Cancro e doença cardiovascular – Importância dos programas de reabilitação
11/02/2021 16:01:03
Dr.ª Sofia Viamonte, médica fisiatra, diretora do Centro de Reabilitação do Norte e coordenadora do programa ONCOMOVE® da AICSO
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Cancro e doença cardiovascular – Importância dos programas de reabilitação

Conheça a opinião da Dr.ª Sofia Viamonte, médica fisiatra, diretora do Centro de Reabilitação do Norte e coordenadora do programa ONCOMOVE® da Associação de Investigação em Cuidados de Suporte e Oncologia (AICSO), sobre a segurança e o benefício do exercício no doente oncológico no que se refere ao sistema cardiovascular.

A melhoria do prognóstico vital do doente oncológico criou a necessidade de a comunidade médica enfrentar os desafios que resultam da doença e do seu tratamento, designadamente as comorbilidades associadas. Destas, destacam-se as doenças cardiovasculares (CV), que constituem uma das principais causas de morte dos sobreviventes com cancro. 1,2

Quimio e radioterapia aumentam o risco de complicações CV, sobretudo se doença cardíaca prévia ou acumulação de Fatores de Risco Cardiovascular (FRCV),2 compreendendo-se que uma área de investigação atual vise estratégias que previnam ou diminuam as complicações CV no doente oncológico.

Neste contexto, e tendo por base o efeito protetor do exercício na função cardíaca, autonómica e vascular, assistimos ao crescimento da evidência científica com foco no efeito de programas de reabilitação com base no exercício na função CV dos doentes com cancro, com enfase sobretudo no cancro da mama, durante ou após tratamentos curativos.3,4

Recentemente, as sociedades de Cardiologia, como a American Heart Association, sugerem que sobreviventes de cancro com risco acrescido de doença CV devem ter acesso a programas específicos, desenhados em moldes semelhantes aos Programas de Reabilitação Cardíaca (PRC).5 Estes programas, assentes nos três pilares da prevenção CV – educação para a saúde, apoio psicoemocional e exercício físico supervisionado – implicam a realização de prova de esforço cardiopulmonar, intervenção por equipa multiprofissional (médicos, enfermeiros e técnicos) e multidisciplinar (reabilitação, cardiologia, oncologia, nutrição, psicologia e exercício). 5,6

A maioria dos trabalhos nesta área investigou o efeito do exercício na aptidão cardiorrespiratória, reconhecido preditor de mortalidade de causa CV, demonstrando que o exercício permite atenuar este declínio, de forma mais pronunciada em contexto de pré-habilitação (antes do início dos tratamentos) .6,7,8 Outros estudos analisaram outcomes CV de igual importância, nomeadamente função ventricular esquerda9 ou função vascular.10

Adicionalmente, os programas de reabilitação baseados no modelo dos PRC associam-se a um impacto adicional importante noutras dimensões: força muscular, função neuromotora, controlo de FRCV e qualidade de vida. 5

Defende-se que a prescrição de exercício nesta população de doentes deva ser individualizada, incluindo treino aeróbio, fortalecimento muscular e exercícios de flexibilidade, obedecendo a diretrizes internacionais.5,11 No entanto, as diferenças existentes entre populações de sobreviventes, designadamente tipos de cancro, aspetos demográficos e prognósticos, diferentes efeitos das terapêuticas utilizadas e heterogeneidade nas variáveis de exercício utilizadas, tornam difícil generalizar a segurança e o beneficio do exercício no doente oncológico, no que se refere ao sistema CV. A análise do efeito dose resposta do exercício é também condicionada pelo número limitado de estudos randomizados que comparem diretamente dois ou mais tipos de treino ou que associem os outcomes CV ao tipo de treino utlizado.12,13

Dada a evidência do risco de doença CV no doente oncológico e os benefícios do exercício na redução desse risco na população geral, surge efetivamente a necessidade de desenvolver e testar programas de reabilitação multimodais e a especificidade do exercício aplicado no sistema CV, abrangendo o espetro das diferentes etapas de estadiamento do doente oncológico.14,15 Em consequência, será necessário criar infraestruturas que providenciem serviços vocacionados para as exigências do doente oncológico com patologia CV, implicando um trabalho de profissionais especializados, capazes de fornecer uma intervenção multidimensional ao longo das várias fases do cancro. 5

Não obstante as evidências obtidas na última década, são vários os desafios quanto à sua aplicação na pessoa que vive com e para além do cancro, pelo que a investigação futura deverá incidir na compreensão dos potenciais benefícios de diferentes tipos de programas de reabilitação e na sua individualização.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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3. Scott JM, Nilsen TS, Gupta D, Jones LW. Exercise therapy and cardio- vascular toxicity in cancer. Circulation. 2018 ;137:1176–1191.
4. Scott JM, Zabor EC, Schwitzer E, Koelwyn GJ, Adams SC, Nilsen TS, Moskowitz CS, Matsoukas K, Iyengar NM, Dang CT, Jones LW. Efficacy of exercise therapy on cardiorespiratory fitness in patients with cancer: a systematic review and meta-analysis. J Clin Oncol. 2018; 36:2297–2305.

5. Gilchrist SC, Barac A, Ades PA, et al. Cardio-oncology rehabilitation to manage cardiovascular outcomes in cancer patients and survivors: A scientific statement from the American Heart Association. Circulation 2019: 139: e997–e1012. 

6. Chen JJ, Wu PT, Middlekauff HR, Nguyen KL. Aerobic exercise in anthracycline-induced cardiotoxicity: a systematic review of current evidence and future directions. Am J Physiol Heart Circ Physiol. 2017;312(2):H213–22.
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8.Peel AB, Barlow CE, Leonard D, DeFina LF, Jones LW, Lakoski SG. Cardiorespiratory fitness in survivors of cervical, endometrial, and ovarian cancers: The Cooper Center Longitudinal Study. Gynecol Oncol. 2015; 138:394–397.
9. Haykowsky MJ, Mackey JR, Thompson RB, Jones LW, Paterson DI. Adjuvant trastuzumab induces ventricular remodeling despite aerobic exercise training. Clin Cancer Res. 2009; 15:4963–4967.
10. Jones LW, Hornsby WE, Freedland SJ, Lane A, West MJ, Moul JW, Ferrandino MN, Allen JD, Kenjale AA, Thomas SM, Herndon JE 2nd, Koontz BF, Chan JM, Khouri MG, Douglas PS, Eves ND. Effects of non- linear aerobic training on erectile dysfunction and cardiovascular function following radical prostatectomy for clinically localized prostate cancer. Eur Urol. 2014; 65:852–855.
11. Campbell KL, Winters –Stone J, Wiskemann A, May AL, Schwartz KS, Courneya DS, Zucker CE, Matthews JA, Ligibel LH, Gerber GS, Morris AV, Patel TF, Hue FM, Schmitz KH. Exercise Guidelines for Cancer Survivors: Consensus Statement from International Multidisciplinary Roundtable. Med. Sci. Sports Exerc. 2019, Vol. 51, No. 11, pp. 2375–2390.
12. Courneya KS, McKenzie DC, Mackey JR, et al. Effects of exercise dose and type during breast cancer chemotherapy: multicenter randomized trial. J Natl Cancer Inst. 2013;105(23):1821–32.
13. Van Waart H, Stuiver MM, van Harten WH, Geleijn E, Kieffer JM, Buffart LM, et al. Effect of low-intensity physical activity and Moderate- to high-intensity physical exercise during adjuvant chemotherapy on physical fitness, fatigue, and chemotherapy completion rates: Results of the PACES randomized clinical trial. J Clin Oncol. 2015;33(17):1918–27. 

14. Bland KA, Zadravec K, Landry T, Weller S, Meyers L, Campbell KL. Impact of exercise on chemotherapy completion rate: a systematic review of the evidence and recommendations for future exercise oncology research. Crit Rev Oncol Hematol. 2019; 136:79–85. 

15. Courneya KS. Physical activity and cancer survivorship: a simple framework for a complex field. Exerc Sport Sci Rev. 2014; 42(3):102–9. 



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