Uso de canábis medicinal: um tema “demasiado mediatizado” pela comunicação social?
04/12/2018 11:52:46
Prof. Doutor João Sá, Neurologia Centro Hospitalar Lisboa Norte
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Uso de canábis medicinal: um tema “demasiado mediatizado” pela comunicação social?

O uso de canábis para fins terapêuticos tem sido um dos temas mais debatidos nos últimos tempos, tendo sido aprovado no último mês de maio, pela comissão parlamentar de Saúde, a utilização de medicamentos, preparações e substâncias à base de canábis medicinal. De acordo com o Prof. Doutor João Sá, em entrevista à News Farma, este é um tema “demasiadamente mediatizado”, sendo que para o neurologista do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) é um “assunto muito simples e linear”. Esta tem vindo a ser discutida como uma hipótese no tratamento dos doentes com esclerose múltipla, reconhecida já como opção terapêutica em alguns países do mundo.

 

“Aquilo que conheço é que a utilização de canábis nos doentes com esclerose múltipla tem a ver com a tentativa de controlar sintomaticamente a espasticidade, que não é exclusiva destes doentes nem está necessariamente presente em todos os casos”, refere o especialista.

Tal como o Prof. Doutor João Sá explica, esta “nova arma” no controlo da doença “não interfere no curso evolutivo da doença”. Atua, sim, ao nível da espasticidade, principalmente quando associado a esse sintoma existir dor e espasmos.

Em alguns países é já comercializado o fármaco, sendo um produto de síntese vendido na farmácia, desenvolvido a partir da planta do canábis.

“Aquilo que está efetivamente em cima da mesa é a utilização de um certo tipo de fármacos com canabidiol na sua composição e que podem ter alguma utilidade no doente com esclerose múltipla com espasticidade”, explica o neurologista.

A contrapartida deste medicamento é a ainda fraca relação preço/qualidade, quando comparando com outros anti-espásticos, o que faz com que “tenha de provar que os efeitos são imperdíveis e insubstituíveis”.

 

Questões importantes que se colocam

Uma das questões que, na opinião do especialista do CHLN, são essenciais aquando da tomada de decisão acerca da utilização do canábis medicinal diz respeito aos efeitos positivos trazidos pelo medicamento. Ainda que existam dados que mostram eficácia do fármaco, o Prof. Doutor João Sá afirma: “poucos são os profissionais com experiência neste campo que consideram este medicamento uma mais-valia extraordinária à sua prática clínica”.

“A minha pergunta é sempre: que utilidade tem este medicamento? Que aporte real traz ao doente? E quais são os inconvenientes?”.

Relativamente aos efeitos indesejados do fármaco, estes existem em todos os casos e com todos os medicamentos, sendo que “um medicamento é um equilíbrio entre o benefício e o dolo, não havendo, por isso, medicamentos isentos de contra-indicações”, garante o neurologista, acrescentando que “é dentro de uma relação benefício/risco que a minha opção em relação às opções terapêuticas se realiza”.

Outro ponto importante a destacar trata a questão económico-social, algo a que o médico “não pode ser totalmente alheio”.

“O que é importante que as pessoas percebam é que vai existir um novo produto para tratar a espasticidade e que este mesmo produto é, efetivamente, um canabidiol puro. Não é indicado para todos os doentes com esclerose múltipla, mas é, sim, direcionado a doentes com esclerose múltipla com formas particulares de espasticidade. É um medicamento que vai poder ser comprado na farmácia a um custo elevado e que, provavelmente, não vai ser comparticipado a 100%”.

No final de contas, afirma o médico de Neurologia, a decisão fica do lado da própria pessoa doente, que “tem de avaliar se o custo compensa os benefícios que o fármaco traz”. Contudo, afirma, o medicamento pode ser eficaz, “sobretudo nos casos em que há muita dor associada. Infelizmente, não muda a problemática da espasticidade”.

 

“É errado pensar que agora a esclerose múltipla vai ser tratada com charros”

Para o Prof. Doutor João Sá, a utilização de canábis medicinal não representa, à partida, quaisquer riscos para a Saúde Pública, causados pela sua liberalização. Isto porque, garante, é incorreto pensar que a partir de agora os doentes com esclerose múltipla vão ser autorizados por lei a consumir drogas, afirmando mesmo que “é errado pensar que agora a esclerose múltipla vai ser tratada com charros”.

“Poderá ter o canábis uma utilidade na própria doença, na evolução da doença, nos mecanismos imunológicos associados à doença? A minha resposta é que ainda não existem estudos científicos suficientes que me permitam ter alguma opinião crítica fundamentada relativamente a este assuno”, conclui o neurologista.