Cancro digestivo: A necessidade de um combate integrado
30/09/2016 14:52:36
Prof. Doutor José Cotter, presidente da SPG
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Cancro digestivo: A necessidade de um combate integrado

O conceito de cancro digestivo abrange um conjunto de tumores malignos da área da gastrenterologia que se distinguem pela negativa, uma vez que apresentam mau prognóstico e limitam extraordinariamente a esperança de vida, apesar de toda a evolução da medicina moderna. Concretamente estamos a falar do cancro do intestino (colon e recto), estômago, pâncreas, fígado e esófago.

Eles são responsáveis em Portugal por uma morte por hora e por cerca de 10% da mortalidade global no nosso país. Inclusivamente constata-se que as três das doenças que maior mortalidade provocam são exactamente o cancro do cólon, o cancro do estômago e o cancro do fígado (este associada à cirrose hepática).

Como atrás ficou dito, os tratamentos existentes têm importantes limitações, além de consequências fortemente penalizantes sobre a qualidade de vida de quem a eles está a ser submetido. Por isso, é inquestionável que a prevenção primária e secundária, onde se inclui o rastreio quando possível, são inquestionavelmente as melhores estratégias e que deverão ser implementadas. Porque estes cancros, ainda que possam ter um prognóstico melhor quando diagnosticados precocemente, apresentam números “negros” de sobrevivência aos cinco anos: colon e recto – 55%, estômago – 30%, esófago – 15%, fígado – 5% e pâncreas – 5%.

Existem medidas transversais a todos eles, que têm relação com a implementação de hábitos saudáveis nas populações, que se constituem como prevenção primária na medida em que diminuem o risco de aparecimento dessas doenças e que devem ser adoptadas pelos cidadãos. São o caso do combate ao tabagismo, ao consumo excessivo de álcool, à obesidade. Por outro lado a implementação da dieta mediterrânica, rica em vegetais, fruta, azeite, sementes, feijão, grão, cereais, nozes. A ingestão regular de sopa de legumes no início da refeição, excelente pelo facto de não ter valor calórico excessivo e possuir muitos dos alimentos que atrás se referiram.

Mas além dos aspetos alimentares também é imprescindível apelar à aquisição de hábitos que privilegiem o exercício físico regular e uma ingestão abundante de líquidos no quotidiano.

Depois há aspectos referentes a cada um destes tumores que devem ser tidos em consideração pelo aumento de risco que acarretam e que podem ter influência nas estratégias de vigilância e rastreio, nomeadamente razões genéticas e de risco hereditário. Mas também algumas mais específicas. Por exemplo:
- No cancro do fígado, que é responsável por cerca de mil mortes por ano em Portugal, a existência de infecções pelos vírus da hepatite B ou C, o consumo excessivo de álcool que pode levar à cirrose (factor fortemente favorecedor do cancro), a obesidade mórbida (que poderá aumentar o risco em 4,5 vezes no homem e 1,7 vezes na mulher) e a diabetes, que também se constitui como um factor de risco.
- No cancro do estômago, doença que em Portugal apresenta a mais elevada incidência dos países da Europa ocidental e que é responsável por 2300 mortes anuais, o sal, os alimentos fumados e em algumas circunstâncias a presença de uma bactéria denominada Helicobacter Pylori, podem reconhecidamente promover a cancerização.
- No cancro do pâncreas, que vítima cerca de 1500 pessoas anualmente em Portugal, são reconhecidos como factores de risco a história familiar (pais ou irmãos), o que eleva o risco em cerca de três vezes. Também a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas e a instalação de pancreatite cronica, a presença de diabetes e idade superior a 60 anos, poderão aumentar significativamente o risco.
- No cancro do esófago, que vitima no nosso país cerca de setecentos casos por ano, e em que tal como acontece no cancro do pâncreas o diagnóstico mais frequentemente se faz em fase avançada e consequentemente com pior prognóstico, destacam-se além dos factores “gerais” atrás citados, a ingestão regular de alimentos com temperaturas elevadas (nomeadamente líquidos) que podem causar injúrias térmicas que promovem alterações celulares que favorecem a cancerização.
- No cancro do intestino, que se prevê que possa afectar 502 000 europeus no ano de 2020, que mata no continente europeu uma pessoa em cada três minutos, e que em Portugal representa 14,5% de todos os cancros continuando a ser o cancro que mais mata com cerca de quatro mil mortes anuais, alem de beneficiar das medidas de prevenção primária atrás focadas, pode ser prevenido eficazmente através de um rastreio atempado preferencialmente por colonoscopia.

A prevenção secundária, altamente eficaz em alguns casos, deve ser implementada de forma organizada. No cancro do fígado através de ecografias periódicas em doentes de risco, no cancro do estômago através de endoscopias de vigilância em indivíduos de risco comprovado e no cancro do colon, muito eficazmente a partir dos 50 anos (ou mais cedo se houver factores pessoais ou familiares de risco), preferencialmente por colonoscopia. Porquê? Porque só este método permite detectar atempadamente as lesões pré-malignas (pólipos) e retirá-las imediatamente impedindo a cancerização. Cerca de 90-95% dos cancros do intestino têm origem em simples pólipos, que não dão qualquer sinal ou sintoma, acessíveis à colonoscopia. Outros métodos de rastreio (de que é um bom exemplo a pesquisa de sangue oculto nas fezes) apresentam taxas muito baixas de detecção de lesões em fase ainda benigna. A colonoscopia é indiscutivelmente o exame de eleição, pelo facto de permitir interromper a história natural que leva à malignização.

Evidentemente que melhor será efectuar qualquer método de rastreio do que nada fazer, mas o diagnóstico de um cancro precoce (ainda que tenha melhor prognóstico do que um cancro avançado) é bem assim francamente pior do que o diagnóstico e tratamento curativo de qualquer lesão pré-maligna.

Para a implementação destas medidas de combate torna-se fundamental a elaboração e execução de um plano integrado que incorpore aspectos informativos e educacionais, que vão às escolas sensibilizar os jovens, mas que implicam uma disponibilidade das instituições e uma vontade politica que até agora não se concretizou de forma real, apesar da realidade e desolação dos números apresentados. É pois necessário de uma forma integrada e séria, com uma coordenação eficaz e com a participação e responsabilização dos diversos agentes, promover uma dura luta contra o cancro digestivo, doença dos nossos dias, nefasta para a população e em muitos casos absolutamente evitável desde que cumpridas as recomendações consensualmente estabelecidas.

Artigo de opinião escrito por

Prof. Doutor José Cotter
Presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia


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