Reabilitar em hipertensão pulmonar
19/04/2018 14:48:04
Enf.ª Tânia Cardoso, enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação, Hospital Pulido Valente
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Reabilitar em hipertensão pulmonar

A hipertensão pulmonar (HP) é uma doença rara, associada a múltiplas patologias. É definida por um aumento da pressão média na artéria pulmonar, que se define por uma pressão arterial pulmonar média (PAPm) igual ou superior a 25 mmHg em repouso, determinada por cateterismo cardíaco direito (CCD).

Os sinais e sintomas da HP são inespecíficos, tais como: dispneia, fadiga, dor ou desconforto torácico, edemas dos membros inferiores, tosse persistente, palpitações, cianose e tonturas. É frequente a HP ser diagnosticada tardiamente após outras patologias terem sido investigadas e excluídas. Por isso, o diagnóstico exige que o profissional de saúde esteja desperto para esta patologia e que esteja atento às manifestações clínicas, daí a importância da divulgação e sensibilização da HP.

Existem quatro centros para o tratamento da HP: Lisboa (Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) - Hospital Pulido Valente (HPV)), Almada (Hospital Garcia de Orta), Porto (Hospital de Santo António) e Coimbra (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra).

A existência destes centros de tratamento é fundamental para a realização de exames complementares de diagnóstico, que permitem uma avaliação etiológica, uma definição de risco do utente e a prescrição de terapêuticas específicas, com o objetivo de uniformizar os cuidados prestados aos utentes com HP. Sendo a HP uma doença rara e incapacitante, exige, por parte do enfermeiro, o planeamento e realização de atividades de ensino dirigidas às necessidades do utente, por forma a que este consiga gerir o melhor possível a sua doença.

O Centro de Tratamento da HP do CHLN - HPV teve início em maio de 2015, decorrente da fusão de duas consultas de hipertensão pulmonar: uma que decorria no Hospital de Santa Maria, ligada à Unidade de Tratamento Intensivo para Coronários (UTIC), e outra ligada à consulta de Pneumologia realizada no HPV.

Fazem parte da equipa multidisciplinar do centro de tratamento médicos cardiologistas, pneumologistas, reumatologista, fisiatras, psiquiatra e outros profissionais de saúde não médicos, nomeadamente enfermeiras, que inclui enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação (EEER), farmacêutica, nutricionista, assistente social, fisioterapeutas, técnicos que realizam exames complementares de diagnóstico e administrativos.

A HP deve ser caracterizada quanto à etiologia ou doença associada, através da Classificação Clínica da Hipertensão Pulmonar (adaptado de Galiè et al 2016) (Tabela1).

Tabela 1 – Classificação Clínica da Hipertensão Pulmonar, adaptado de Galiè et al 2016

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Após o diagnóstico, a HP deve também ser classificada de acordo com um sistema de classe funcional inicialmente desenvolvido pela New York Heart Association (NYHA) para a insuficiência cardíaca crónica e depois adaptado para a HP pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esta classe funcional avalia a gravidade da doença e reflete o impacto na vida do utente, em termos de atividade física e sintomas. Existem quatro classes, sendo a classe I a menos grave e a classe IV a mais avançada (Tabela 2).

Tabela 2 - Classificação NYHA/OMS do Estado Funcional dos utentes com HP, adaptado Galiè et al 2016

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O centro de tratamento do CHLN- HPV elaborou o projeto de reabilitação de HP: “Sorrir, respirar e educar”, destinado a utentes com HP, o qual foi implementado em junho de 2016, com a finalidade de otimizar a capacidade respiratória e física dos utentes, proporcionando-lhes uma maior autonomia, diminuição da sintomatologia e consequentemente melhoria da sua qualidade de vida.

Durante muitos anos, devido às implicações que a HP tem na deterioração da função ventricular direita, que se reflete na diminuição do débito cardíaco ao realizar esforço físico, o treino do exercício físico não foi recomendado para estes utentes. Mais recentemente, surgiram estudos que demonstraram a segurança e a eficácia do treino do exercício físico em utentes com HP (Leggio 2018).

Estudos demonstram que programas de reabilitação são efetivos na melhoria da capacidade física e cardiorrespiratória e no aumento da qualidade de vida dos utentes, devendo, por isso, ser considerados como terapia coadjuvante do tratamento convencional da HP (Mereles 2006, Arena 2010, Fox 2011, Pandey 2015, Babu 2016, Leggio 2018). Existe cada vez mais evidência de que estes utentes perdem a massa muscular com a progressão da doença, o que pode ser evitado com programas de reabilitação apropriados.

O projeto de reabilitação de HP inclui a realização de sessões de Reeducação Funcional Respiratória (RFR), no Centro de Ambulatório II, realizado pelo EEER e de reabilitação motora realizada no serviço de Medicina Física e Reabilitação, aos utentes pertencentes à classe funcional I e II. As sessões de reabilitação têm uma duração de 12 semanas, com a frequência de duas vezes por semana (60 minutos RFR e 60 minutos reabilitação motora).

A HP condiciona a capacidade das pessoas para a atividade de autocuidado, sendo este um dos focos da intervenção do EEER. A intervenção do EEER junto dos utentes com HP é fundamental para o capacitar a realizar RFR de forma autónoma, quer nas sessões semanais no hospital, quer no domicílio. Nestas sessões, são transmitidas aos utentes estratégias para a realização das suas atividades de vida diária com o consumo mínimo de energia, melhorando a sua qualidade de vida e consequentemente reduzindo as complicações associadas e o número de reinternamentos.

O EEER capacita a pessoa com doença crónica a adaptar-se à situação de incapacidade, maximizando o seu potencial funcional e independência nas atividades de vida, tendo em conta os recursos disponíveis, os seus objetivos e capacidades.

 

Referências bibliográficas

ARENA, Ross [et al.] (2010) – Cardiopulmonary exercise testing in patients with pulmonary arterial hypertension: an evidence-based review. The Journal of heart na Lung Transplantation [EmLinha]. Vol. XX, nº X, p. 1-15. [Consult 1Março 2018]. Disponível em www:URL:http://www.cardiology.org/recentpapers/HFcpdf/Arena%20JHLT%20PAH%20and%20CPX.pdf

BABU, AS, Padmakumar R, Maiya AG, Mohapatra AK, Kamath RL (2016) - Effects of Exercise Training on Exercise Capacity in Pulmonary Arterial Hypertension: A Systematic Review of Clinical Trials. Heart Lung Circ.; 25: 333-341

FOX, BenjaminD. [et al.] (2011) – Ambulatory Rehabilitation Improves Exercise Capacity in Patients With Pulmonary Hypertension. Journal of CardiacFailure [Em Linha]. Vol. 17, nº 3, p. 196-200. [Consult 1 Março 2018].

Disponível em www:URL:http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21362526

GALIÈ, N. [et al.] (2016) - 2015 ESC/ERS Guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. European Heart Journal, Volume 37, Issue 1, 1 January 2016, p. 67–119, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehv317

MERELES, Derliz [et al.] (2006) –Exercise and respiratory Training Improve Exercise Capacity and Quality of Life in Patients With Severe Chronic Pulmonary Hypertension. AmericanHeartAssociation[Em Linha]. Vol. 114, nº 14, p. 1482-1489. [Consult 1 Março 2018]. Disponível em www :URL:http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16982941

PANDEY, Ambarish, MD [et al.] (2015) - Efficacy and Safety of Exercise Training in Chronic Pulmonary Hypertension: Systematic Review and Meta-Analysis. Circ Heart Fail. Nov;8(6):1032-1043. doi: 10.1161/CIRCHEARTFAILURE.115.002130. Epub 2015 Jul 16.

 

Enf.ª Tânia Cardoso

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação

Centro de Tratamento de Hipertensão Pulmonar

Centro Ambulatório II

Hospital Pulido Valente – Centro Hospitalar Lisboa Norte