Conferência ICHOM discute novo sistema de medição dos cuidados de Saúde
26/01/2017 15:32:21
Dr. João Marques Gomes, CEO da Nova Healthcare Initiative
Partilhar por emailShare on Google+Partilhar no facebookPartilhar no linkedinPartilhar no twitter
Conferência ICHOM discute novo sistema de medição dos cuidados de Saúde

A Conferência International Consortium for Health Outcomes Measurement (ICHOM) vai decorrer em Portugal nos dias 10 e 11 de fevereiro, na reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Representantes de todos os stakeholders da Saúde em Portugal vão discutir a importância da medição dos cuidados de Saúde com base no valor que estes produzem efetivamente para os doentes e a possibilidade de Portugal passar a adotar os padrões de medição do ICHOM. Em entrevista à News Farma, o Dr. João Marques Gomes, CEO da Nova Healthcare Initiative, investigador de Gestão e Economia da Saúde na Nova SBE e um dos promotores desta Conferência, explica a pertinência de organizar esta reunião em Portugal e quais os objetivos da mesma.

News Farma (NF) | O que está subjacente ao lema da conferência, “Medição dos cuidados de saúde baseada em valor”?

Dr. João Marques Gomes (JMG) | Quando pensam na sua atividade, as empresas pensam no cliente. No caso da Saúde, pensa-se muito pouco no cliente, que é o doente. Por isso, quando falamos em medir os resultados de Saúde, o que nos interessa é perceber qual é o valor que acrescentamos para o nosso cliente, ou seja, o doente. Por exemplo, um hospital pode fazer 100 cirurgias numa semana e outro hospital realizar apenas 20. Contudo, o hospital que realiza mais cirurgias pode ter uma taxa de reincidência de 75%, enquanto o outro hospital não tem taxa de reincidência. Nesta perspetiva, o sistema passa a ter o doente no centro da decisão e não qualquer outro tipo de medição. O que nos interessa é o bem-estar que efetivamente acrescentámos ao doente, no seguimento do ato médico.

NF | Qual a pertinência de organizar esta conferência em Portugal? Quais os objetivos?

JMG | Atualmente em Portugal, com base em que parâmetros se pode dizer que um médico é melhor que outro? Não há indicadores. Podemos dizer que determinado médico fez mais consultas ou mais cirurgias, mas relativamente ao que interessa, que é quão melhor ficou o doente, não é possível. Neste sentido, o objetivo desta conferência é juntar todos os stakeholders da Saúde em Portugal e discutir a importância deste sistema de medição, se as métricas que existem atualmente são úteis e que outras métricas poderão interessar ao país.

NF | Que linhas orientadoras estiveram na origem da elaboração do conteúdo programático, sendo que a reunião alia a perspetiva da academia, dos hospitais, da indústria farmacêutica, dos decisores políticos e dos próprios doentes, relativamente à medição dos cuidados de Saúde?

JMG | As linhas orientadoras foram, em primeiro lugar, fazer um diagnóstico, ou seja, avaliar como o país está nos diversos setores. A primeira pergunta que surgiu foi como é que é feita neste momento a contratualização dos serviços de Saúde e quais os indicadores que são utilizados, sendo que a primeira mesa redonda da conferência é dedicada ao sistema de financiamento. Posteriormente, é necessário perceber quais são os tipos de dados que nós precisaríamos para dar estimativas, nomeadamente sobre eficiência e ausência de desperdício, nas organizações de Saúde. Depois, temos de falar sobre o dia-a-dia dos hospitais e de que forma e com que dados são geridos. Outra questão: se este caminho pode ser o futuro, talvez tenhamos de inclui-lo na formação, nos cursos de Medicina. É preciso ouvir também os doentes e saber qual a sua perspetiva sobre este assunto. Os decisores políticos também têm de entrar na discussão, porque estas transformações só podem acontecer com o seu aval. Por fim, temos de fazer a medição do valor do medicamento, contando com a indústria farmacêutica. Assim, é um assunto que interessa a todos os stakeholders da Saúde e todos têm de estar presentes na discussão.

NF | Esta conferência vai contar com a participação de prestigiados palestrantes estrangeiros. O que representa esta presença de especialistas de outros países?

JMG | O objetivo da participação de palestrantes estrangeiros é saber o que acontece nos outros países que têm estas métricas implementadas, de forma a saber qual a importância e quais as consequências das mesmas. Vamos contar, por exemplo, com Christina Åkerman, a presidente do ICHO, Diane Bell, diretora do PA Consulting Group para o setor da Saúde, Martin Ingvar, do Karolinska Institutet, Barbro Fridén,
CEO do grupo Sheikh Khalifa Medical City Ajman, entre outros prestigiados nomes, cuja sua presença muito nos honra. Para além disso, vamos contar com os grandes representantes internacionais da indústria.

NF | Quais as suas expetativas em relação à Conferência ICHOM?

JMG | As minhas expectativas são muito realistas. Vejo toda a gente a associar-se, desde administradores hospitalares a médicos, enfermeiros, estudantes de Medicina e de Ciências Farmacêuticas, cientistas e consultores da área da gestão, ou técnicos do Ministério da Saúde. Todos se mostram muito entusiasmados com esta iniciativa.

NF | O ICHOM pretende o desenvolvimento de métricas de Saúde que sejam percetíveis para o cidadão comum, focadas nos resultados conseguidos no tratamento da doença e menos no processo. Quais as vantagens deste tipo de sistema?

JMG | Como este sistema de medição se baseia no valor que se acrescenta ao doente, as vantagens, em primeiro lugar, são para o próprio doente. Isto também é fundamental para os profissionais de saúde, pois passam a saber quais são as práticas clínicas que conduzem aos melhores resultados; para os financiadores do sistema de Saúde, como é o caso do Estado português, e também para as organizações de Saúde, pois podem começar a arquitetar modelos de financiamento que premeiam o bom desempenho, visto que passam a saber efetivamente o que é um bom desempenho. Isto muda tudo, porque passamos todos a fazer escolhas informadas e a saber quem presta cuidados de Saúde com base no valor.

NF | Que países já adotaram o sistema de medição do ICHOM?

JMG | Este sistema de medição do ICHOM já está implementado um pouco por todo o mundo. Temos grandes referências, como Inglaterra, Alemanha, Suécia, Dubai, Estados Unidos da América, Brasil e Austrália.

NF | Há mais algum assunto que gostaria de destacar?

JMG |O ICHOM e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) assinaram na semana passada uma Carta de Intenções para a colaboração entre as duas organizações, no sentido da recolha, análise e publicação de dados, para efeitos de comparações internacionais. Isto revela que estes padrões se estão a tornar na grande referência mundial dos resultados de Saúde.


Pesquisa