Como tornar a colonoscopia infalível
12/02/2018 17:06:32
Prof.ª Doutora Carla Rolanda, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva
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Como tornar a colonoscopia infalível

A colonoscopia é considerada o método gold standard no rastreio e vigilância do cancro colorretal (CCR). Segundo alguns estudos, reduz em 60-70% a sua mortalidade, ao detetar e ressecar as lesões pré-malignas e malignas precoces. Ainda assim, a colonoscopia é um méto­do imperfeito, existe o CCR de intervalo.

Sabe-se que cerca de 25% dos pólipos não são detetados durante a colonos­copia de rastreio. Isto parece ser um problema multifatorial (paciente, endos­copista, procedimento), mas 86% dos CCR pós-colonoscopia explicam-se por fatores dependentes do procedimento, logo possíveis de prevenir.

Neste sentido, tem sido grande o esforço para melhorar e maximizar o potencial da colonoscopia. As sociedades científi­cas de endoscopia definiram critérios de qualidade, salienta-se a taxa de deteção de adenomas (ADR) pela comprovada relação inversa com o risco de CCR inter­valo; e a comunidade médica associada à indústria têm investido na busca de inovações metodológicas.

Têm-se estudado:

A - Variações metodológicas da colonoscopia, sobretudo para avaliação do cólon direito: 1. Infusão de água na introdução, que demonstrou melhoria significativa da ADR em comparação com a insuflação, particularmente com a técnica water exchange(instilação de água e aspiração de resíduos durante a progressão); 2. Reavaliação do cólon direito na mesma colonoscopia, visão frontal e/ou retroflexão, qualquer revisão da mucosa (sobretudo se havia pólipos no cólon direito, idade avançada e dúvi­das na observação) traz incrementos na ADR.

B - Imagem endoscópica avançada 1. Imagem HD, deve ser a tendência, já que os estudos apontam melhoria nas taxas de deteção de pólipos e adenomas; 2. Cromoendoscopia eletrónica, salvo situações específicas de vigilância, esta metodologia (tanto em versão normal com HD) traz uma melhoria apenas mar­ginal aos indicadores de deteção de póli­pos na população de risco padrão.

C - Novos endoscópios: 1. FUSE® (grande angular) parece ter potencial, mas são necessários mais estudos; 2. Olympus® (angular extra-larga) até ao momento só apresentou vantagem em áreas mais anguladas e de estreitamento luminal, continua em desenvolvimento; 3. Aer-O-Scope®, maus resultados glo­bais, equipamento abandonado.

D - Acessórios adaptados ao endos­cópio: 1. Third-eye retroscope e panoramic®, o primeiro foi abandonado pelas dificuldades no manuseamento do canal de trabalho, para o segundo há até ao momento apenas um estudo com resultados promissores, mas está ainda em desenvolvimento; 2. G-EYE® colonoscopia assistida por balão, tem apresentado bons resultados globais e parece promissor; 3. Cap, Endocuff® e EndoRings®, apesar de alguma hete­rogeneidade nos estudos, estes aces­sórios simples aumentam globalmente a ADR sem complicações significativas associadas, não há análise comparativa entre eles.

A profusão de estudos e informação na literatura, sustenta a ausência de uma resposta ótima. Até ao momento, a maioria das inovações introduzidas apresenta um incremento diagnóstico apenas ligeiro, por outro lado consomem mais tempo, têm constrangimentos financeiros, ou mesmo implementação prática inviável. Enquanto não existirem recomendações podem usar-se algumas das novas metodologias de acordo com a disponibilidade e experiência. Simul­taneamente, o cumprimento dos princí­pios gerais da colonoscopia de qualidade (preparação intestinal, inspeção meticu­losa, tempo de retirada...) devem reger a nossa prática clínica.

Artigo originalmente publicado no Jornal do Congresso da Reunião Monotemática da SPG 2018