23/01/2013 17:23:00
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Medicamentos biológicos: o que são e quais os seus benefícios?

Medicamentos biológicosMedicamentos biológicos – sabe realmente o que são? Sabe o que os distingue dos fármacos convencionais? Em entrevista, especialistas falam sobre os seus benefícios, particularmente no tratamento de doenças do foro da Reumatologia e da Gastrenterologia, e fazem um ponto de situação relativamente ao acesso dos doentes a estas terapêuticas, que já estão disponíveis há mais de 10 anos em Portugal.


Os medicamentos biológicos são produzidos a partir de células vivas, com recurso a métodos de biotecnologia. É um processo complexo, em que estas células devem permanecer sob condições específicas durante semanas ou meses. Este processo produtivo difere substancialmente do utilizado na produção química dos fármacos convencionais. 

“Os medicamentos biológicos têm uma estrutura que os impede de serem ingeridos oralmente, porque seriam destruídos pelo sistema digestivo, necessitando, por isso, de administração endovenosa ou subcutânea”, explica o Prof. João Eurico Fonseca, reumatologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e diretor da Unidade de Investigação em Reumatologia do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

De acordo com o especialista, estes fármacos estão desenhados para inativar alguns mecanismos específicos que ocorrem em certas doenças, sendo “muito mais precisos e seletivos do que os medicamentos convencionais”.

João Eurico Fonseca adianta que são “muito eficazes” na artrite reumatoide, espondilite anquilosante, artrite psoriática, artrite idiopática juvenil e lúpus eritematoso sistémico. Adicionalmente, “são usados em muitas outras doenças imunomediadas”.

Na área da Gastrenterologia, os medicamentos biológicos são utilizados no tratamento das doenças inflamatórias intestinais (DII), como a colite ulcerosa (CU) e a doença de Crohn. Na opinião do Dr. Leopoldo Matos, diretor do Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (CHLO)/Hospital de Egas Moniz, em Lisboa, e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), são a “arma que faltava”. 

Segundo a Dr.ª Raquel Gonçalves, diretora do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de Braga, “nos doentes com doença moderada a severa, observa-se melhoria clínica (sinais e sintomas), dos parâmetros analíticos (marcadores inflamatórios) e cicatrização da mucosa (resolução das lesões do intestino), com resolução a curto prazo e manutenção da remissão a longo prazo num número significativo de casos, sendo possível a alteração do curso natural da doença”.

“O infliximab e o adalimumab têm eficácia reconhecida em grande parte dos doentes com DII moderada a severa”, refere a gastrenterologista, dizendo haver opções terapêuticas por via endovenosa e subcutânea.

Menciona, ainda, “relativamente à CU, que poderá haver vantagem no uso de infliximab, nas situações de colite grave/fulminante, pela rapidez e eficácia do fármaco por via endovenosa, o que evita, em larga escala, a necessidade de uma intervenção cirúrgica urgente de ressecção cólica”.

Leopoldo Matos adverte que a atividade e intensidade da DII têm repercussão sobre a globalidade do organismo. Neste sentido, é importante não deixar passar os timings certos para modificar tratamentos ou iniciar terapêuticas, pois, dessa forma, “podem criar-se situações de muito mais difícil recuperação, o que se torna penoso para o doente e dispendioso para o Sistema Nacional de Saúde”. 

O vice-presidente da SPG admite que possa haver alguns constrangimentos na prescrição dos medicamentos biológicos que se prendem, por um lado, com a necessidade de demonstrar os critérios de benefício para um doente específico e, por outro, com a disponibilidade do fármaco, devido às restrições financeiras das farmácias hospitalares. Apesar disso, na área em que trabalha, diz não existirem limitações desse tipo, havendo “um protocolo apertado para os doentes que poderão beneficiar deste tipo de tratamento”.

Portugal na cauda da Europa no acesso a biológicos para tratamento da artrite reumatoide

Foi publicado recentemente um estudo que comprovou que Portugal se situa na cauda da Europa no que respeita ao acesso aos medicamentos biológicos para tratamento da artrite reumatoide.

Nesta investigação, os autores compararam a prescrição de biológicos em 15 países da Europa (Portugal inclusivé) e concluíram que a percentagem de doentes com artrite reumatoide tratados com biológicos em Portugal é 12 pontos percentuais inferior à média, o que coloca o País na última posição face aos restantes 14 países da Europa analisados (Irlanda, Holanda, Noruega, Suécia, Bélgica, Suíça, Áustria, Dinamarca, Espanha, França, Finlândia, Reino Unido, Alemanha e Itália). 

Uma das razões para isto acontecer prende-se, segundo João Eurico Fonseca, com “a possibilidade de existirem doentes que estão fora dos cuidados de saúde das consultas de Reumatologia por não existir uma cobertura nacional adequada desta especialidade”. Por conseguinte, “estes doentes poderão não ter acesso ao padrão ideal de tratamento e alguns deles poderão ter indicação para serem tratados com biológicos”.

Uma vida normal… com um diagnóstico de Crohn

Decorria o ano 2000, Sandra Dias sentia febre e um desconforto intestinal. O médico pede uma colonoscopia e o diagnóstico é imediato: doença de Crohn. Sandra nunca tinha ouvido falar desta doença, mas foi-lhe explicado que a mesma não tem cura. Trata-se de uma doença crónica. Segue-se uma fase de tratamentos diferenciados: corticoides, imunossupressores, entre outros.

Em 2009, Sandra inicia medicação com biológicos e quase simultaneamente manifesta o desejo de ser mãe. Obstetra e gastrenterologista são unânimes e retiram a Sandra a medicação com imunossupressores, mantendo a medicação com biológico. Na consulta seguinte, chegou grávida de seis semanas. 

Correu tudo bem e em 2010 Sandra dá á luz uma menina saudável, retomando logo após o parto a medicação biológica, que mantém até aos dias de hoje. Confessa que a medicação biológica mudou a sua vida, trazendo-lhe mais qualidade. “Senti uma diferença drástica. 

Aliás, vivo como se não tivesse a doença e no dia-a-dia não tenho qualquer limitação. A única coisa que me faz lembrar que tenho doença de Crohn é o facto de ter que ir de 8 em 8 semanas ao hospital, para que o medicamento me seja administrado por via endovenosa”, conta. 

“Nunca mais tive uma crise, uma diarreia ou as dores abdominais que me obrigavam a ficar de cama. Iniciei o medicamento biológico após uma oclusão intestinal e hoje sinto claramente uma grande melhoria na minha qualidade de vida”, acrescenta. 

A decisão de engravidar levantou sérias dúvidas e medos, mas os médicos tranquilizaram-na. 

Avaliados os riscos de manter a terapêutica biológica e os de a suspender, a Sandra decidiu seguir o conselho dos especialistas e continuar o tratamento até ao terceiro trimestre de gestação. “Naturalmente, pensava nos riscos do bebé, mas, quando temos um filho, não traz garantia pós-venda e, portanto, ninguém pode garantir que tudo correrá bem, quer sejamos saudáveis ou não”, diz.

Hoje, Sandra tem uma filha saudável, com quase três anos, um diagnóstico de Crohn e uma vida igual a tantas outras… Perfeitamente normal.


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