ser curativa. O espectro de lesões pré-malignas e malignas passíveis de tratamento endoscópico, minimamente invasivo, tem sido ampliado, com claras vantagens para o doente e em termos económicos. Temos também assistido a importantes progressos nas técnicas cirúrgicas, cada vez menos invasivas, incluindo novas técnicas de cirurgia laparoscópica e robótica. Também o tratamento médico tem tido importantes avanços, salientando-se o reconhecimento de novos alvos moleculares para quimioterapia .

NF | Que atitudes devem ser adotadas no sentido da prevenção?

MB | A prevenção deverá ser o foco das atenções nas políticas de Saúde, sendo extraordinariamente eficaz na redução da morbilidade e mortalidade por cancro colorretal. Isto porque estão disponíveis métodos de rastreio muito eficazes, salientando-se o papel central da colonoscopia. Este é o único método de rastreio simultaneamente diagnóstico e terapêutico, tendo já demonstrado reduzir significativamente a mortalidade por cancro colorretal. Para além da importância do rastreio (que constitui a chamada prevenção secundária), salienta-se a relevância da prevenção primária, que se baseia na redução de fatores de risco associados ao estilo de vida, como a prevenção da obesidade e do tabagismo e a promoção do exercício físico e de uma dieta mediterrânica, rica em fibras e pobre em gorduras.

NF | Há mais algum assunto que queira destacar?

MB | Concluindo, o cancro colorretal constitui a principal causa de morte por cancro digestivo, sendo frequentemente assintomático até uma fase avançada da doença. O envelhecimento da população e o incremento de vários fatores de risco associados ao estilo de vida, em conjugação com a insuficiente adesão ao rastreio, justificam o aumento da sua incidência na última década. A SPG reforça a importância da prevenção, nos seus diferentes domínios, salientando que esta é uma das doenças oncológicas em que o rastreio demonstrou ser mais eficaz. Entre os diferentes métodos de rastreio disponíveis, deverá ser destacada a colonoscopia, pela sua potencialidade diagnóstica e terapêutica, sendo particularmente relevante para a remoção das lesões precursoras, potencialmente pré-malignas (pólipos).


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