Arranca amanhã o 27.º Congresso da EAHM que pretende "redefinir o papel dos hospitais dentro do Sistema de Saúde"
25/09/2018 14:50:24
Dr. Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)
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Arranca amanhã o 27.º Congresso da EAHM que pretende "redefinir o papel dos hospitais dentro do Sistema de Saúde"

O 27.º Congresso da European Association of Hospital Managers (EAHM) começa amanhã, estendendo-se até ao dia 28 de setembro, sexta-feira. Cascais acolhe a edição deste ano, cuja organização está a cargo da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Como explica o presidente da APAH, Dr. Alexandre Lourenço, em entrevista à News Farma, esta é a oportunidade de discutir os desafios que a indústria da Saúde enfrenta atualmente, através do debate entre reconhecidos nomes nacionais e internacionais da Gestão Hospitalar.

 

News Farma (NF) | Entre os dias 26 e 28 de setembro, Cascais recebe o 27th EAHM Congress. O que representa para Portugal acolher um evento desta dimensão?

Dr. Alexandre Lourenço (AL) | Com este Congresso, Portugal tem a oportunidade de liderar a discussão dos desafios atuais da gestão em Saúde a nível europeu. Neste momento contamos com mais de 750 inscrições provenientes de 35 países e mais de 125 oradores.

Esta é a terceira vez que a APAH organiza este Congresso, o que é para nós uma honra. A primeira vez foi em 1984, numa altura em que a APAH enfrentava um momento de consolidação importante. A organização desta 27.ª edição reveste-se também de uma enorme importância, dados os desafios que os hospitais enfrentam atualmente. Em Portugal, apesar de existirem muitos problemas relacionados com a forte restrição financeira e falta de autonomia gestionária, dispomos de um enorme conhecimento de gestão em Saúde em várias áreas, como na integração de cuidados e na eficiência interna das organizações, o que leva a que a APAH e os gestores portugueses a ter um elevado reconhecimento a nível europeu, permitindo a organização deste Congresso no país.

 

NF | “Redefining the Role of Hospitals - Innovating in Population Health” é o mote subjacente a esta edição do Congresso. Quais as razões para a escolha deste tema?

AL | Este é um tema que não é comum à maioria dos gestores de serviços de saúde a nível europeu, uma vez que estão mais concentrados em aumentar a eficiência interna das organizações e a qualidade dos cuidados prestados aos doentes. Contudo, cada vez estamos mais cientes da distância entre os hospitais e a comunidade onde estão inseridos e, de uma forma geral, daa ter passividade em relação às necessidades efetivas das populações. Na prática, em muitos casos, os hospitais são entidades passivas a aguardar a chegada de doentes agudos.

No entanto, do ponto de vista demográfico e epidemiológico, a população tem sofrido alterações dramáticas nos últimos anos, pelo que os hospitais têm de se adaptar a uma nova realidade: uma população mais envelhecida, com multipatologia e que necessita de cuidados de continuidade. Assim, progressivamente o hospital deixa de ser uma entidade em que os doentes obtêm a cura, admissão e alta, passando a desenvolver-se como um prestador de cuidados diferenciados de continuidade durante o ciclo de vida. O hospital tem hoje um papel muito importante na prestação de cuidados de saúde ao longo de toda a vida do doente, desde o período pré-concecional ao luto. Neste sentido, o hospital necessita mudar a forma como está estruturado, necessitando desenvolver parcerias com outras entidades de prestação de cuidados de saúde, como os cuidados de saúde primários, e entidades do setor social, procurando centrar a sua ação nas necessidades dos doentes – se necessário na sua casa, promovendo uma melhor experiência e utilização dos serviços. Trata-se de redefinir o papel dos hospitais numa lógica de base populacional, tendo em conta a saúde de uma população e não apenas saúde individual de cada indivíduo.

 

NF | O que foi considerado na elaboração do programa científico do Congresso?

AL | Pela primeira vez, este Congresso consegue assegurar que as mais reputadas organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Comissão Europeia, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o Banco Europeu de Investimento, a Federação Internacional dos Hospitais, entre outras, sejam parceiras do evento e contribuam para o desenvolvimento do programa científico.

O programa integra cinco grandes componentes: os cuidados centrados nas pessoas; a integração de cuidados; modelos inovadores de prestação de cuidados; a sustentabilidade, não apenas numa lógica de sustentabilidade financeira, mas numa perspetiva de sustentabilidade geral do sistema; e a importância das competências de gestão.

Serão ainda realizados cursos pré-Congresso, no dia 26 de setembro, que contam com o apoio de instituições académicas como a Harvard Medical School, a IESE Business School, o Karolinska Institutet, a NOVA School of Business & Economics, a University of Twente, que visam melhorar as competências e os conhecimentos dos gestores de serviços de saúde.

 

NF | Que expetativas e objetivos estão traçados para este Congresso?

AL | Este Congresso, dadas as parcerias internacionais que tem estabelecidas, tem como grande objetivo definir uma agenda europeia para a redefinição do papel dos hospitais dentro do sistema de Saúde. Posteriormente ao Congresso, pretendemos continuar a trabalhar com estas organizações internacionais na promoção desta agenda.

 

NF | Quais os principais desafios que se enfrentam atualmente no que respeita à administração hospitalar?

AL | Os desafios relacionam-se sobretudo com a situação financeira, mas as dificuldades não se esgotam nesta problemática. A questão da autonomia e da capacidade de os hospitais tomarem decisões é também um grande desafio atual da administração hospitalar, uma vez que a maioria das entidades estão hoje centralizadas no Ministério da Saúde ou no Ministério das Finanças. Isto impede que os gestores tomem medidas concretas e atempadas para a melhoria dos cuidados prestados nos nossos hospitais.

A profissionalização da gestão hospitalar é ainda outro dos desafios. A APAH tem trabalhado a nível nacional e internacional pela profissionalização dos gestores, para que tenham uma autonomia profissional com competências próprias. Há ainda um longo caminho a percorrer para assegurar que os gestores que exercem funções dentro dos hospitais portugueses têm as competências necessárias ao exercício da profissão, são avaliados pelos seus resultados e recebem formação contínua ao longo da vida para melhorarem o seu desempenho. Contudo, acredito que estamos no bom caminho.

 

Saiba mais sobre o 27.º Congresso da EAHM aqui.