Sou cirurgião, sou ousado e atrevido!
10/11/2017 15:30:32
Prof. Doutor Miguel Guerra, editor da revista da SPCCTV
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Sou cirurgião, sou ousado e atrevido!

Cirurgião significa, ou significava, “aquele que trabalha com as mãos”! Não era necessariamente um médico, o detentor do saber teórico, mas sim um trabalhador manual, um operador, um barbeiro, profissional de posição inferior, que para além de fazer a barba e cortar o cabelo, também suturava ferimentos, fazia sangrias, extraía dentes e reduzia fraturas. No fundo, aquele que o enfermo procurava quando tinha uma moléstia que podia ser curada; aquele por quem o ferido gritava desalmadamente durante ou após as sangrentas batalhas! Estávamos na Idade Média, todo o homem, doente ou não, precisava de um barbeiro-cirurgião!

Passados mais de cinco séculos, o cirurgião é um médico com uma longa formação teórico-prática, acrescida de um longo período de atividade tutelada e cuja competência, conhecimento e competitividade são facilmente escrutinados pelos seus resultados. Acresce a responsabilidade de passar o testemunho e assegurar a formação de novos cirurgiões, desenvolver novas técnicas e tratamentos e contribuir para a evolução das Ciências Biomédicas e da Investigação de Translação com carreiras académicas e publicações científicas nas revistas mais prestigiadas.

Uma coisa não mudou! Continua a ser um trabalhador manual, aquele que faz, aquele que decide, aquele que trata e aquele que cura! Entusiasta por novas técnicas e pela evolução, o Cirurgião é persistente e até atrevido, mas respeitador do método científico e das melhores evidências. É nele que o doente mais grave e complexo deposita a sua esperança e confia o seu destino. Por isso, o cirurgião é paciente, amável, otimista e tem carisma. É um líder reconhecido pelos pares pela sua capacidade de gestão, de liderança e de trabalho em equipa. Rigoroso e metódico, o cirurgião mantém-se atualizado e preparado, especializa-se e subespecializa-se e torna-se uma referência.

Ser cirurgião é conciliar a empatia e humanidade da doutrina hipocrática com a agressividade e incisão do bisturi. Esta bipolaridade e paroxismo obrigam a uma postura de alerta constante, exigência infinita e estudo e práticas incessantes. No bloco operatório, percorre caminhos contundentes entre estruturas frágeis e vitais que não toleram descuidos nem movimentos descoordenados, e o obrigam com frequência a improvisar e a decidir de imediato, suprindo o espaço com a sua habilidade e criatividade.

O cirurgião é aquele que decide sem contestação ou reticência, assumindo a responsabilidade por tudo e por todos! É aquele a quem o doente ou os familiares reconhecem os bons e maus resultados! Toda a equipa é essencial e importante, mas quase sempre totalmente desconhecidos do doente e familiares, que escolheram e se lembrarão sempre, para bem ou para o mal, do cirurgião e das suas decisões imediatistas e prepotentes. Mas no seu sigiloso interior o cirurgião também sofre e se angustia, enquanto sorri e fala tranquilo... Seu fardo só não é excessivo, quando realmente se tem alma de cirurgião!

E ter alma de Cirurgião é ser ousado, é ser inovador e progressista, é ter atitude crítica, é não se conformar, é duvidar, é opinar, é refletir, é divulgar, é melhorar, é não calar, é não parar... Daí pergunto, quantos de nós tivemos o atrevimento de dirigir uma crítica ou publicar um comentário ou exprimir alguma saudável ironia?

Parabéns aos meus colegas que muito me orgulham pela sua coragem ao submeter uma carta ao editor e revelar um olhar atento e comprometido e que souberam expor aquilo que, possivelmente, alguns de nós também pensamos...mas não exprimimos! Mas também parabéns aos autores que com toda a naturalidade receberam o comentário/crítica e com toda a elegância e rigor científico souberam responder!

Todos vós sois ousados e atrevidos! Todos vós tendes alma de cirurgião!