Relação entre inflamação e aterosclerose: ESC publica documento de consenso
15/05/2018 18:11:08
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Relação entre inflamação e aterosclerose: ESC publica documento de consenso

Foi publicada hoje, 15 de maio, uma declaração de consenso sobre a inflamação na aterosclerose, que partiu da análise dos resultados do ensaio Canakinumab Antiinflammatory Thrombosis Outcome Study (CANTOS), divulgados durante o Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), em agosto do ano passado. No documento, elaborado pelo ESC Working Group on Atherosclerosis and Vascular Biology, estão descritas as ligações entre o colesterol elevado e a inflamação, sendo, contudo, salientada a necessidade de mais investigação antes do uso de fármacos anti-inflamatórios em combinação com estatinas na prevenção de eventos cardiovasculares em doentes com aterosclerose.

Atualmente, colesterol e inflamação são dois conceitos associados ao aumento na incidência de eventos cardiovasculares. Sabe-se também que a acumulação de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) nas artérias pode provocar inflamação. Por sua vez, os medicamentos hipolipemiantes reduzem o risco de eventos cardiovasculares ateroscleróticos e têm também efeitos anti-inflamatórios. O estudo CANTOS mostrou, por isso, que os medicamentos anti-inflamatórios reduzem a incidência de eventos cardiovasculares.

"Estamos a atingir o ponto alto de uma nova era na prevenção de doenças cardiovasculares (DCV). A base da proteção contra as DCV continuará a ser um estilo de vida saudável, incluindo não fumar, ser fisicamente ativo e comer alimentos saudáveis. Além disso, vários fármacos, como os hipolipemiantes e as terapêuticas antitrombóticas, provaram ser eficazes na prevenção de eventos cardiovasculares. Com mais evidência, os anti-inflamatórios podem tornar-se mais uma ferramenta no tratamento da aterosclerose”. Quem o afirma é o primeiro autor do documento de consenso, o Dr. José Tuñón, acrescentando que “os fármacos utilizados para reduzir o colesterol LDL (c-LDL) são eficazes, independentemente dos níveis de proteína C reativa (PCR). Portanto, precisamos de saber se o mesmo é válido para os medicamentos anti-inflamatórios.

Tal como o diretor de Cardiologia do Hospital Universitario Fundación Jiménez Díaz indicou, “as guidelines europeias para prevenção recomendam a redução do c-LDL para menos de 70 mg/dL para prevenir eventos cardiovasculares recorrentes”. “Precisamos de um ensaio clínico em doentes que atingiram o objetivo de colesterol LDL inferior a 70 mg/d para verificar se os anti-inflamatórios podem diminuir ainda mais o risco cardiovascular", reforça o especialista.

O estudo CANTOS foi o ponto de partida desta análise feita pelo grupo de trabalho da ESC, no qual foi utilizado um anticorpo monoclonal, canakinumab, para suprimir a inflamação através da neutralização da sinalização de interleucina (IL) -1β. Com base nos resultados desta investigação, os autores do documento de consenso referem que serão necessários mais estudos para testar se outras ferramentas que não os anticorpos – por exemplo, RNA de interferência (RNAi) – podem interferir na inflamação, assim como avaliar se ter diferentes moléculas inflamatórias como alvos pode reduzir, efetivamente, eventos cardiovasculares. Os especialistas consideram também que os ensaios clínicos poderão potenciar novos conhecimentos acerca do papel desempenhados pelos medicamentos anti-inflamatórios, extrapolando os resultados para além da amostra do ensaio CANTOS.

Para concluir, o Dr. José Tuñón refere que existem "fortes evidências que mostram que medicamentos hipolipemiantes reduzem o risco de doença cardiovascular", acrescentando que "os anti-inflamatórios não substituem os fármacos hipolipemiantes, ainda que pareçam ser passíveis de ser utilizados numa terapia complementar em doentes com aterosclerose”.