A Saúde na era 4.0 – debate junta especialistas nacionais e internacionais em Lisboa
04/10/2017 16:58:07
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A Saúde na era 4.0 – debate junta especialistas nacionais e internacionais em Lisboa

Esta manhã, o auditório da Fundação Champalimaud em Lisboa foi palco da primeira edição do Health Intelligent Talks & Trends (HINTT 2017), um evento pioneiro onde se discutiu o futuro da Saúde tendo como foco o cidadão e a tecnologia. Ao grupo de palestrantes nacionais juntaram-se o Prof. Doutor Bertalan Meskó e o Dr. Jonh Rayner.

O papel da tecnologia na gestão e prevenção da doença, o poder da inteligência artificial na prestação de cuidados de Saúde, o impacto da inovação tecnológica para os profissionais de Saúde e o doente enquanto interveniente na gestão da sua Saúde ou doença foram alguns dos temas em destaque nesta sessão que procurou apresentar a todos os presentes uma visão disruptiva dos sistemas de Saúde.

O encerramento do evento científico coube ao Dr. John Rayner, diretor regional da Healthcare Information and Management Systems Society (HIMSS), que apresentou um estudo sobre a Maturidade Digital nas Unidades de Saúde. As principais conclusões revelam que o nível de maturidade digital do Sistema Nacional de Saúde Português está acima da média europeia e que os hospitais que investiram em tecnologia estão mais seguros, do ponto de vista burocrático, que os restantes.

 

A Saúde e a tecnologia aos olhos de um fã de ficção científica

Assumiu-se um consumidor assíduo de filmes e livros de ficção científica. O Prof. Doutor Bertalan Meskó, doutorado em genómica e investigador na área da Saúde e tecnologia, começou por caraterizar os sistemas de Saúde atuais como impessoais e pouco geradores de empatia. O especialista chegou mesmo a comparar a realidade atual com a situação hipotética de um astronauta em Marte: “ele sente-se sozinho e isolado. Tem alguém que lhe diz à distância o que fazer e não sente muita empatia com este serviço. Isto é precisamente aquilo que acontece nos hospitais atuais. E é horrível”.

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De acordo com o médico o futuro da Medicina tem que passar necessariamente por colocar o doente no centro do processo. Mais do que isso: colocar o utente, quando ainda não está doente, no centro dos cuidados de Saúde. No fundo, revelou, trata-se de substituir “sick care” por “health care”. Para tal, é preciso que decisores políticos tragam para o mercado, “o mais rapidamente possível”, as principais inovações na área da Saúde: “é imperativo que as empresas perguntem aos pacientes o que querem, o que precisam”. “Quanto aos pacientes, cabe-lhes a responsabilidade de responderem a estas perguntas com a consciência de que são o mais importante deste processo”.

Assim, o Prof. Doutor Bertalan Meskó definiu as cinco características essenciais do sistema de Saúde do futuro: acessível (fisicamente e economicamente), personalizado, humanístico, preventivo e aumentado. Caso contrário “a vida dos doentes continua a depender da sorte”, exclamou.

 

Relação entre médicos e doentes: o que muda?

Para o debate “Saúde 4.0 – o impacto da tecnologia na Saúde” juntaram-se ao especialista húngaro, o Dr. Paulo Gonçalves, partner & managing director do The Boston Consulting Group, a Prof.ª Doutora Maria de Belém, ex-ministra da Saúde e o Prof. Doutor Nuno Sousa, neurorradiologista e presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho.

A primeira questão colocada aos especialistas pelo moderador da sessão, o jornalista Pedro Pinto, prendia-se com a transformação da relação entre os médicos e os doentes com a introdução da tecnologia na Medicina, e a relação entre os próprios profissionais de Saúde. “Enquanto prestadores de cuidados de Saúde, a tecnologia vai permitir-nos abandonar a medicina episódica, em que vemos os doentes pontualmente, quando nos procuram, e passamos a ter a oportunidade única de acompanhar variáveis contínuas de forma contínua”, começou por referir o Prof. Doutor Nuno Sousa. E acrescentou: “trata-se de uma construção a partir da qual a prestação de cuidados de Saúde, por parte de uma equipa multidisciplinar, se molda a uma nova realidade centrada na pessoa (que está ou não doente) e nos serviços personalizados”.

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À semelhança da ideia apresentada pelo Prof. Doutor Bertalan Meskó, o neurorradiologista defendeu a prática de uma Medicina preventiva, por uma equipa multidisciplinar. “Vamos ter ao nosso lado informáticos, matemáticos e engenheiros capazes de construir os algoritmos necessários no processo de decisão clínica”.

No mesmo sentido, o Dr. Paulo Gonçalves alertou que é preciso ir ainda mais longe. “As tecnologias da informação vão permitir que o trabalho em rede seja mais fácil e que aquilo que o doente faz quando não está em frente ao profissional de saúde seja também registado”, defendeu. A título de exemplo referiu a integração dos métodos complementares de diagnóstico realizados pelo utente e a informação sobre as compras que realizou na farmácia numa rede integrada de dados que permita uma visão holística da pessoa em causa.

 

A tecnologia ao serviço da igualdade

Uma das questões frequentemente associadas à tecnologia ao serviço dos cuidados de Saúde prende-se com a equidade e igualdade de acesso por parte dos cidadãos. Neste ponto as opiniões do painel de comentadores divergiram. Por um lado, a Prof.ª Doutora Maria de Belém afirmou prontamente que “provavelmente” a medicina tecnologicamente sofisticada não será capaz de garantir igualde que caracterizou até agora o sistema nacional de saúde português. “O agravamento das desigualdades é um dos principais riscos da tecnologia associada à Saúde, por isso, defendo que estas questões, que são complexas, devem ser tratadas com ambição, humildade e bom senso”, começou por explicar.

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Por outro lado, o Prof. Doutor Nuno Sousa não teve dúvidas em afirmar que “de uma forma geral, o uso das novas tecnologias traz mais vantagens que desvantagens”. Nesta questão concreta, o especialista considera que a tecnologia pode ser uma fonte para “mitigar” desigualdades sociais. “É a tecnologia que nos permite chegar a lugares remotos do globo e distribuir cuidados de Saúde”, exemplificou. “Neste caso a tecnologia ultrapassa dificuldades logísticas a favor da igualdade de oportunidades”.

A opinião é também partilhada pelo Dr. Paulo Gonçalves. “As desigualdades não nos são dadas pela tecnologia, mas sim pela forma como esta é aplicada dentro do sistema”, defendeu. “Se aplicadas a um sistema tendencionalmente livre, gratuito e igualitário, como é o caso português, vamos ter uma menor desigualdade”, conclui.

 

A questão da confidencialidade e proteção de dados

A questão foi lançada pela ex-ministra da Saúde e amplamente debatida pelos especialistas: a adequação do quadro regulatório às novas tecnologias. “Existe atualmente uma enorme discrepância entre as potencialidades das técnicas e o quadro regulatório”. Na opinião da Prof.ª Doutora Maria de Belém Roseira a atual lei “não acautela os riscos nem aproveita as oportunidades da tecnologia”. “Precisamos de um quadro regulatório seguro, inteligente e adaptável, que possa colocar no devido lugar as questões éticas, sociais e legais que decorrem destas inovações”, concluiu.

Associada à questão legal surgiu o problema da proteção dos dados. Os especialistas acordaram que não será possível garantir “totalmente” a confidencialidade dos dados disponibilizados pelos utentes. No entanto, conforme afirmou o Prof. Doutor Nuno Sousa, em causa está um problema que já existe. “As novas tecnologias garantem maior confidencialidade dos dados do que os sistemas atuais, mas ninguém discute o problema no presente porque não tem soluções”. “A solução passa por anonimizar os dados de forma a garantir a confidencialidade, e garantir a possibilidade do utente poder escolher se quer ou não partilhar determinada informação”, acrescentou.

No mesmo sentido, o Dr. Paulo Gonçalves considerou que a questão essencial está não no acesso aos dados mas na sua divulgação. De acordo com a sua opinião, o individuo deve estar tão preocupado com a segurança dos seus dados de Saúde, como com os dados fiscais ou bancários que também já estão digitalizados. Até porque conclui, “por vezes a preocupação é tanta que o debate fica por aí”.

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Fotografias: GCI