VIH/SIDA em Portugal: qual o panorama?
03/12/2018 15:47:12
Dr.ª Ana Aboim Horta, assistente hospitalar graduada em doenças infeciosas no Centro Hospitalar do Porto e professora auxiliar convidada na Escola de Medicina da UMinho, Braga
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VIH/SIDA em Portugal: qual o panorama?

O objetivo 90-90-90 da ONUSIDA (90% suprimidos dos 90% que se encontram sob tratamento dos 90% do total de doentes diagnosticados) para 2020, implica, no fundo, que cerca de 73% de todos os infetados por VIH estejam sob terapêutica específica, suprimidos e não infeciosos em 2020. Os dados portugueses mostram estarmos muito próximos dessa meta, o que naturalmente é muito bom. No entanto, será necessário que essas percentagens correspondam a números absolutos estáveis de doentes e não a valores rapidamente em crescendo.

Uma percentagem elevada de doentes suprimidos e assim não infeciosos, deveria conduzir a uma cada vez menor taxa de incidência de casos. No entanto, Portugal apresenta ainda uma taxa de diagnóstico de 12,2% casos por 100 mil habitantes, um valor que é mais do dobro da média da União Europeia em 2016 (5,9 por 100 mil habitantes).

Devemos estar cientes também de que os doentes que se encontram em terapêutica e, em seguimento regular, são aqueles que são os mais fáceis de alcançar, existindo uma franja de doentes de difícil acesso e que mantêm a cadeia de transmissão.

Em 2017, a maioria dos diagnósticos (99,6%) ocorreu em indivíduos com 15 ou mais anos de idade e observou-se predomínio de casos do sexo masculino (H/M=2,6). A forma de transmissão predominante foi o contacto sexual e os casos de transmissão heterossexual e em HSH representaram, respetivamente, 59,9% e 38,3% dos novos casos com informação disponível. Os últimos constituíram 51,0% do total de novos diagnósticos em homens e 53,1% dos casos com informação relativa ao modo de transmissão. Os casos em utilizadores de drogas injetadas constituíram 1,8% do total de novos casos com informação, o que constitui um mínimo histórico.

As contagens de células TCD4+, disponíveis em 84,7% dos novos casos, revelaram que 51,5% apresentaram-se tardiamente (nº células TCD4+ <350 células/mm3) e 31.1% com doença avançada (nº células TCD4+ <200 células/mm3).

Sabemos como nesta infeção é fulcral o início precoce da terapêutica - quanto mais cedo esta for iniciada e for atingida a indetectabilidade do vírus, maior a probabilidade de uma recuperação completa do nosso sistema imune e menor a probabilidade de ocorrerem eventos/mortalidade relacionada com o VIH e com a ativação imune/inflamação a ele associada (responsável pelo risco acrescido de doença cardiovascular, óssea, renal, hepática, declínio neurocognitivo, imunosenescência, etc). Ou seja, maior a probabilidade de um indivíduo infetado por este vírus ter uma sobrevida e qualidade de vida idêntica à de um não-infetado. Um início precoce da terapêutica e a manutenção de uma carga viral suprimida são também essenciais para uma menor transmissão do vírus na sociedade.

É, assim, essencial que se consiga atingir esta população que continua a correr riscos, a ser infetada e que, parecendo desconhecer o seu status infecioso, recorre tardiamente aos cuidados médicos, assim contribuindo não só para uma maior morbilidade e mortalidade associadas a esta doença, como também para a manutenção da transmissão do vírus a terceiros. Temos que ser capazes de alcançar esta população, informando para prevenir a infeção, diagnosticando precocemente e promovendo o acesso rápido à terapêutica e a sua manutenção em consulta/terapêutica regular.

A criação de plataformas de informação, como é o caso do portal VIHDA da MSD, dirigidas quer à população em geral, quer aos doentes, quer aos profissionais de saúde poderá contribuir para a prevenção da infeção, seu diagnóstico precoce e para uma vida mais longa e de maior qualidade com o VIH. O projeto Fast Track Cities a que vários municípios portugueses já aderiram, promove a articulação entre as autoridades de saúde, os serviços médicos e as várias organizações governamentais e não-governamentais locais que prestam serviços de retaguarda/proximidade para uma adequada articulação (maximização/otimização da efetividade das ferramentas existentes). Este projeto pretende, deste modo, criar toda uma rede de suporte às populações mais em risco de virem a estar ou estarem já infetados por VIH. Tratar todos e conseguir a indetectabilidade virológica em todos é um objetivo ambicioso para a obtenção do qual será necessário superar as barreiras legais, sociais, ambientais e estruturais que limitam o total acesso aos serviços relacionados com a infeção por VIH. A implementação de estratégias multidisciplinares integradas e coordenadas será essencial para que tal objetivo possa ser alcançado.

A existência e divulgação de uma consulta de profilaxia pré-exposição ou PrEP, o acesso a ela facilitado, e a realização dessa PrEP de forma informada, controlada e adequada, contribuirá também para uma menor transmissão deste vírus, um diagnóstico precoce e a um melhor controlo da doença e seus números.